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2014 • Jornal Público • Conservas em Tempos de Guerra


Conservas em Tempos de Guerra

No Público de 1 de Setembro 2014, um artigo de Ana Rute Silva.

Conservas em Tempos de Guerra

I GRANDE GUERRA – LONGFORM
A I Guerra Mundial deu “lucros! muitos lucros!” à indústria das conservas
As conservas portuguesas alimentaram os soldados nas trincheiras, mas a voragem do lucro e as fraudes no produto conduziram ao descrédito do sector no final do conflito.

É difícil imaginar um soldado a combater numa guerra, com fome e frio, preparado para abrir uma lata de conserva de sardinha e só lá encontrar serradura. Ou talos de couve. Ou cabeças de peixe.

A indústria portuguesa das conservas estava ao rubro com o aumento da procura. A conservação de alimentos permitida pela esterilização era perfeita para alimentar os milhares de homens atirados para as trincheiras e, se vender para o estrangeiro já antes era uma realidade para os empresários, com a I Guerra Mundial o sector teve o seu arranque definitivo. Contudo, para alguns, a ânsia do lucro foi mais forte.

Joaquim Vieira Rodrigues, professor do ensino secundário que dedicou a sua tese de mestrado ao estudo da indústria no Algarve, recorda que 80 a 90% das conservas já antes do conflito eram destinadas à exportação, até porque em Portugal “ninguém tinha dinheiro para as comprar”. A região sul foi o berço da nação conserveira: foi aqui que, em 1865, se utilizou pela primeira vez o processo de “appertização” numa fábrica de atum em azeite da Ramirez, em Vila Real de Santo António. Este método de conservação de alimentos foi descoberto pelo francês Nicholas Appert e aperfeiçoado pelo inglês Peter Durand, que patenteou a lata de metal para conservar comida em 1823. Pasteur demonstrou, mais tarde, os princípios científicos do processo, daquela que foi a primeira versão de alimento pré-cozinhado da história da humanidade, como refere Chagas Duarte, num artigo que escreveu para a Associação do Espaço de Património Popular (Aldraba). Em 1880, a sardinha em conserva é produzida pela primeira vez em Setúbal, onde nas duas primeiras décadas do século XX se produziam dois terços de toda a conserva nacional.

Com a guerra de 1912-1918 as vendas para o estrangeiro aumentaram, “em quantidade mas, sobretudo, em valor”, recorda Joaquim Rodrigues, que se doutorou em História Económica e Social Contemporânea. As conservas eram enviadas não só às tropas portuguesas que combatiam em África e na Flandres, mas também aos exércitos de países aliados contra a Alemanha. Inglaterra, França e Itália eram os principais destinos.

Num pequeno artigo publicado em 1949, o tenente médico veterinário Álvaro Joaquim Fernandes Ferreira, enaltece as vantagens da comida enlatada na alimentação das tropas em campanha. Recorda que “a duração de uma contenda é difícil de prever” e, por isso, as conservas oferecem vantagens “sem paralelo” porque permitem “distribuir a cada soldado uma série de rações de prolongado período de conservação que, aliado ao seu reduzido volume e peso, lhes garante por muitos dias autonomia alimentar – exigência humana que se torna necessário satisfazer para o bom desempenho das missões bélicas”. O autor cita, sem identificar, “um famoso oficial que participou nas campanhas contra Napoleão” que declarava: “O apetite, eis a primeira exigência do exército”. Na guerra de 1914 essa exigência esteve longe de ser cumprida.

Fisicamente longe do conflito, a indústria aproveitava a oportunidade. A exportação – cerca de 90% era de sardinha, mas também incluía atum e outro peixe não especificado – passou de 25.794 toneladas em 1913, para 40.838 toneladas em 1919. Os dados disponibilizados pelo INE mostram ainda que, em valor, as vendas valiam 2484 contos um ano antes da guerra. Um ano depois do conflito, em 1919, tinham aumentado para 22.937 contos. Em 1920, as exportações de sardinha chegaram a valer 40.949 contos, mesmo que em quantidade o país tivesse exportado consideravelmente menos.

Perante a crise e no início do conflito, o governo republicano autorizava a instalação de armazéns gerais em Setúbal, Olhão, e Lagos. Seriam ali depositadas conservas, sujeitas a análises e exames”, que iam desde provas de soldadura ou cravação, ao estado do conteúdo da lata, escreve Joaquim Rodrigues. Os armazéns financiavam as conserveiras e as novas fábricas surgiam como cogumelos.

Amadeu Henrique Nero mudou o negócio familiar de peixe salgado e seco (que exportava para Itália ou Espanha) para a produção de conservas em Sesimbra em 1912, ou seja, quatro anos antes de Portugal ter entrado formalmente em guerra com a Alemanha. Nessa altura, estavam registadas no país 106 unidades, quase metade na região de Setúbal, conta José Nero, neto do industrial. Em 1916 o número aumentou para 110, um ano depois, para 188 e, em 1918, chega às 223 fábricas.

“Há muitas que aparecem mas desaparecem no final da guerra porque era o negócio da altura. Houve até uma fábrica em Setúbal dentro de um barco velho e encalhado”, recorda. Durante o conflito, as marcas criadas pelo avô, Catraio (atum) e Georgette (sardinha), eram exportadas para França, Itália e Inglaterra, numa altura em que a “indústria estava desorganizada e em que cada um fazia o que queria”. José Nero, que em 2010 trouxe de volta ao mercado as duas marcas históricas, recorda os relatos de latas recheadas de talos de couve, serradura ou mesmo vazias, que os industriais mais ambiciosos não hesitavam em enviar para os clientes. Por seu lado, Joaquim Rodrigues conta que há referências de barcos afundados ao largo do Cabo de São Vicente para que os empresários pudessem ser compensados pelos seguros. O contexto era de verdadeira euforia.

O investigador diz que durante a guerra, e até 1922, só no Algarve o número de fábricas triplicou. A depreciação do escudo e o fácil acesso ao crédito deram o empurrão necessário para esta produção descontrolada. As “casas comerciais e bancárias forneciam desde os materiais até ao dinheiro para comprar peixe, com a condição de receberem em consignação todas as conservas fabricadas”, refere no seu estudo, citando o número 133 do Boletim do Trabalho Industrial. Havia dinheiro, mas muitos empresários usavam-no para o “luxo, jogo e passeios”, outros para comprar propriedades e casas luxuosas e “poucos foram os que, pensando no futuro, trataram de preparar as suas fábricas com alguns melhoramentos indispensáveis para poderem trabalhar depois da guerra, em concorrência com o estrangeiro que, de dia para dia, ia aumentando a produção”.

Em 1917, Manuel Ramirez já tinha traçado um rumo estratégico para a empresa, que ainda hoje perdura ligada à mesma família. Em vez de se limitar à exportação queria fidelizar mercados e, por isso, apostava nas suas marcas para ganhar clientes de forma sustentável. Uma delas era a Cocagne, lançada em 1906 a pensar no mercado belga e que ainda existe. No momento da guerra, a Ramirez “aumentou a sua produção mas ao contrário de outros fabricantes, que visavam apenas o lucro imediato, não aumentou desordenadamente os seus elementos de produção, sem atender a que o consumo era anormal e transitório”, lê-se no livro “Ramirez, Memórias de Cinco Gerações”, editado pela empresa.

Mas a exportação enriqueceu os empresários. Não só Manuel Ramirez, como também Júdice Fialho, que chegou a ser o maior industrial nacional e ibérico das conservas. No Algarve, “não havia braços que chegassem para a laboração das fábricas”, com homens, mas sobretudo, mulheres e crianças a garantirem a produção a baixo custo, conta Joaquim Rodrigues. A população aumentou, agravando problemas de habitação, higiene e salubridade. Ao mesmo tempo, a subida constante dos preços das conservas compensava as crises de matéria-prima.

Em 1917, a Inglaterra permitia a importação de folha-de-flandres (necessária para revestir a lata e evitar a ferrugem) em quantidades muito limitadas e, um ano depois, o governo regulava o acesso à folha e ao estanho através de um decreto de lei para que houvesse uma “distribuição equitativa pelas empresas conserveiras”. Os ingleses temiam que o estanho pudesse ser vendido aos alemães e o embargo levou mesmo ao encerramento de fábricas.

O azeite também era escasso. O governo republicano quis conciliar os interesses das colónias portuguesas (que produziam, por exemplo, óleo de amendoim que era usado nas conservas), com os industriais do azeite da metrópole e os conserveiros, “em pleno crescimento das exportações”, continua Joaquim Rodrigues. O preço do azeite aumentou e a especulação de comerciantes e intermediários levou a Direcção-geral de Economia e Estatística Agrícola a questionar as fábricas sobre as quantidades consumidas. A falta desta matéria-prima também fechou unidades e despoletou protestos de operários.

Os ingleses temiam que o estanho pudesse ser vendido aos alemães e o embargo levou mesmo ao encerramento de fábricas

O professor algarvio encontrou descrições da voragem do lucro em textos do Boletim Industrial escritos por técnicos da Direcção-geral das Indústrias. Neles, fala-se no “descrédito internacional” pelas fraudes e falta de cuidado da produção: “A grande maioria dos conserveiros portugueses pôs absolutamente de parte todos os princípios de higiene e tendo unicamente como objectivo fabricar muito e vender depressa – porque então tudo se vendia para os países em luta – começou a encher as latas de qualquer espécie de peixe”.

“Lucros, muitos lucros! Fábricas, muitas fábricas! Era verdade que o escudo desvalorizava quase de dia para dia, que os preços das matérias-primas subiam vertiginosamente, que os escudos que recebiam pela venda da conserva não chegavam para fabricar a mesma quantidade de mercadoria. Mas ninguém, ou poucos, se preocupavam com essas ninharias”, escreve também Francisco José Guerra, em A indústria das conservas nos contratos colectivos e no pós-guerra.

Nos anos 1920, os governos republicanos aplicaram vários regimes de taxas sobre as exportações de conserva de sardinha, publicando sucessivos decretos-lei. Joaquim Rodrigues conclui que o Estado, devido às dificuldades atravessadas no final do conflito, teve a “tendência para aumentar os direitos de exportação das conservas”. Mas quando a guerra acabou, os preços das conservas caíram, os lucros “e as fortunas esvaíram-se em fumo”. E apareceram as reclamações pelas fraudes praticadas. As latas não se vendiam, os bancos começaram a pressionar os empresários para o pagamento dos juros e comissões, apropriando-se de muitas fábricas. Joaquim Rodrigues encontrou uma intervenção do deputado José Luís Supico na Assembleia Nacional de 1935 em que se fala da “prosperidade artificial” da guerra e do pós-guerra gozada pela indústria. Em pânico, os industriais chegaram a pedir ao governo para que “os delegados à Conferência da Paz recomendassem o consumo de conservas portuguesas de peixe nos países que os aliados tivessem submetido à paz”.

São tempos conturbados, com reformas económicas que incluem a valorização do escudo a partir de 1924, que levaria a uma queda acentuada das exportações. “A conserva perdeu o poder que tinha nos mercados e houvesse muito desemprego. Só em Olhão, em 1925, havia 60 fábricas encerradas”, conta Joaquim Rodrigues.

Das 400 unidades registadas em 1926, restaram 158 em 1938. A II Guerra Mundial iria trazer de volta um novo período de ouro, mas nem mesmo nessa altura foram ultrapassados os números de exportação alcançados em 1923, de 53.599 toneladas.

A histórica indústria tem resistido às intempéries e, hoje, está representada em 20 fábricas, a maioria concentrada no Norte do país. Exporta entre 60 a 65% da sua produção e, em 2013, conseguiu estar, pela primeira vez desde 2009, entre os três produtos mais exportados (depois do vinho e do azeite), ultrapassando as cervejas. O ano passado, as vendas internacionais ultrapassaram os 206 milhões de euros, mais 15,6% do que em 2012. Não só manteve clientes fiéis na Europa, como cativou o mercado interno.

Bibliografia: 
Rodrigues, Joaquim Vieira – A indústria de conservas de peixe no Algarve (1865-1945), 1997; Ferreira, Álvaro Joaquim Fernandes – As conservas enlatadas na alimentação das tropas em campanha, 1949; Ramirez, Memórias de cinco gerações, 2011, edição da empresa