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2000 • Alguns aspectos da Indústria Conserveira em Setúbal


Colecção Can the Can

O texto que se segue tem como objectivo dar alguns contributos para o conhecimento da aprendizagem e construção social do género em meio fabril conserveiro. 0 enfoque dado a esta problemática resulta do facto de se tratar de um sector profundamente marcado por uma divisão sexual do trabalho, onde predominam claramente as mulheres que fazem o seu tirocínio desde jovens ou mesmo crianças em meio fabril pela mão de familiares, vizinhas e amigos.

Este estudo insere-se num projeto de investigação sabre memórias profissionais desenvolvido pelo Centro de Estudos de Etnologia da Universidade Nova de Lisboa (no caso da industria conserveira teve a colaboração do Museu do Trabalho Michel Giacometti/C.M.S) que analisou comparativamente os sistemas sociotécnicos dos seguintes sectores industriais: conserveiros, corticeiros, vidreiros e tipógrafos.

Relativamente aos conserveiros, o estudo que agora se apresenta teve como base um aturado trabalho de campo, iniciado em 1987, em fabricas de conservas de Setúbal (em laboração até 1995), e a recolha e analise de conteúdo de histórias de vida de, mais de cinco dezenas, de operarias e operários desta industria, das quais selecionamos 36 para este trabalho que abarca setenta a nos de vida operária (1920-1990).

A complexidade deste universo fabril, levou-nos a restringir o objecto de estudo ao “fabrico do cheio” (a produção da conserva), com breves referências ao “fabrico do vazio” (a produção das latas) na medida em que estas duas cadeias operatórias são convergentes e por vezes, até coincidem no mesmo espaço fabril.

Para além dos testemunhos orais e da observarão de campo realizada ao longo de vários anos, dentro e fora dos espaços fabris, nos bairros, nos pátios operários e nas Sociedades recreativas, realizamos um levantamento das fichas de inscrição no Sindicato das Conservas da Zona Sul com 10.912 registos que nos permitiu caracterizar segundo alguns itens, a população operaria conserveira no período de 1918 a 1981 .

Também se revelou importante a consulta de artigos sabre história local, relativos a temática em estudo e a consulta de vários números da revista “Conservas” editada pelo instituto Português de Conservas e Pescado.

0 trabalho realizado, nu ma vertente hist6rica e antropol6gica, teve no inicio uma motivação ao de carácter museológico e patrimonial na medida em que as autoras integraram a equipa que elaborou o programa do Museu do Trabalho Michel Giacometti, aberto ao publico, em Setúbal, no ano de 1995, onde se encontra reunido parte do espólio das fabricas de conserva de Setúbal, assim como os arquivos do Sindicato das Conservas e de uma antiga fabrica (SAUPIQUET).

O próprio museu reconstitui, numa exposição permanente, parte da cadeia operatória do fabrico da conserva, mantendo intactos os equipamentos fixos (pios de lavagem, tanques de mouras e bancas de azeitar), recreando outras etapas com máquinas e materiais recolhidas noutras fábricas da cidade, que tinham o mesmo modelo de organização do espaço fabril e do sistema de trabalho.

Ana Duarte
Isabel Victor

 

 

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Alguns Aspectos da Indústria Conserveira em Setúbal (2000)
Edição do Departamento de Cultura, Educação e Desporto da Câmara Municipal de Setúbal

2000 Alguns Aspectos da Indústria Conserveira em Setúbal