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2015 • A Indústria Conserveira em Vila Real de Santo António (2/2)


A Indústria Conserveira em Vila Real de Santo António (2/2)

Ismael Estevens Medeiros –  Mestre em Arqueologia / Investigador em Recursos Marinhos na Arqueologia Romana.

Pedro Miguel Bandarra  –  Pós-graduado em História do Algarve / Investigador do Centro de Estudos em Património, Paisagem e Construção.

 

1. AS FÁBRICAS IDENTIFICADAS E A TOPONÍMIA

As fábricas identificadas na planta da cidade (Fig. 2) são as seguintes:

1. Aliança, na Avenida do Ministro Duarte Pacheco;

2. Angelo Parodi, na Avenida D. Amélia (atual Avenida da República);

3. Arménio e Cardoso, na Rua do M.R.L.;

4. D. N. Charalampopoulos S. A. Salaisons, mais conhecida como “Fábrica do Grego”, na Avenida D. Amélia (Fig. 1);

5. F. R. Tenório & Sucessores, na Rua do Príncipe Real;

6. Ramirez & C.ª Lda, na Avenida D. Amélia;

7. Salles, idem;

8. Vitória, idem.

 

Al-Madan_19-2_-_Artigo_MEDEIROS___BANDARRA Fig.1 Fábrica do Grego

IMG_1011praca peixe e avenida republicaPraça de peixe e avenida da República

IMG_1012 praca peixePraça de peixe

Entre as fábricas patentes na bibliografia mas não identificadas no urbanismo de VRSA são de assinalar:
a fábrica Centeno Cruz & Companhia, nalgum ponto da Avenida D. Amélia;
a Esperança;
a Folque, que em 1961 integrava, juntamente com a Peninsular, o grupo COFACO, Comercial e Fabril de Conservas Lda;
a Guadiana;
a Jar e Lisboa;
a Pedro J. Cândido & Companhia, que ficava na Rua do Príncipe Real; a Piloto Cruz & Companhia, na Avenida D. Amélia;
a Santa Maria; a São Francisco;
e, por último, a São Sebastião.

Foi possível avançar com as localizações presumíveis de algumas fábricas ao levar-se em conta a conjugação da toponímia com as marcas deixadas no urbanismo (Fig. 2):

 

Al-Madan_19-2_-_Artigo_MEDEIROS___BANDARRAFIG. 2 − Planta atual de Vila Real de Santo António, com área de afetação das fábricas de conservas de peixe e indústrias identificadas.

 

A Norte da construção que albergou as produções Ramirez, ergue-se ainda hoje um complexo edificado onde as chaminés podem ser encaradas como vestígios de indústrias conserveiras dos finais do sé culo XIX ou inícios do século XX. Sabe-se que pertence à família Horta Correia;

No mesmo mapa podem ver-se assinalados os quarteirões da Avenida da República, onde assentariam, à época, presumíveis complexos conserveiros.

IMG_1014 fabricas conserva e estaleiros na av republicaFábricas conserva e estaleiros na avenida da República

As marcas da magnificente indústria conserveira vila-realense estão hoje, na maioria, embebidas na malha urbana, sendo a toponímia das ruas um indício da existência das fábricas. O aproveitamento de grandes espaços abertos que haviam caído em abandono foi uma prática generalizada na segunda metade do século XX, sendo paradigmático o atual edifício da Capitania do Porto, cujos alicerces devem assentar sobre ruínas de uma antiga fábrica, sendo elevada a probabilidade de ainda se encontrarem vestígios arqueológicos do período em que esta laborava.

A quase totalidade dos edifícios das fábricas não se preservou até hoje, já que é evidente que vigorou uma natural política de re aproveitamento de espaços, dada a imponência e amplitude construtivas e subsequente funcionalidade. O edifício onde se instalou a Ramirez e o complexo não decifrado, a Norte deste, são sobreviventes ímpares, ainda que arruinados, de um Património arqueológico que marcou física e socialmente a história da cidade e das gentes do mar.

 

 

2. A REALIDADE CONSERVEIRA E A INDIVIDUALIDADE PISCATÓRIA DE VRSA

 

Vila Real de Santo António teve, desde a sua origem, uma participação ativa no projeto da corte de D. José I desenvolvido pelo Marquês de Pombal, da “Restauração do Reino do Algarve”, passando pela formação, nessa região e a partir de 1773, da “Companhia das Reais Pescarias”.

Durante praticamente todo o século XIX, a realidade industrial do Sotavento algarvio as sentava na existência das indústrias de salga de atum ou sardinha, cujos produtos eram destinados em grande parte ao mercado espanhol. É no último quartel do século que a região e mais concretamente Vila Real de Santo António e Olhão assistem à fixação generalizada de fábricas de conservas em azeite e molhos, quer resultantes de iniciativas independentes, quer de sucursais estrangeiras.

Estas foram resultado de investimentos de homens de negócios abastados, sobretudo portugueses, franceses, italianos e espanhóis. Enquanto os franceses tiveram passagens efémeras, orientando as suas produções para as conservas de sardinha, os italianos vingaram no mercado ao optar pelo atum. Quanto aos empresários ibéricos, conjugaram desde cedo ambas as matérias-primas e assimilaram outras secundárias, como o biqueirão ou a cavala.

É em 1865 que se instala na então vila pombalina a mais antiga fábrica de conservas de atum em azeite conhecida que fazia uso da salmoura e esterilização: a Ramirez & C.ª Lda.

Persistiria até aos finais do sé culo XX. Na década de oitenta do século anterior (1879), Angelo Parodi e Roldan fundam a Santa Maria. Um ano mais tarde, Francisco Rodrigues Tenório instala, também em VRSA, a fábrica São Francisco, que produzia conservas de atum em escabeche. Outro dos industriais que investiu no sector foi Ligone. A sua unidade fabril instalou-se junto à Santa Maria, mas desconhece-se o nome e a localização exatos. O ano de 1884 foi farto quanto ao aparecimento de novas indústrias: Esperança, Peninsular, S. Sebastião e Guadiana são algumas das mais significativas, que antecedem a fase áurea de VRSA enquanto principal porto de pesca do Algarve e um dos mais importantes no país. A Tabela 1 mostra a evolução do número de conserveiras na localidade entre 1881 e 1945.

 

tabela 1

 

 

O sector obteve, ao longo da época marcada pela Revolução Industrial (séculos XIX e XX), fases de irregularidade em função da escassez ou abundância de matérias-primas. Destacam-se dois momentos dourados de proliferação do sector: as duas guerras mundiais, que fizeram disparar a procura e subir os preços das conservas salgadas; e o pós-guerra, após 1945, com o quase desaparecimento do atum das costas nacionais nos anos trinta, que consequentemente conduziu à importação e contribuiu, a curto prazo, para a falência e consequente abandono da produção em inúmeras unidades conserveiras do território português. No seu lugar vingariam as filetagens de biqueirão. Grande parte das produções de conservas destinava-se à exportação, com as conservas de atum em primeiro plano e as de sardinha e biqueirão em segundo. Para além do mercado interno, natural consumidor, outros países importavam as conservas nacionais: Brasil, França, Alemanha ou Bélgica. Porém, Itália e Espanha eram países preferenciais (Tabela 2).

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O rio Guadiana terá funcionado sempre como um meio privilegiado no transporte de matérias-primas e escoamento da produção, aspeto fundamental na época em causa.

Durante o clima de eu foria instaurado com a I Guerra Mundial, a vila assumiu-se como o segundo centro conserveiro mais importante do Algarve em termos de número de operários a laborar, e o terceiro em relação à quantidade de fábricas (Tabela 2).

Nos limiares da II Guerra Mundial a indústria passou por um período de instabilidade, uma vez que os principais consumidores, italianos e espanhóis, diminuíram a procura pelas conservas. Com o atear da guerra, as condições económicas melhoraram significativamente e, apesar da escassez de sardinha ter levado a uma quebra acentuada durante o conflito, o atum e as conservas secundárias, como o biqueirão, obtiveram períodos de grande procura. Este último era particularmente escoado para os EUA.

As vantagens do porto da vila comparativamente a outros do Algarve deviam-se principalmente à existência de uma grande lota de atum, à abundante produção de sal nas proximidades imediatas e às excelentes condições geográficas e topográficas (terrenos planos).

Tais fatores contribuíram para a criação de muitos postos de trabalho. As conservas e as indústrias locais proliferaram e permitiram o desenvolvimento económico da região. A partir de 1879, com a fixação das indústrias conserveiras, era para VRSA que procediam as capturas das armações colocadas ao largo de toda a costa oriental algarvia até à foz do rio Arade. Nos anos sessenta do século XX, as traineiras de Portimão deixaram de abastecer apenas Lagos (que recebia todo o peixe a Ocidente de Portimão), para passar a contribuir com capturas para a produção de VRSA, numa cada vez maior hierarquização deste polo.

Imponente, este sector Oriental superiorizou-se ao Ocidental ao longo no final do século XIX, pela precocidade das inovações introduzidas, proximidade ao país vizinho, ventos favoráveis de levante, filiação de cercos (por exemplo, em 1914, VRSA contava com 13 unidades, enquanto Olhão tinha nove) e densidade de matérias-primas.

A abundância de crustáceos, a valorização do biqueirão pela filetagem, do atum em azeite ou salgado, das muxamas e da sardinha estivada, foram algumas das especificidades do sector, oligárquico por natureza, ou seja com metade das fábricas a assegurarem três quartos da produção conserveira, especialmente a de atum.

A introdução das armações de sardinha aconteceu de forma sincrónica em toda a região mas, mais uma vez, o Sotavento seria alvo da individualização que o Barlavento nunca conseguiria atingir (Tabela 3).

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Nos anos 20 do século XX, Vila Real modernizou as artes da pesca e substituiu galeões por traineiras a diesel, situação que, mais tarde, nos anos 40, a favoreceria pela precocidade relativamente às restantes localidades. Na década seguinte, a frota vila-realense já era composta por traineiras médias e grandes, comparativamente às de menor dimensão ostentadas por Olhão ou Portimão. As “enviadas” podiam assim ser dispensadas e as viagens até à costa marroquina, que antes eram longas, passavam a ser feitas por embarcações rápidas, capazes de transportar grandes cargas e permanecer afastadas do porto durante vários dias.

Tavira, Albufeira e Quarteira gravitavam quase sempre em torno dos quatro portos mais importantes do Algarve: VRSA, Olhão, Portimão e Lagos. Já Faro, por causa da posição demarcada pelas ilhas barreira, que afastavam o peixe da costa, apesar de ser capital da província, não assistiu a grande atenção pelas artes da pesca, que ali até eram consideradas menores e pouco nobres.

 

 

3. DADOS ESTATÍSTICOS: AS CONSERVAS DE ATUM, SARDINHA E OS DERIVADOS

Recolheram-se os dados estatísticos possíveis respeitantes à produção das conservas de atum e sardinha e outros derivados obtidos dos resquícios do pescado, sendo conhecidos os dados relativos a duas fábricas.

Uma é a Santa Maria, datada de 1879. Pertencente ao consórcio Parodi & Roldán, esta entidade empresarial inaugurou nesse ano a laboração de conservas de atum em escabeche na então vila pombalina. Usava um motor a vapor de 4cv e 16 cozedores de atum e empregava entre 80 a 100 operários do sexo masculino, 50 a 70 mulheres e oito menores. A jornada de trabalho era de dez horas diárias e quatro horas noturnas e as remunerações salariais variavam entre 600 réis para os homens e 220 réis para as mulheres, enquanto aos menores cabiam apenas 180 réis (valores máximos).

Em 1880, Tenório cria a fábrica São Francisco, também para produzir atum em escabeche. Esta fábrica possuía somente quatro caldeiras de ferro (cozedores), pois não recorria a motores. O número de operários era reduzido quando comparado com o seu competidor: 15 a 20 homens, auferindo 400 a 900 réis ao dia; 30 a 40 mulheres, ganhando o mesmo que as funcionárias da Santa Maria; e quatro menores, que lucravam a módica quantia de 120 réis. A jornada de trabalho chegava a atingir 15 horas diárias (dez horas de dia e cinco horas à noite).

Entre 1881 e 1886, um industrial italiano de nome Ligone investe nas conservas de atum ao estabelecer uma indústria ao lado da Santa Maria, mais tarde adquirida por Parodi. A partir de 1884, surgem as unidades São Sebastião, Esperança, Peninsular e Guadiana. É sabido que em 1903 três das oito fábricas de conservas de atum a funcionar em VRSA eram pertença de industriais italianos, e que em 1917 a localidade tinha oito fábricas de conservas e seis de salmoura, as quais empregavam 1349 e 127 operários, respetivamente, constituindo um dos principais centros conserveiros algarvios. Tal como referido atrás, durante a I Grande Guerra, Vila Real de Santo António e os restantes centros conserveiros nacionais denotavam períodos de estabilidade e evolução (Tabela 4).

TABELA 4

No limiar da II Grande Guerra, o sector não conseguia escoar a produção. A plenitude da guerra trouxe novamente a procura e os estoques rapidamente escoaram. Porém, a sardinha escasseou na costa algarvia, situação que conduziria a quebras significativas nas pescarias. Tal foi pouco sentido pelos industriais conserveiros que sobreviviam do atum. A quantidade de sardinha adquirida pelas conserveiras entre 1928 e 1945 denotou ir regularidades. A Tabela 3 demonstra bem a inevitável flutuação que afetou a atividade das conservas determinada pelo (in)sucesso das pescarias.

Não destoando do panorama flutuante, o operariado sofreu frequentes oscilações resultantes do êxito económico da empresa para a qual trabalhava, da escassez e sazonalidade das matérias-primas, e ainda de outros aspetos externos, como os político-sociais (as duas grandes guerras mundiais, por exemplo). VRSA era o polo mais maquinizado na região, apesar da diminuta mecanização do sector. Realce-se que em 1903 somava-se um total de oito máquinas a vapor de 40cv.

As percentagens respeitantes à produtividade das diversas fábricas são distintas. Conhecem-se os números para determinados anos, embora para outros predominem lacunas a que a documentação não dá resposta. Desse modo, devido à escassez de dados para a maior parte das fábricas, não é seguro determinar a quantificação total das conservas produzidas, quer em toneladas, quer em número de caixas comercializadas ou respetivos lucros, não sendo possível realizar um exercício de comparação. Abandonou-se assim um dos objetivos estabelecidos previamente à consulta dos dados.

 

 

4. TIPOS DE CONSERVAS E MATÉRIAS-PRIMAS

 

Os tipos de conservas identificados podem ser divididos de acordo com a metodologia utilizada:

– Tradicionais: secagem e muxama (1); salmoura (2);

– Industriais: à base de salga (3); escabeche, assado ou frito, preparação requintada de meados do século XIX (4); com base em azeite, óleo e molhos (5); filetagem (6); calda de tomate, usada por fábricas co mo Santa Maria ou Peninsular para as conservas de menor qualidade (7).

Entre os derivados dos resquícios de peixe pôde-se identificar:

– Óleos, farinhas e guanos: produzidos para valorizar os negócios, aproveitando os resquícios do peixe. Todas as fábricas tinham capacidade para os produzir, mas em 1939 surge em Olhão a Safol – Sociedade Algarvia de Farinhas e Óleos Lda., que especializou-se e monopolizou a produção. Só em 1970 é que surge a Farisol, igualmente instalada em Olhão, para apostar neste sector. As duas estiveram de pendentes das indústrias de conservas que lhes forneciam matéria-prima.

Quanto às matérias-primas, as principais eram:

– A sardinha (Clupea pilchardus): capturada da Primavera ao começo do Inverno, era a principal espécie destinada à indústria conserveira e aos mercados portugueses. Era e é exclusivamente obtida nas costas atlânticas do Sul da Europa (Portugal, Espanha, França) e Norte de África, em Marrocos, Argélia e Tunísia. Para além do grande consumo nacional, este tipo de conservas tinha essencialmente como destinos Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica;

– O atum (Thunnus tynnus): capturado entre a Primavera e o início das invernias, escasseou nas costas portuguesas a partir da década de trintado século XX, passando a ser preferencialmente importado. O mercado interno, a par do italiano e do espanhol, constituíam os destinos alvo;

– O biqueirão ou pequena anchova (Engraulis encrasicolus) e a cavala (Acanthocybium solandre) eram matérias-primas secundárias. A primeira, após a II Grande Guerra, passou a ser fortemente procurada pe lo mercado norte-americano.

Relativamente à maquinaria e às matérias-primas auxiliares, pode referir-se que:

– Algumas fábricas, como a Santa Maria, utilizavam azeite proveniente de Espanha e Itália, uma vez que o azeite português tinha más condições de fabrico e uma qualidade inferior;

– A folha-de-flandres (ou lataria) e a madeira (barris, caixas) eram igualmente importadas;

– De Itália provinham ainda, nos primeiros anos de laboração das fábricas, o estanho, o chumbo e diversa utensilagem fabril; já em Inglaterra comprava-se carvão, estanho, chumbo, cobre e folha-de-flandres, tintas e vernizes de litografia e caixas de madeira;

– As máquinas litográficas e o arame de aço usado na fabricação do “vazio” (latas) provinham dos mercados francês e alemão.

 

 

4.1. CONSERVAS À BASE DA SALGA VERSUS CONSERVAS EM AZEITE E MOLHOS

 

As conservas com base na salga não desapareceram com a adoção das técnicas de conservação em azeite ou molhos. O seu declínio foi gradual e prolongado, com alguns momentos áureos: a elevada procura durante as duas guerras mundiais ou o surto das filetagens de biqueirão, com os EUA como principais consumidores.

Foi a generalização das conservas herméticas, embebidas em azeite, óleo e outros molhos, que conduziu muitas dessas firmas ao abandono da produção ou mesmo à falência. As que empregavam os métodos da salga e secagem sobreviveram essencialmente de peixe de qualidade inferior, como a anchova ou o biqueirão, embora tenham resistido à crise até aos anos sessenta do século XX, e pese embora os palitos salgados não serem amplamente apreciados.

TABELA 5

As Tabelas 2, 4 e 5 dão conta da evolução do número de salgas, filetagens e estivas na vila. As muxamas já haviam desaparecido há cerca de 30 anos e, por volta de 1970, é a vez da indústria da salga ter os últimos anos de laboração.

A concentração das conservas em azeite e molhos localizou-se em VRSA. A vila ostentava boas marcas que constituíam dois terços da produtividade regional. Fizeram do atum um ex-libris, mesmo quando este quase se extinguiu das costas nacionais.

As fábricas recorreram à importação, não só do peixe mas também das matérias-primas essenciais à produção. As conservas de sardinha e similares tiveram o seu período exponencial entre 1880 e 1930, beneficiando da escassez da espécie nas costas francesas e da abertura do mercado alemão a todos os produtos. Estiveram desde o início ligadas às conservas de atum, ao aproveitar-se estruturas comuns. As empresas que não puderam modernizar-se ou que não se dedicaram à conservação pelo azeite ou molhos entraram em declínio, desaparecendo  do panorama regional e nacional. As principais apontadas atrás foram as que se mostraram recetivas às exigências da modernização trazida pelo século XX.

 

 

5. CONTEXTO SOCIOECONÓMICO

5.1. OPERARIADO E INDUSTRIAIS

 

A indústria das conservas teve grande importância na criação de postos de trabalho e, apesar de secundária relativamente à pesca, o volume de salários por esta disponibilizado era significativo. Essa dependência levou a que estas duas atividades evoluíssem lado a lado. É difícil avançar com números exatos para a quantidade de trabalhadores conserveiros, uma vez que a falta de dados é generalizada e grande parte deles eram contratados sob a forma de jorna diária. Apenas se pode concluir, através dos dados estatísticos conhecidos, um numeroso grupo de trabalhadores e as condições em que operavam: permanente e temporariamente, do sexo masculino ou do sexo feminino.

O número de operários oscilava de ano para ano, dependendo dos períodos de laboração (Tabela 1). Os picos máximos aconteciam nas temporadas de captura do atum e no segundo semestre do ano, aquando da captura da sardinha e da cavala. Nas invernias os números reduziam-se ao mínimo, dado que permanecia só o operariado necessário para assegurar tarefas de limpeza e cargas e descargas.

As percentagens de operários eram distintas de fábrica para fábrica. Santa Maria, por exemplo, no ano de 1933, contava com 150 trabalhadores masculinos e 200 do sexo feminino, reduzindo esses números em Setembro para cerca de 50 homens e poucas dezenas de mulheres. No primeiro semestre de 1911, a fábrica Peninsular tinha 20 homens e algumas dezenas de mulheres, e no segundo eram 50 e 170, respetivamente. Note-se que a maioria dos trabalhadores era ocasional.

Laborava essencialmente nos períodos de abastecimento das fábricas, prevalecendo a contratação generalizada de estrangeiros. Parodi recrutou, até à Segunda Guerra Mundial, muitos mestres italianos especialistas na confeção de conservas de atum e especialistas da vizinha Espanha para as conservas de anchovas.

Nos anos sessenta assistiu-se ao auge do proletariado das conservas.

Seguiu-se um período decadente, com reduções e envelhecimento da população permanente. O abandono das conservas de atum e a modernização conseguida pela aquisição de maquinaria para substituição de certas tarefas manuais foram causas do decréscimo acentuado.

Porém, o principal fator da decadência foi a falência ou diminuição da produção de várias fábricas. O Grémio dos Industriais das Conservas de Peixe do Sotavento Algarvio deu conta, em 1972, das centenas de trabalhadores das conserveiras de VRSA que tinham perdido o emprego. Essas reduções aconteciam no seio do proletário permanente, mas também naquele contratado a prazo, afetando de forma idêntica homens e mulheres.

Os salários do operariado eram miseráveis, por vezes inferiores aos da agricultura. Nos anos 30, os trabalhadores da Santa Maria auferiam somente 30% do valor gasto na aquisição do pescado. As regalias sociais quase não existiam e a carga horária assegurada, mesmo quando não havia trabalho, era irregular: duas a três jornas diárias (oito horas) por semana para as mulheres permanentes e / ou contratadas a prazo. Muitas vezes não se distinguia entre as primeiras e as últimas, dado que apesar de exponencial a indústria conserveira nunca foi capaz de garantir salários mensais regulares. As falhas de assiduidade do operariado levavam à contratação de quase o dobro dos indivíduos necessários à produção dos enlatados. Eram multifacetados e sazonais e trabalhavam em mais que uma atividade ao longo do ano, sobretudo nos meses de escassez de peixe. A estipulação do salário mínimo nacional e a mecanização massificada vieram acentuar as dificuldades de gestão financeira de muitas destas fábricas, cenário que só tenderia a agravar a situação de crise pela qual passavam, conduzindo-as a falências e des pedimentos, traduzindo a empregabilidade nas conserveiras em algo de muito instável.

O recrutamento da mão-de-obra era maioritariamente feito no plano regional e num raio de ação de 16 quilómetros, sensivelmente (Fig. 3).

 

Al-Madan_19-2_-_Artigo_MEDEIROS___BANDARRAFIG. 3 − Residências do operariado das fábricas de conserva de Vila Real de Santo António.

A incidência ocorria em aglomerados de pescadores como Castro Marim, Monte Gordo, Fuzeta, entre outros, ou mesmo no meio rural, na Junqueira ou em Monte Francisco. Alguns idosos locais com quem informalmente se falou no decurso da procura por fontes orais lembravam-se das mulheres de Monte Gordo a caminhar em grupos numerosos pela estrada, enquanto falavam alto e cantarolavam até chegarem às fábricas a VRSA. Este emprego era pouco recomendável a mulheres sérias, diziam. Os dois principais centros piscícolas do Sotavento, VRSA e Olhão, absorviam muita da mão-de-obra periférica e criavam vários postos de trabalho ao esbater preconceitos sociais entre pescadores urbanos e montanheiros rurais.

Nas antigas latoarias anexadas às unidades fabris, a profissão mais prestigiada era a de soldador, dado que a duração das conservas e a resistência do vasilhame dependiam da perfeição técnica do seu trabalho.

Além disso, esta elite operária da classe média, se é que assim pode ser designada, usufruía de uma certa regularidade laboral, contrariamente aos restantes operários. Preparava o estoque de vazio durante o Inverno para, a partir de Abril, reparar as unidades com defeito.

Foram inúmeros os empresários que investiram capitais na indústria das conservas de VRSA. Entre nacionais e internacionais, na maioria eram homens de negócios ligados à vida política e social e que deixaram marca e legado na sociedade vila-realense. Essa marca é visível nos poucos casos de arquitetura doméstica que sobreviveram até aos nossos dias, como é exemplar um palacete em Olhão. Seria interessante elaborar um estudo aprofundado sobre as duas classes sociais que intervieram nos processos laborais das fábricas conserveiras de meados do século XIX. Na bibliografia consultada saltaram à vista alguns nomes.

Contudo, e mais uma vez, a informação sobre estes revelou-se es cassa.

Luigi Rollo, responsável pela exposição anteriormente aludida, sentiu diversas dificuldades para ter acesso à documentação que os podia identificar, dada a ausência generalizada de dados e pelo facto das famílias não se prestarem a colaborar. Os nomes de industriais conserveiros de VRSA patentes na bibliografia consultada são os seguintes:

– Sebastião Garcia Ramires (1898-1972): português, formado em Engenharia Mecânica, que foi, além de proprietário industrial, político (Ministro do Comércio, Indústria e Agricultura), diretor da Associação Industrial Portuguesa (AIP) e gerente de fábricas da Ramirez na região;

– Frederico A. Garcia Ramires (1869-1935): também português, natural de VRSA, era formado em Engenharia Civil. Foi industrial conserveiro, Deputado pelo círculo de Faro, Governador Civil daquele distrito e vice-presidente da AIP;

– Francisco Rodriguez Tenório: de quem se desconhecem dados bibliográficos. Apenas se sabe que é de nacionalidade espanhola;

– Parodi: idem. Industrial italiano;

– Ligone: idem;

– D. N. Charalampopoulos: conhecido como “Grego” dadas as suas origens;

– Ernesto Salles: industrial espanhol.

 

 

5.2. INDÚSTRIAS INDUZIDAS

 

A pesca e a atividade conserveira induziram, direta ou indiretamente, novas indústrias que viriam a constituir-se suas subservientes. São os casos da construção naval, mais relacionada com a primeira, e da litografia e latoaria mecânica, associadas à segunda. Não sendo o tema capitular deste trabalho, não se aprofundaram as pesquisas relativas à construção das embarcações, até porque, por si só, esta matéria dá para uma dissertação individualizada. Ainda que tenha servido indiretamente a indústria das conservas, o campo de ação da construção de embarcações é demasiado vasto para ser abordado em jeito de síntese ou retirar o foco da análise apresentada.

Constatou-se que as primeiras fábricas começaram por ter serviços litográficos e serralheiros próprios mas que, com o passar dos anos, algumas empresas especializadas vieram a fixar-se na vila e tiraram partido do desenvolvimento e crescimento da produtividade conserveira.

Na década de trinta do século XX, a legislação passa a proibir as indústrias de fabricarem ou negociarem o próprio vasilhame. Assim, desapareceram as pequenas litografias anexadas às fábricas, exceto as de empresas com várias unidades (por exemplo, a Parodi), tendo-se multiplicado as litografias independentes. A impressão da folha-de-flandres e o fabrico do vazio no Sotavento eram monopólio de duas entidades:

a Soliva (Sociedade de Litografia e Vazio), em VRSA, e a Ramirez, Perez, Cumbrera Lda., com sede e litografia na localidade mas com latoaria em Olhão.

A concorrência das grandes empresas sediadas no Norte do país, por exemplo em Matosinhos, não possibilitou o seu desenvolvimento e modernização, sendo poucos os casos das que proliferaram.

A mecanização da indústria conserveira, que ocorreu ainda antes da I Guerra Mundial, trouxe, de uma forma generalizada, a obtenção de cravadeiras por parte das fábricas, vindo a colocar o papel de soldador em causa. A classe reivindicou contra a adoção das máquinas até aos anos vinte, conseguindo dificultar a sua importação. A II Grande Guerra também despontou a procura de conservas, mas o dealbar da crise que afetou a pesca e as conservas na transição da primeira para a segunda metade da centúria, trouxe consigo a redução da mão-de-obra e a aquisição de mais máquinas. Aos soldadores restava o concerto das embalagens com defeito. Num cômputo geral, nos princípios do século, as seis fábricas pioneiras de VRSA tinham cerca de cem soldadores ativos. Nas latoarias mecânicas, como a Soliva, a realidade era distinta, uma vez que não serviam exclusivamente o sector conserveiro.

Para além destas, outras indústrias prestaram contributos à produção de conservas e vice-versa. As salineiras, as caixotarias, as empresas fabricantes de ferramentas (chaves, grelhas ou pregos), quer em estanho,quer em ferro, ou ainda as olarias de cerâmica refratária, são apenas alguns casos. Quase todas as grandes conserveiras do Sotavento tinham serralharias próprias onde eram fabricados cestos de ferro, fornalhas, caldeiras, estufas, máquinas de aramar ou cortar o atum. Da mesma forma que as litografias e latoarias, as serralharias contíguas às fábricas desapareceram em prol dos serviços das empresas independentes, pois tornaram-se incapazes de responder às novas exigências técnicas e à maior complexidade dos processos de fabrico. Existiam ainda departamentos de tanoaria e carpintaria, que fabricavam os barris de  madeira destinados à salga e à estiva do peixe e caixas para armazenagem e transporte das latas de conserva, respetivamente.

A manipulação da folha-de-flandres e a redução na produção das conservas à base de sal fizeram extinguir as primeiras. Os serviços de carpintaria não faziam sentido com a adoção das embalagens desmontáveis e de cartão, mais leves, menos volumosas e mais rentáveis.

 

 

6. PROCESSO PRODUTIVO: SECTORES, ETAPAS, MAQUINARIA

 

O processo de produção das conservas passava, irremediavelmente, por várias etapas e sectores da fábrica até à obtenção dos produtos finais. Embora as duas principais matérias-primas, o atum e a sardinha, tivessem em comum as etapas e sectores, alguns procedimentos na sua preparação eram distintos. Passa-se a descrever todo o processo, desde a captura do peixe à comercialização das latas de conserva (Tabela 6 e Fig. 4).

Al-Madan_19-2_-_Artigo_MEDEIROS___BANDARRAFIG. 4 − Processo de captura do pescado.

6.1. DA CAPTURA AO ENLATAMENTO. O CICLO DO ATUM

 

Na época, o atum transitava ao largo da costa algarvia em grandes cardumes, seguindo as rotas migratórias, sendo arrestado no período em que viajava para a desova no Mediterrâneo – o chamado “atum de direito ou de recuado” –,e quando regressava ao Oceano Atlântico – ou seja, o “atum de revés”.

A captura era efetuada com recurso a armações fixadas ao fundo marítimo, colocadas de forma a que durante os meses de maio e junho se arrestasse o atum de direito e de recuado, e nos dois meses seguintes o atum de revés. As armações, constituídas por redes de diversas malhagens, podiam ter até oito mil metros de comprimento, 70 mil metros de cabos de aço ou 350 ferros (âncoras), e abarcar uns bons dez quilómetros.

IMG_1020 caloes posicionados no copo da armacaoCalões posicionados no copo da armação

IMG_1019 copejo do atumCopejo do atum

IMG_1023 embarcacoes carregadas com atum em amraacaoEmbarcações carregadas com atum em armação

Ao serem descarregados no cais com guindastes, eram transportados para o interior da fábrica, seja por intermédio de carroças e vagonetas ou até mesmo pela força braçal. Uma vez lá dentro, eram primeiramente pesados e colocados a posteriori no chão para o descabeçamento. Quando o espaço se revelava insuficiente, penduravam-nos em estruturas presas ao teto, formando assim um alinhamento que fazia lembrar arvoredos, sendo por isso atribuída a denominação de “bosque”. Os descabeçadores encostavam-nos à perna e, com a ajuda do “bicheiro” ou “pucheiro”, aplicavam vários golpes na zona dos mormos e alhetas. Os ronqueadores esquartejavam-nos até os dividirem em quatro partes que seriam cortadas às postas, dessangradas em dornas e cozidas em fogo direto dentro de grandes tachos que, mais tarde, seriam substituídos por “bacines” onde a cozedura era conseguida com serpentinas a vapor.

IMG_1025 descarga atum no caisDescarga atum no cais

IMG_1026 descarga atum no cais privadoDescarga atum no cais privado

Depois de cozidas, as postas de atum derivavam para as “padiolas”, onde secavam e arrefeciam. Uma vez secas, as operárias retiravam os ossos (limpeza) e colocavam as peças de atum em cestos. O processo culminava com o atum limpo a ser colocado nas bancadas de trabalho, onde outras operárias procediam ao seu enlatamento de acordo com a dimensão das latas.

IMG_1028 transporte de atum em carrocaTransporte de atum em carroça

IMG_1029 pesagem do atuma na ramirezTransporte e pesagem do atum na Ramirez

IMG_1031 descabeco do atumDescabeço do atum

IMG_1032 grandes cozedores de atumGrandes cozedores de atum

IMG_1034 limpeza do atumLimpeza do atum

IMG_1035 limpeza e enlatamento do atumLimpeza e enlatamento do atum

IMG_1037 limpeza e enlatamento do atum.Limpeza e enlatamento do atum

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6.2. DA CAPTURA AO ENLATAMENTO. O CICLO DA SARDINHA

 

A sardinha habita em águas costeiras, em concentrações entre dez a 50 metros de profundidade e a temperaturas entre dez e 20ºC. A captura era inicialmente feita por intermédio de galeões a remos, recorrendo-se posteriormente a galeões a vapor, que seriam substituídos pelas traineiras.

IMG_1041 galeao a remosGaleão a remos


IMG_1042 galeao a vaporGaleão a vapor

IMG_1044 traineira dieselTraineira diesel

Os galeões eram equipados com redes de algodão bastante grandes e uma pequena embarcação, a chata. A rede de algodão era cindida da seguinte maneira: cuba de popa, corpo da rede, copejada baixa, copejada alta, repé baixo, cuba de proa, lastro de rede de chumbo, pernas de aranha simples ou duplas armadas com argolas de bronze. Ao utilizar esta rede, o objetivo era cercar o cardume e virar rapidamente a retenida (ou cabo) que a fechava por baixo. O copejo do peixe fazia-se na copejada alta, por meio de enxalavares.

IMG_1045 copejo da sardinhaCopejo da sardinha

Depois de copejada, a sardinha era depositada nos porões das enviadas à vela (ou buques), que se dirigiam para a lota mais próxima sob as ordens do mestre do galeão.

Quando chegava à lota, o peixe era leiloado e encaminhado para os cais onde os descarregadores se incumbiam da operação de descarga para cestos ou cabazes arrumados nas vagonetas empurradas até ao interior das fábricas. Aí, as operárias descabeçavam-no e colocavam-no em grelhas (Fig. 5), onde lhe era arrancada a espinha, sendo lavado em tanques próprios e colocado num carrinho que o conduzia para os cozedores. Após a cozedura, as grelhas eram colocadas de pé em “sarilhos” para arrefecer e, assim, eram encaminhadas para dobadouras (estruturas fixas à bancada de enlatamento, com eixo rotativo, onde eram colocadas as grelhas com o peixe já cozido), posicionadas em frente à enlatadeira para serem limpas e enlatar o peixe em sala própria.

IMG_1047 descabeco da sardinhaDescabeço da sardinha

IMG_1051 lavagem sardinha engrelhadaEngrelhar

IMG_1052 carregamento de carrosLavagem de sardinha engrelhada

IMG_1054 saida do cozedorCarregamento de carros

Saída do cozedor

 

6.3. PROSSEGUIMENTO COMUM DOS DOIS PROCESSOS

 

Após limpos e enlatados, tanto o atum como a sardinha prosseguiam em processos similares. Passavam para as mesas ou carros de azeitamento onde as latas eram cheias com o azeite. A seguir a esta fase, o vasilhame passava para a linha de cravação onde era fechado hermeticamente através das cravadeiras semiautomáticas, que cravavam o tampo de “cheio” na lata em duas operações: primeiro, a folha era enrolada de forma a obter o tampo e o corpo da lata; numa segunda operação, a máquina compactava o primeiro passo, tornando a embalagem hermética.

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IMG_1058Cavadeira semi automática

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Já cravadas, as latas eram inspecionadas e acomodadas em cestos de ferro, seguindo em carros próprios para a esterilização e consequente  encaixotamento e depósito nos “armazéns de cheio”, onde eram limpas com serradura a fim de serem encontrados defeitos. As caixas já fechadas ou aramadas passavam a estar prontas para a comercialização, tanto no plano nacional como além-fronteiras.

IMG_1038 azeitamento latas atum.Azeitamento latas  atum

 

6.4. SECTOR DA LITOGRAFIA E SECÇÃO DO VAZIO OU OFICINA DO VAZIO

Apesar da indústria conserveira ter originado a criação das litografias e latoarias, o vasilhame utilizado nas conservas, em alguns casos, era produzido no seio das próprias fábricas de conservas, mais concretamente no sector da litografia e na secção do vazio. A matéria-prima utilizada era a folha-de-flandres, onde eram impressos os motivos da marca de conservas, que muitas vezes empregavam a silhueta do proprietário (por exemplo, as conservas Tenório).

Na litografia, o processo de impressão em folha-de-flandres passava pelas seguintes fases:

1 – Desenho da lata, que era efetuado manualmente em pedra calcária;

2 – Transferência do desenho da pedra para o papel vegetal, por intermédio da prensa litográfica de transporte;

3 – Reprodução da ilustração em papel, quantas vezes o número de latas consentido pela folha-de-flandres. No caso da club 30m/m, que corresponde a 22 latas, reproduziam-se 22 corpos e 22 tampas.

O desenho em relevo do conjunto de corpos e tampas era transferido para a chapa por processo químico.

4 – Aplicação da chapa no cilindro da máquina de impressão, transferindo-se o desenho para a folha-de-flandres, a qual passava na máquina tantas vezes quanto fosse o número de cores que compunham o desenho;

5 – Colocação da folha-de-flandres no forno para secar, uma vez aplicada a cor. A folha voltava à máquina de impressão para impressão das restantes cores, repetindo-se o mesmo processo;

6 – Apuramento de uma camada de verniz transparente para preservar a cor, levando-se a folha-de-flandres pela última vez ao forno;

7 – Mudança da folha-de-flandres impressa para a Secção de Vazio, onde se fabricavam as latas. Na Secção do Vazio, no caso das latas de club 30m/m, o conjunto de corpos era separado do conjunto de tampas. Os corpos eram cortados pelas tesouras de guilhotina e as tampas pelas prensas. Depois disto, soldava-se o corpo da lata, unindo os dois topos, formando um cilindro irregular. Quando tamponado, ficava com uma forma retangular perfeita, com quatro cantos arredondados, uma borda exterior para posterior cravação do fundo e uma borda interior para a soldagem da tampa. Por fim, os tampos eram soldados ao corpo, ficando a lata pronta para receber as conservas de peixe e ser selada.

IMG_1063 corte folha flandresCorte folha flandres

 

IMG_1064 oficina vazioOficina do vazio

 

7. NOTAS FINAIS

 

“No prolongamento da pesca, cujo volume das capturas ultrapassava tradicionalmente o consumo das populações regionais, desenvolveu-se um importante sector conserveiro que tornou possível a canalização dos excedentes para mercados distantes, nacionais e estrangeiros”

CAVACO, 1976: 321.

Há muito que o ser humano usufrui da salmoura e da secagem como métodos de conservação de alimentos. No século XIX, abandonaram estes métodos tradicionais em prol dos industriais e com eles surgem as técnicas do escabeche e das conservas em azeite e molhos hermeticamente fechadas. Esta última técnica permitiu alargar efetivamente o tempo de conservação dos produtos, transformando e desenvolvendo a atividade e permitindo-lhe prosperar do ponto de vista financeiro.

Muitos empresários investiram no sector das conservas que, apesar de dependente daquilo que resultava da pesca, acabou por expandir-se e desenvolver simultaneamente as regiões que usufruíam de águas ricas em peixe.

Em Vila Real de Santo António e noutros lugares paralelos, a evolução urbana é em grande parte a combinação das realidades pesqueira e conserveira mescladas com a malha construtiva da cidade, que, no  caso específico, ajustou-se à arquitetura e planeamento pombalinos.

Não é crível pensar nesta localidade do litoral algarvio e deixar esquecido este significativo fragmento da História, da Economia e da vivência social das gentes vila-realenses. A época áurea já faz parte do passado. As conservas que noutros tempos foram vitais para a sustentabilidade da população são hoje tidas como mero produto alimentar complementar.

Quais são as perspetivas de futuro para a indústria? A mecanização é uma realidade da sociedade atual e a abordagem gourmet não atinge a verdadeira conotação de indústria organizada, mas antes de pontuais negócios desarticulados. E o trabalhador, que outrora era elemento-chave da produtividade, perdeu bastante importância.

O papel social do operário das conservas do século XIX desapareceu por completo, e a estandardização criada pelos grandes mercados internacionais, de génese consumista, diminuiu ainda mais o seu papel.

Assim, à data de realização deste trabalho não se quis levar adiante um apanhado de vestígios arqueológicos, arquitetónicos, documentais da passagem e paisagem da indústria conserveira por VRSA, mas antes mostrar, através dos dados recolhidos, a transformação económica e social numa época em que a força braçal foi progressivamente substituída pelos maquinismos que fizeram desaparecer muitas memórias do quotidiano das classes operárias e, consequentemente, da identidade local.

 

GLOSSÁRIO

Alheta  – uma parte do atum.
Almontolia – regador utilizado para “azeitar” ou “regar” as latas de conserva antes destas seguirem para a cravação.
Aparador de azeite ou  mesa de azeitamento – suporte onde se azeitavam as latas de conserva.
Apertização ou  esterilização – conservação dos alimentos pelo calor. Descoberta por Nicholas Appert no século XVIII, foi utilizada no contexto português em 1865, em Vila Real de Santo António.
Bacine – espécie de panela onde o atum era cozido.
Batedor – utensílio utilizado na remoção da gordura proveniente da água de cozedura do atum.
Bicheiro ou  pucheiro – ferramenta que servia para puxar o atum para junto do descabeçador.
Bosque – sector da fábrica onde os atuns eram pendurados ao teto, formandoum emaranhado de corpos suspensos, e assim designado por “bosque”.
Buque ou  enviada à vela – barco auxiliar nos cercos de pesca.
Copejo – processo em que se retirava o peixe da rede com o auxílio de um arpão.
Copo – onde o peixe era copejado.
Cravadeira – máquina manual ou mecânica utilizada para cravar, fechando hermeticamente os tampos das latas de conserva depois de cheias.
Disposição em sarilhos – grelhas onde eram colocadas as sardinhas para arrefecer após a cozedura.
Dobadoura – estrutura fixa à bancada de enlatamento, com eixo rotativoonde eram colocadas as grelhas com as sardinhas já cozidas.
Dorna – vasilha composta de aduelas e com a boca mais larga que o fundo.
Enlatadeira – mulher que procedia à limpeza e ao enlatamento das conservas.
Enxalavar – saco de rede miúda de forma cónica, com um arco de ferro ou de madeira na boca e que servia para transporte do peixe.
Escabeche – molho em que predomina o vinagre, para conserva do peixe ou da carne.
Estiva – primeira porção de carga que se coloca numa embarcação quando esta está no cais, armazenada em barris de madeira.
Filetagem – técnica alimentar de produção de tiras e postas de peixe ou carne para guarnição.
Folha-de-flandres – chapa em ferro, muito fina e esmaltada, usada na obtenção das latas de conserva.
Lata de  ¼ club 30m m – A tipologia de lata mais convencional das conservas.
Marcador de tampos – servia para marcar o número do fabricante e a data do fabrico nas latas.
Mormo – uma parte do atum.
Muxama – ova de atum seca. Correspondente a uma técnica tradicional, usada também pelas indústrias conserveiras a partir do século XIX.
Padiola – instrumento manipulado na colocação do atum depois de cozido para arrefecimento e escorrimento das águas.
Pesa sal – utensílio medidor do nível da salinidade da água durante a cozedura do atum.
Rabachina – instrumento utilizado para retirar ou reunir as porções de atum do interior dos grandes cozedores.
Retenida – cabo fino, com um peso numa das extremidades, utilizado para passar cabos grossos de um navio para outro ou de um navio para o cais.
Ronqueador – Indivíduo que limpava e preparava o atum para a conserva.
Serpentina a vapor – espécie de tubo em hélice semelhante ao de um alambique.
Tesoura de guilhotina – lâmina para cortar a folha-de-flandres, que se desloca em movimento vertical.
Vagoneta – Pequeno vagão usado no transporte do atum do cais para a fábrica.