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A Indústria Conserveira de Sesimbra nos Primórdios do Estado Novo (1933-1945) • 1/5


Colecção Can the Can

 

A INDÚSTRIA CONSERVEIRA DE SESIMBRA NOS PRIMÓRDIOS DO ESTADO NOVO
(1933-1945)

Andreia da Silva Almeida
Lisboa, 22 de Dezembro de 2011

ÍNDICE

INTRODUÇÃO 6

1. SESIMBRA: DÁDIVA DO ATLÂNTICO 10

2. O ALVORECER DA INDÚSTRIA CONSERVEIRA 15

3. O PROCESSO DE FABRICO DAS CONSERVAS DE PEIXE 23

3.1. O Processo de Fabrico do «Cheio» 23

3.2. O Processo de Fabrico do «Vazio» 30

4. OS OPERÁRIOS CONSERVEIROS 39

4.1. A Difícil Sobrevivência dos Soldadores 41

4.2.Os Operários do «Cheio» 44

4.3.A Hierarquia do Trabalho Conserveiro do «Cheio» 47

5. AS FÁBRICAS CONSERVEIRAS DE SESIMBRA 51

5.1.A Nero & Cª (Suc) Ldª 53

5.2.Artur Duarte Borges 60

5.3.Pereira, Neto & Cª 63

5.4.Viúva de Joaquim Gomes Covas & Filhos Ldª 66

6. NOS TEMPOS DA PRIMEIRA REPÚBLICA 73

7. OS ANOS DA DITADURA MILITAR 82

8. O ESTADO NOVO E A INDÚSTRIA CONSERVEIRA SESIMBRENSE 101

8.1.A Difícil Implementação de um Contrato Colectivo de Trabalho 117

8.2.A Fundação do I.P.C.P. e a Inauguração da Luz Eléctrica 130

9. NOS ANOS DO HOLOCAUSTO 139

9.1.A Monografia de Sesimbra e a Visão Negativista de Hernâni Bernardo 148

9.2. O Grande Ciclone de 1941 153

9.3.Sesimbra (1941-1943): Entre a Recuperação e o Declínio 158

CONCLUSÃO 169

NOTAS AO TEXTO 174

FONTES E BIBLIOGRAFIA 181

 

 INTRODUÇÃO

 

A situação económica portuguesa e europeia, na actualidade, levanta bastantes questões acerca da importância da actividade industrial enquanto geradora de riqueza. Na verdade, o quadro actual revela-nos uma clara desindustrialização da Europa e de todo o Ocidente, em virtude do crescimento de países emergentes, como é o caso da China, do Japão e de vários outros países asiáticos. Na verdade, esta desindustrialização do Ocidente poderá ser a causa, ou uma das causas, da grave crise económico-financeira que se vive presentemente, cujo preço será, entre outros, a impossibilidade da manutenção de um Estado social.

Cientes da situação económica actual, pensámos que seria importante reavivar a memória de um passado em que Portugal foi próspero enquanto país produtor de uma grande variedade de produtos e bens essenciais. Nesta perspectiva, é impossível esquecer a vital importância do nosso país durante o obscuro período da II Guerra Mundial, cuja situação de neutralidade colaborante permitiu suprir vários países beligerantes com bens de primeira necessidade. Sendo a alimentação uma necessidade básica do ser humano, considerámos que seria de extremo interesse a investigação das bases da indústria conserveira portuguesa durante o período de esforço de guerra, investigando, da mesma forma, a sua evolução desde os primórdios e, especialmente, desde a implantação, em Portugal, de um regime autoritário que iria preconizar a instalação do Estado Novo, em 1933.

A indústria conserveira foi, sem sombra de dúvida, até certo ponto, uma indústria subsidiária da indústria de guerra. Tal foi claramente observável durante o período em que decorreu a I Guerra Mundial e sê-lo-ia mais uma vez, poucos anos depois, durante a II Guerra Mundial. Que pensar de um produto alimentar barato, extremamente nutritivo, saboroso, de qualidade, fácil de transportar, com grande prazo de validade? Não seria este o princípio fundamental que levaria à produção de rações de combate? Não seria esta uma forma de garantir a alimentação, ou até mesmo de salvar a vida, a uma plêiade de europeus que se veriam absorvidos no conflito, civis e militares, homens, mulheres, crianças, judeus, cristãos…? Não espanta, pois, a enorme valorização que estes produtos conheceram durante os anos em que decorreram as duas Grandes Guerras…

A escolha de Sesimbra enquanto território em estudo centrou-se em vários pressupostos, designadamente a pertinência do estudo de uma localidade em que a indústria conserveira, desde cedo, se implantou e que, paulatinamente, foi perdendo as suas unidades industriais, remanescendo apenas três grandes empresas, estudadas com maior exaustão e cuja exiguidade numérica facilitaria o seu estudo. Mais ainda, Sesimbra era um importante porto de pesca, constituindo um dos objectivos desta investigação aferir a provável existência de uma relação próxima entre a indústria conserveira e a indústria pesqueira naquela área. Não podemos, ainda, esquecer que Sesimbra era um centro conserveiro que estava próximo da capital e de outro grande centro conserveiro português, Setúbal. Seria, da mesma forma, interessante averiguar se esta localização, de grande proximidade em relação aos principais centros portugueses teria sido benéfica para a vila.

É evidente que este estudo se enquadra numa investigação centrada na História Regional, numa vertente claramente económica e social, na medida em que é impossível estudar as grandes alterações económicas e industriais nacionais sem percepcionar as alterações sociais e as mudanças políticas que lhes estiveram subjacentes. Se, na verdade, falamos numa História Regional nunca deveremos esquecer que ela se insere num contexto global, económico, político, social, mental e cultural que não pode ser esquecido, nem sequer ignorado. Neste contexto, ao longo desta investigação, Sesimbra será sempre percepcionada enquanto uma pequena vila pertencente a um país europeu pobre, que por força do xadrez político e da sua localização setentrional terá sido poupado, pela sua neutralidade, aos horrores do holocausto.

Para a execução desta investigação recorremos a várias fontes. Talvez a fonte primordial tenha sido uma fonte jornalística, em que não podemos deixar de sublinhar a importância do jornal regional O Cezimbrense, para a consolidação de uma visão microscópica sobre o território em estudo. Para uma consolidação dessa visão específica, não podemos deixar, ainda, de destacar a importância da documentação existente no Arquivo Municipal de Sesimbra, embora consideremos que, a este nível, de suporte a uma história de cariz económico e social, nos tenha parecido insuficiente. Contudo, não é possível deixar de salientar a importância dos espólios fotográficos daquele arquivo, essenciais para compreendermos a temática em estudo. A importância dos testemunhos fotográficos é, em nosso entender, essencial para a História contemporânea, constituindo fontes tão ou mais importantes do que as escritas, pela sua força e demolidora realidade. No que diz respeito às fontes fotográficas terei, ainda, de evidenciar e agradecer o apoio de duas personalidades, nomeadamente, João Aldeia e José Nero, que contribuíram com vários documentos provenientes dos seus arquivos pessoais. Porque a história regional deve ser contextualizada na história geral, recorremos, ainda, ao Arquivo da Direcção Geral de Pescas e Aquicultura, onde estão custodiados os fundos dos antigos Consórcio Português de Conservas de SardinhaConsórcio Português de Conservas de Peixe, Instituto Português de Conservas de Peixe e Grémio dos Industriais de Conservas do Centro, fundos essenciais para o estudo da indústria conserveira sesimbrense e portuguesa durante o Estado Novo. Para terminar, há ainda a sublinhar a colaboração de José Nero, herdeiro e seguidor do seu pai e avô na indústria conserveira, que nos deu algumas entrevistas nas quais descreveu a história daquela que foi uma das empresas mais prósperas estabelecidas em Sesimbra, a Nero & Cª (Suc) Ldª. Como se entende do ofício do historiador, as fontes consideradas foram alvo de uma análise crítica, essencial para a execução de todo o discurso historiográfico.

Concluindo, esperamos que este trabalho consiga atingir o seu objectivo primordial que é o de mostrar aos leitores que Portugal, em geral, e Sesimbra, em particular, ostentam um passado industrial, e que mesmo algumas regiões que, na actualidade, apenas são lembradas durante o verão, enquanto centros turísticos, são vilas com grande potencial industrial, aproveitado no passado e que, talvez, não devesse ser esquecido. Esta é a história da indústria conserveira de Sesimbra, é a história dos seus operários, homens, mulheres e crianças que, durante quase um século puseram a funcionar uma das maiores indústrias de exportação portuguesas. Esta é, também, a história dos pescadores de Sesimbra, pais, maridos e filhos do operariado conserveiro daquela vila, homens que se fizeram ao mar para capturar a matéria-prima essencial que tornaria possível esta indústria: o peixe. Este trabalho de investigação é, pois, um contributo para o delinear da história económica e social de Sesimbra durante o século XX.

Andreia da Silva Almeida