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2015 • A Indústria Conserveira em Vila Real de Santo António  (1/2)


A Indústria Conserveira em Vila Real de Santo António  (1/2)

 

Ismael Estevens Medeiros –  Mestre em Arqueologia / Investigador em Recursos Marinhos na Arqueologia Romana.

Pedro Miguel Bandarra  –  Pós-graduado em História do Algarve / Investigador do Centro de Estudos em Património, Paisagem e Construção.

 

RESUMO

In the middle of the 19th century, during the Industrial Revolution, a set of canned fish industries associated to the fishing ports was set up in the southwest of the Iberian Peninsula. Several factories were set up at the Eastern end of the Algarve, Vila Real de Santo António being one of the centres of industrialisation brought to the area by international corporations. This study analyses the specificities of the local canned fish industry and the social and economic impact of its production in the region. It describes production processes and stages, the machinery used, the social records of the people involved and the way the factory architecture has been concealed by the town.

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Au milieu du XIXème siècle, dans le contexte de la révolution Industrielle, s’est installé dans le sud-ouest de la Péninsule Ibérique un ensemble de conserveries associées aux ports de pêche. A l’extrême est de l’Algarve se sont fixées différentes fabriques, étant Vila Real de Santo António une des localités-phares de l’industrialisation apportée par des multinationales. L’étude analyse l’individualité de la conserverie locale et l’impact socio-économique de ses productions dans la région. On décrit les procédés et étapes productives, la machinerie utilisée, le registre social des personnes concernées et l’architecture manufacturière dissimulée dans la ville.

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Em meados do século XIX e no contexto da Revolução Industrial que despontara no Reino Unido, instalou-se no Sudoeste da Península Ibérica um conjunto de complexos conserveiros associados aos principais portos piscatórios. Em Portugal, o extremo oriental algarvio foi alvo central da fixação de fábricas piscícolas, sendo Vila Real de Santo António (VRSA) uma das localidades-palco da industrialização trazida pelas empresas multinacionais.

O objeto em estudo neste artigo é a análise da individualidade conserveira de VRSA e o impacto sócio e conómico que estas produções tiveram no Sotavento Algarvio. Descrevem-se, de forma sucinta, os processos e etapas de produção das conservas, quer com base em salmoura quer em azeite e molhos, recuperando-se a maquinaria que resistiu à passagem do tempo a partir dos escassos espaços musealizados da era industrial em Portugal. Do campo da musealização da cultura material desta indústria devem-se louvar tentativas de divulgação de um Património que se constituiu igualmente de rostos e memórias das gentes que durante décadas fizeram da atividade conserveira a sua causa e ganha-pão. Nesse contexto, o presente trabalho teve por base a exposição levada a cabo no Arquivo Histórico Municipal de VRSA pela edilidade local com dinheiros comunitários.

Sendo este um tema sobre o qual a maior parte da construção alvo de estudo já não existe ou foi significativamente alterada, não se elaboraram quaisquer fichas de sítio. O trabalho de campo limitou-se ao registo escrito e fotográfico das materialidades vigentes no urbanismo da cidade e à conjugação dos mapas atuais com os topónimos da época. A fábrica da Ramirez foi a única que se preservou até ao presente, ainda que em avançado estado de degradação. Levantou-se a fachada principal do edificado, mas não foi possível registar dados relativos à sua arquitetura interior por se encontrar inacessível.

Identificaram-se com relativa facilidade as fábricas cuja localização estava definida e apontou-se, sobre as demais, o local de fixação provável ou hipotética, tendo em conta que na diversa bibliografia consultada constavam várias vezes referências às fábricas de menor amplitude, mas em que estavam omissas as localizações.

Consultou-se documentação no Arquivo Municipal de VRSA e bibliografia referente à temática, sem descurar a busca por fontes orais. Luigi Rolla, filho de um operário conserveiro emigrado da Itália que se fixou na vila, constituiu a pessoa indicada para uma entrevista que se revelou enriquecedora e da qual se pôde recolher informação que não se encontraria nas publicações. Justifica-se o facto de, ao longo deste texto, estarem omissas, de um modo geral, referências ou citações da bibliografia manipulada. Tendo sido este trabalho um resultado do âmbito da disciplina de Arqueologia Industrial do curso de Licenciatura em Património Cultural da Universidade do Algarve, lecionada em 2008 por João Pedro Bernardes e, tendo sido solicitada no final do ano de 2012 a sua publicação no sítio web do restaurante gourmet Can The Can Lisboa (www.canthecanlisboa.com), a qual acabou por não acontecer até à data, optou-se por publicá-lo com ligeiras alterações face à estrutura do primeiro trabalho.

O impacto socioeconómico de uma atividade entendida como subsector da laboração piscícola foi exponencial. Por isso, teve-se em consideração aspetos respeitantes ao proletariado e a empresários industriais, ao desenvolvimento da região e despertar de indústrias subservientes.

Assim, descrevem-se os processos de fabrico das conservas maioritárias, ou seja, atum e sardinha, tal como a maquinaria e instrumentos manipulados. Os limites cronológicos são, genericamente, o aparecimento da indústria conserveira na vila até aos anos 70 do século XX, aquando do declínio da produção ou abandono das fábricas.

Considerou-se, à data da realização do trabalho académico, ser esta a metodologia que melhor se ajustava ao estudo e às condicionantes vigentes, até porque o objeto era a generalidade da indústria conserveira de Vila Real de Santo António e não o estudo pormenorizado de cada uma das fábricas já dissimuladas na malha urbana, sobre as quais não abundam dados. Com o resultado obtido o leitor ou investigador interessado no tema pode usufruir de uma visão abrangente do panorama industrial conserveiro daquela localidade algarvia, esperando que o trabalho constitua um incentivo a alunos de História, Arqueologia, Património cultural e outros a guiar pesquisas para campos da nossa história mais recente.

 

 

BIBLIOGRAFIAAAVV (2007) –  A Indústria Conserveira em Vila Real de Santo AntónioEditora Guadiana Lda. (catálogo da exposição).
AAVV (s.d.) – Vila Real de Santo António. Cidade de Suaves Mutações: um século de fotografias . Câmara Municipal de Vila Real de Santo António.
CAVACO, Carminda (1976) – O Algarve Oriental. As Vilas, o Campo e o Mar Faro: Gabinete do Planeamento da Região do Algarve. Vol. 2, pp. 295-344.
CAVACO, Hugo (2001) – Toponímia de Vila Real de Santo AntónioCâmara Municipal de Vila Real de Santo António.
CHAGAS, Fernando (2001) – “O Sector Conserveiro Português: análise regional, história e futuro”. Revista Tecnipeixe . Lisboa. OLIVEIRA , Ataíde (1908) – Monografia do Concelho de Vila Real de Santo António.Faro: Algarve em Foco Editora, p. 175.
RODRIGUES, Joaquim Manuel Vieira (1999) – “Vila Real de Santo António, Centro Piscatório e Conserveiro”. In
MARQUES, Maria da Graça Maia (coord.).O Algarve, da Antiguidade aos Nossos Dias . Lisboa: Edições Colibri, pp. 416-423.

F
ONTE ORAL
ROLLA, L. (2008) – comunicação pessoal, 12 de Outubro de 2008, V RSA  .(entrevista a Luigi Rolla, filho de operário conserveiro emigrado da Itália, que colaborou na exposição do Arquivo Histórico Municipal de V  RSA 
alusiva à indústria conserveira da cidade)
O presente artigo foi publicado na revista Al-Madan II Série, n.o 19, tomo 2, Janeiro 2015