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(4) A INDÚSTRIA DE CONSERVAS DE PEIXE NO ALGARVE (1865 – 1945)


A INDÚSTRIA DE CONSERVAS DE PEIXE NO ALGARVE (1865 – 1945)

JOAQUIM MANUEL VIEIRA RODRIGUES

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

Lisboa 1997

 

Introdução

Neste capítulo analisaremos os primórdios do desenvolvimento da indústria de conservas, quer no Algarve – aliás, região pioneira -, quer no país. Em relação ao Algarve a análise incidirá concretamente em cada um dos principais centros conserveiros.

Estudar-se-ão – tanto quanto as fontes o permitem -, a evolução do número de fábricas e de operários, o valor dos salários pagos, o equipamento utilizado no processo de trabalho, o valor do capital fixo e circulante, a origem das matérias-primas secundárias, principalmente azeite e folha de flandres e a origem dos capitais.

A análise dirá respeito essencialmente às conservas de sardinha, para as quais existem mais elementos, visto que foi no âmbito das conservas o produto de maior peso na exportação. A utilização do conceito conservas de peixe significa que nelas se incluem conjuntamente os restantes tipos de conservas, nomeadamente as de atum, pois, frequentemente, as fontes não as distinguem.

Nas considerações finais tentaremos detectar as principais linhas de força da indústria de conservas, nomeadamente as razões da procura preferencial do Algarve para a instalação das primeiras fábricas, a contribuição da exportação de conservas no âmbito das exportações totais nacionais, as dependências estruturais do sector e uma breve referência ao operariado conserveiro.

Antes, porém, de iniciarmos propriamente este capítulo não queremos deixar de fazer breves referências à matéria-prima – sardinha e atum -, e aos processos de pesca empregues para a captura daquela.

            Entre todas as espécies é a sardinha, de designação científica – Clupea Pilchardus – o pelágio mais capturado. Fresca, o seu valor nutritivo é de 222 calorias/100 gr. Alimenta-se de filoplâncton e é rica em vitamina A, D, C, B2 e B6, em proteínas e substâncias minerais. As condições do Atlântico perto da costa portuguesa (mar relativamente pouco profundo, corrente marítima permanente, águas de temperatura amena) formam um habitat magnífico para a proliferação deste pelágio. Dos desperdícios da sardinha obtinha-se a farinha de peixe, utilizada para adubo e para a alimentação humana e de gado, e o óleo de sardinha, com utilizações variadíssimas.

Outra espécie importante é o atumOrcynnus Thynnus – o qual se desloca ao longo da costa do Algarve. Na indústria de conservas é utilizado essencialmente o «atum direito», o qual, nos meses de Maio a Junho, se dirige para o Mediterrâneo para proceder à desova. Por conseguinte, contém elevada percentagem de gordura e maior valor alimentar. No período que decorre entre Julho e fins de Agosto, os cardumes deslocam-se agora em sentido inverso: depois da desova regressam do Mediterrâneo, é o «atum de revés». Finalmente, caberá ainda mencionar o «atum de recuado», o qual nas épocas de direito ou de revés passava em sentido contrário ao movimento geral dos cardumes.

            Os principais portos de pesca no Algarve localizaram-se em Vila Real de Santo António, Olhão, Portimão e Lagos e coincidiram com os principais centros produtores e exportadores de conservas.

Consequência das contingências inerentes à própria especificidade da actividade – a pesca -, designadamente, a da sardinha, a indústria caracterizou-se por enormes irregularidades com reflexos óbvios, quer na produção, quer na exportação, conduzindo, não raras vezes, ao encerramento de fábricas e ao despedimento de trabalhadores[30]. Os ciclos de abundância e de escassez alternaram-se ao longo dos decénios com reflexos na actividade da indústria conserveira. A abundância ou a escassez da matéria-prima variava, de uma forma geral, consoante a época do ano, assim como a sua qualidade. Carência que obrigaria, por vezes, as firmas a comprarem o peixe noutros centros piscatórios.

A principal e quase exclusiva área de pesca do atum localizava-se no Algarve, designadamente a sotavento. A captura do atum realizava-se por intermédio de armações fixas[31] ou «almadravas» que polvilharam toda a costa do Algarve.

Um outro processo utilizado durante decénios para a captura da sardinha no litoral algarvio, designadamente em Monte Gordo, consistia na arte da xávega [32], cujo lançamento se efectuava em frente da costa sendo em seguida alada para terra[323].

[30] Diário do Algarve, 21/10/32, p. 3. Em Setembro-Outubro de 1932 encerraram algumas fábricas de peixe e foram despedidos centenas de trabalhadores, no centro de Portimão.em>
>[31] Para uma pormenorizada descrição das migrações dos atuns, de toda a complexa estrutura das armações e do sistema de captura dos tunídios ver Fausto Costa, A Pesca do Atum nas Armações da Costa Algarvia, Editorial Bizâncio, Colecção Documentos, n.º 7, Lisboa, 2000.

[32] Sobre esta arte ver Fausto Costa, op. cit., pp. 98 a 100.
[33] cf. Carminda Cavaco, “Monte Gordo: aglomerado piscatório e de veraneio”, Finisterra, nº 17, 1974, p. 84 e “Regulamento Geral da Pesca da Sardinha nas Costas de Portugal”, Diário do Governo, nº 112, de 22/5/1903.

Enquanto as armações fixas se destinavam quase exclusivamente à captura do atum, embora também tivessem sido aproveitadas na pesca da sardinha, os cercos tiveram como actividade fundamental a pesca deste último pelágico e de outras espécies similares.

Paulatinamente, o processo de pesca utilizando os cercos, foi sendo substituído por traineiras grandes e pequenas («enviadas»), registando, assim, do ponto de vista tecnológico alguma melhoria na mecanização e na produtividade, mas sem atingir o desenvolvimento de outros países.

 

  1. O desenvolvimento da indústria conserveira nos principais centros algarvios

Embora a conservação de alimentos seja antiquíssima, a moderna indústria de conservas de peixe será implementada pelo desenvolvimento tecnológico-científico, resultante da expansão do sistema capitalista. Em Portugal, foi relativamente rápida a implantação e expansão da indústria de conservas de peixe.

Depois de Vila Real de Santo António, em 1878/80, o método de Appert era ensaiado, em Setúbal, sendo aqui fundada a indústria de conservas de sardinha, presumivelmente, por um industrial francês, atraído pela enorme e riquíssima abundância de sardinhas existentes nas nossas águas, em consequência, da diminuição das capturas nas costas da Bretanha. Em 1880, entravam em actividade uma fábrica de conservas de sardinha, em Espinho, assim como mais duas unidades em Vila Real de Santo António.

De 1888 e, durante cerca de 14 anos, à excepção de 1891 e 1892, o aumento das capturas, naquele país, proporcionará um impulso à indústria conserveira gaulesa, cujos produtos mais baratos, fizeram grande concorrência aos de origem portuguesa. Esta ressentir-se-á e o número de fábricas, de 1886 para 1890, descerá das 66 para as 54[34] (Quadro I).

[34] “The portuguese Sardine Historical date”, Conservas, nº 43, Julho, 1839, p. 27.

Contudo, a crise da sardinha nas costas francesas a partir de 1902, marcará o início do declínio da indústria conserveira francesa[35].

                  Nos centros conserveiros algarvios há a destacar o pioneirismo de industriais estrangeiros, designadamente franceses, mas, também de gregos, italianos, espanhóis, e, obviamente, de portugueses.

No início dos anos oitenta do século passado implantaram-se, em Lagos (1882) e, em Olhão, os Estabelecimentos Delory, sucursais de uma empresa bretã, e mais para Sotavento os Parodi e Migone, cujos interesses se encontravam ligados a empresas lígures de negócio de atum, por grosso[36].

Cerca de 1890, constituíram-se as primeiras sociedades, cujos principais investidores foram operários soldadores e trabalhadores, que dispunham de quotas semelhantes, de capital escasso, não excedendo a centena de réis, visto que os materiais utilizados eram de aquisição relativamente fácil, permitindo-lhes frequentemente acumular grandes lucros anualmente[37]. Para a formação destas sociedades muito terá contribuído o aumento da procura e a valorização das conservas de sardinha entre 1889 a 1892.

Entretanto, quer a nível nacional quer a nível do Algarve cresceram o número de fábricas e consequentemente o número de trabalhadores (Anexo I. Quadro 1). De 1907 para 1908, porém, o parque industrial algarvio registaria uma diminuição do número de fábricas e do valor das suas conservas, coincidindo aliás, com uma ligeira quebra na exportação total de conservas de sardinha.

[35] www.multimania.com/histonantes/colin.htm
[36] C. Cavaco, O Algarve Oriental,…, vol. II p. 295
[37] cf. Engº João Simões Quintas Júnior, “Relatório dos serviços da 5ª circunscrição industrial no ano de 1825”, Boletim do Trabalho Industrial, n.º 133, 1927, p. 138.

 

 

Em 1910, as conservas de peixe representavam 4,7 % das exportações portuguesas. O seu valor acrescentado cifrou-se nos 1.478 contos e o seu capital fixo elevou-se a cerca de 7.500 contos[38]. Em 1917, cada fábrica tinha uma média de cerca de 80 operários, a esmagadora maioria mulheres. Em 1913, as fábricas de conservas da região do Algarve produziam cerca de 3.500 contos em conservas, salmoura e salga de peixe[39]. Porém, muitas das unidades de produção não estavam «ainda munidas de todos os modernos aparelhos, por pertencerem a pequenos industriais, antigos soldadores e operários, a quem o capital não abunda; mas outras são modelares, instaladas em edifícios amplos e magníficos, contendo os maquinismos e acessórios necessários» [40].

A reputação mundial das conservas portuguesas era enorme, para a qual contribuíam as produzidas no Algarve, que então tinham grande procura[41].

Nestes primórdios, as unidades fabris conserveiras erguiam-se afastadas do interior das localidades, em zonas espaçosas, com amplas entradas que desaguavam «para um terreno de semeadura ou ajardinado, que dispunha sempre bem o visitante que necessitava de comprar os seus produtos, os quais estavam sempre vendidos a determinadas firmas estrangeiras ou directamente ou por intermédio dos seus agentes», em Portugal[42].

E o que dizer das condições higiénicas destas unidades? Nos locais onde era preparado o peixe primava o asseio, a limpeza[43]. Os industriais na pré-história da indústria norteavam-se pela qualidade, escolhendo o peixe consoante as marcas e formatos mais procurados, visto que apenas desta maneira poderiam concorrer com os produtos congéneres estrangeiros[44]. Todos os detritos e peixe miúdo que não podiam ser utilizados eram armazenados em recipientes colocados em local afastado da fábrica, num extremo do quintal que a rodeava, de onde, depois, e no mesmo dia eram conduzidos para um estabelecimento, também localizado fora da localidade, conhecido por “fábrica de guano“ e, então, aí eram tratados para adubos, após a extracção do óleo[45].

[38] José de Campos Pereira, Portugal Industrial, p. 46.
[39] Ibid., p. 44.
[40] Ibid, p. 45.
[41] Ibid., p. 138.
[42] cf. Engº João Simões Quintas Júnior, “Relatório dos serviços da 5ª circunscrição industrial no ano de 1825”, BTI, nº133, 1931, p. 166
[43] Ibid., p. 166.
[44] Ibid., p. 166.

Esta situação algo idílica da indústria de conservas, descrita pelo Eng.º João Simões Júnior, que vinha acompanhando o desenvolvimento daquela indústria desde cerca de 1900[46], como, aliás, explicitamente o afirma, terá sido alterada pelo boom nos finais da I Grande Guerra, quando muitos capitais se deslocaram de outras indústrias para as das conserveiras e com eles vieram alguns «industriais milicianos», «absolutamente alheios aos mais rudimentares conhecimentos sobre conservas”, “com a única preocupação de ganhar dinheiro a fabricar latas com peixe» [47].

A proliferação de fábricas degradou as condições higiénicas do trabalho de fabricação das conservas, visto que «em qualquer casa de habitação sem condições de espécie alguma, sem luz, sem ar, sem espaço», se erguia uma «fábrica»[48].

O já referido autor do relatório, lamentava a indiferença das autoridades sanitárias e administrativas perante o espectáculo degradante da situação.

 

2.1. Vila Real de Santo António: Ramirez, Parodi e Tenório

Foi a proverbial riqueza em atum do mar algarvio que iria proporcionar o arranque da indústria conserveira.

1853 é a data atribuída à mais antiquíssima fábrica de conservas, ainda em salmoura, Ramirez & Cª, Ltd., fundada em Vila Real de Santo António pelo andaluz Sebastian Ramirez, de profissão lavrador, que trouxe para aquela vila um mestre conserveiro catalão[49]. A expansão económica da empresa prosseguirá com a implantação de unidades em Olhão, Albufeira e Setúbal, tornando a RAMIREZ na mais antiga produtora e exportadora de conservas em Portugal na Europa e numa das mais antigas do mundo.

[45] Ibid., p. 165.
[46] Ibid., p. 166.
[47] Ibid., p. 166.
[48] Ibid., p. 166.
[49] Empresa que perdurará até à actualidade – em 2003 comemorará 150 anos -, e cujo um dos descendentes daquele andaluz de nome homónimo desempenhará papel de relevo na futura organização corporativa do sector, como, na altura conveniente analisaremos. Informação amavelmente prestada pelo industrial e Presidente da Associação Nacional da Indústria de Conservas de Peixe, Senhor Manuel Ramirez, em conversa telefónica a 18 de Dezembro de 1996. Ver igualmente, Ana Cristina Pereira, “Ramirez 150 anos”, Pública, n.º 383, 28/09/03, pp. 36-43.

O pioneirismo desta empresa continuaria com a introdução, pela primeira vez em Portugal, em 1865, do princípio da esterilização, processo desenvolvido por Appert, como vimos, com a instalação de uma fábrica de conservas de atum em azeite (Anexo I. Quadro III).

Do mercado nacional partiria precocemente à conquista de importantes mercados consumidores de conserva internacionais.

Entre os seus operários não podemos deixar de referenciar o poeta popular António Aleixo, precisamente natural de Vila Real de Santo António.

 

Vila Real de Santo António continuaria a afirmar-se ao longo de décadas como o maior produtor e exportador de atum e similares do Algarve e um dos mais destacados do país, mercê das inúmeras armações que polvilhavam o sotavento algarvio.

Mas nem só de Ramirez viveu a indústria conserveira da vila pombalina.

A indústria de conservas de atum em escabeche foi criada, em Vila Real de Santo António, em 1879, por Parodi & Roldan, que fundou a fábrica “Santa Maria”. Desde o ano seguinte que utilizava um motor a vapor, com uma força de 4 cavalos. Empregava, ainda, 16 caldeiras para coser o atum, e, quanto à força de trabalho esta era constituída de 80 a 100 operários, 50 a 70 operárias e 8 menores. A jornada de trabalho prolongava-se por catorze horas, dez durante o dia e quatro à noite. Os salários evidenciavam enormes disparidades: enquanto os homens podiam auferir 600 réis, as mulheres ficavam pelos 220 réis e os menores apenas 180 réis.

Utilizavam como matérias-primas estrangeiras o azeite, importado de Itália, a folha-de-flandres e madeira para os barris, cujo valor, em 1881, atingiu os 14 contos.

Segundo Parodi, o atum era uma excelente matéria-prima, mas não tanto o azeite nacional, cujas condições de fabrico eram «péssimas», mas que «quando ele chegar ao aperfeiçoamento do italiano», poderia ser empregue na indústria de conservas[50].

Os comerciantes italianos rapidamente se viram confrontados com a concorrência dos industriais franceses nas costas do Algarve. Algumas razões explicam esta preferência: «…, por um lado, porque o atum permitia dilatar o período de actividade das suas fábricas (as temporadas de pesca do atum e sardinha sucedem-se da Primavera ao começo do Inverno); por outro, porque o mercado francês absorveria, através dos emigrantes italianos, as respectivas ofertas; e ainda por outro, pela possibilidades de reexportação para os mercados mediterrâneos do porto de Marselha» [51].

As vantagens de Vila Real assentariam na existência da grande lota de atum do Algarve, na abundante produção regional de sal a preços relativamente baixos, na criação de novos empregos para os seus habitantes, nos vastos incultos arenosos, na margem do Guadiana, propícios para a implantação de fábricas e nas excelentes condições portuárias permitindo o escoamento directo das conservas, nomeadamente para Génova e Livorno[52].

O arranque deste tipo de indústria esteve dependente da mão-de-obra italiana, alguma mesmo especializada como era o caso dos ronqueadores, cortadores, mestres de salmouras, cozedores e soldadores. De Itália vieram igualmente nos primeiros anos de actividade, azeite, barris, “vazio”, estanho, chumbo e equipamento fabril. De Inglaterra e do Norte da Europa importava-se carvão, folha-de-flandres, chumbo, estanho, cobre, tintas e vernizes de litografia, caixas de madeira, substituídos por similares, de pinho, vindas do litoral norte do país.

Em 1880, foi a vez do industrial espanhol Tenório fundar a fábrica “S. Francisco”, dedicada, igualmente, ao fabrico de atum em escabeche. Os instrumentos de produção desta unidade “industrial” reduziam-se a 4 caldeiras de ferro para coser o atum, pois não dispunham de quaisquer motores.

A força de trabalho era, igualmente, em menor número do que a do seu concorrente Parodi: era constituída por 15 a 20 operários, 30 a 40 operárias, e 4 menores. A jornada de trabalho, pelo contrário, era superior em uma hora: o trabalho prolongava-se por 15 horas, 10 de dia e 5 à noite. Em relação ao salário, os operários auferiam entre os 400 e os 900 réis diários, as operárias idêntico valor ao da fábrica Parodi e os menores ficavam-se, apenas, por 120 réis.

[50] Inquérito Industrial de 1881. Inquérito Indirecto. Repartição de Estatística, 3ª parte, Lisboa, 1882, p.80-81 e p.292-293.
[51] Ibid., p. 287.
[52] cf. Carminda Cavaco, op. cit., p. 297.

Para não destoar da sua nacionalidade, importava azeite de Espanha, mas também de Itália, assim como importava folha-de-flandres. Matérias-primas que em 1881 custavam 6 contos. Para o mesmo período de laboração da fábrica de Parodi, Tenório exportou 100.000 kg de atum, no valor de 18 contos.

Quer um, quer outro dos industriais dependia da manutenção do drawback [53] para o azeite importado de Itália e de Espanha, tendo em conta a má qualidade do congénere nacional. Ambos defendiam, também, a moderação da pauta de exportação para os seus produtos «porque o valor de 250 réis em kilograma de atum é muito superior àquele por que se vende no mercado de Itália» [54].

Em 1903, três das fábricas de conservas de atum, pertenciam a industriais italianos[55].

As matérias-primas subsidiárias, azeite e folha-de-flandres continuam a ser essencialmente importadas, aquele de Espanha e Itália, esta de Inglaterra.

Outro industrial que investiu, embora temporariamente, 1881-1886, em conservas de atum foi Ligone. Este industrial ergueu uma unidade junto da fábrica “Santa Maria”, adquirida por Parodi. As fábricas de conservas de atum passaram posteriormente a trabalhar conservas de sardinhas o que explica a sua estabilidade económica[56], visto que permitia «prolongar o período de actividade e com ele maiores e mais regulares lucros, mais rápida amortização dos investimentos e fixação de um quadro de operários especializados» [57].

Outras fábricas irão surgindo: em 1884, “S. Sebastião” e, posteriormente, ainda, “Esperança”, “Peninsular” e “Guadiana”.

«As empresas iniciadoras e as que continuaram a exploração, quando houve mudança de firma, constituíram-se por investimento de capitais locais, quase sempre ganhos no comércio por espanhóis do sudoeste andaluz (com excepção da empresa proprietária da fábrica “Guadiana”) imigrados para Vila Real desde os meados do Século XIX. Apenas no caso de S. Sebastião foi possível detectar certa filiação industrial» [58].

Nas litografias e nas serralharias associadas às fábricas de conservas as origens dos investimentos foram de espanhóis e de italianos.

[53] Drawback – regime alfandegário que consistia em restituir parcial ou totalmente os direitos aduaneiros na importação de matérias-primas quando os produtos manufacturados eram exportados. Este regime levantaria acesa polémica entre os industriais conserveiros nos anos 20 e 30.
[54] Inquérito Industrial de 1881.
[55] Estatística Industrial dos Distritos de Évora, Beja e Faro, p. 315.
[56] cf. Carminda Cavaco, op. cit., p. 298
[57] Ibid., . 300.
[58] Ibid., p. 300.

Em 1890, são contadas 5 fábricas nas quais trabalhavam cerca de 338 operários. Entre 1904 e 1908, o número de fábricas não se alterou e a produção mostrou evidente irregularidade (Quadro III).

 

Sublinhe-se a importância das fábricas Ramirez & Cª e Angelo Parodi, e o número já relativamente elevado, em relação aos outros trabalhadores, da força de trabalho feminina e o número de soldadores, classe que protagonizou grandes lutas sociais contra a introdução de máquinas de soldar.

Estas 6 fábricas importaram, em 1907, 260.905 litros de azeite de oliveira, provenientes de Itália, Espanha e França [59]:

Durante longos anos a indústria peninsular encontrou-se fortemente dependente do mercado italiano, nomeadamente dos negociantes de Génova atraídos, como sempre, pela abundância de matéria-prima cujos preços eram inferiores aos da Itália. Portugal e Espanha asseguravam «61% das importações italianas de conservas herméticas de peixe em azeite, em 1880 – embora somente 17% em 1879 (cerca de 4/5 correspondem às de atum) – e 64% das de atum, em 1883» [60].

Esta dependência plasmou-se até na «organização de transportes especiais, que se tornam fundamentais em épocas de crise, como durante a Primeira Guerra e no imediato após guerra: os vapores de A. Parodi carregavam nos cais da fábrica do Guadiana quase toda a produção regional (incluindo a da Isla Cristina) destinados a Génova, pela força do seu próprio monopólio comercial» [61].

[59] Ataíde Oliveira, Monografia do Concelho de Vila Real de Santo António, p. 173.
[60] C. Cavaco, op. cit., vol. II, p. 296.

Quer em Vila Real, quer em Olhão, continuaram a aumentar o número de fábricas durante o segundo decénio do século XX. A este facto não foi estranho o aumento das importações do mercado francês, a abertura do mercado alemão, graças ao tratado de comércio com Portugal, em 1910, e o aumento do consumo de conservas durante a guerra.

Em Vila Real de Santo António localizava-se, ainda, a mais importante indústria de litografia do sul do país, cujas máquinas, como não podia deixar de ser, eram igualmente importadas de França e Alemanha. O arame de aço vinha da Alemanha [62].

Embora, o índice de mecanização da indústria de conservas no Algarve fosse reduzido, o centro de Vila Real de Santo António era, a par do de Lagos, aquele que contabilizava o maior número de instrumentos de trabalho. Em termos de mobilização era mesmo o principal, dispondo de 8 máquinas a vapor, as quais debitavam 40 cv[63]. Contudo, apenas uma percentagem reduzida era empregue na produção de força motriz. O capital fixo e móvel era de 64 e 200 contos, respectivamente, evidenciando um reduzido grau de mecanização e o predomínio da mão-de-obra, obviamente, diferenças certamente importantes de umas fábricas para outras[64].

[61] Ibid., p. 298.
[62] Estatística Industrial dos Distritos de Évora, Beja e Faro, p. 317.
[63] Ibid., p. 328.
[64] Ibid., p. 321.
[65] Ibid., p. 319.

 

As sete unidades fabris existentes nesta localidade, embora fossem «bastante arejadas, seria para desejar em algumas um estado de limpeza mais cuidado», tendo presente o tipo de produção que nelas se fazia [65].

Em termos operários, Vila Real de Santo António era por volta de 1903, o maior centro conserveiro do Algarve, no qual trabalhavam no total 818 operários de ambos os sexos, com quase idêntico número para um e outro (400 operários e 418 operárias) – naquele número incluíam-se 21 estrangeiros de ambos os sexos (Quadro VI).

 

Na hierarquia salarial vinham em lugar cimeiro os soldadores com 900 réis, podendo os mais hábeis alcançar os 2$000, os barrileiros, auferindo 800 réis, todos de nacionalidade italiana, empregues «em cortar atum durante a época em que ele se pesca e durante o resto do ano em fazer barris para exportação de biqueirão (enxova), que a casa preparou principalmente em Olhão» [66]. Seguidamente, estavam os fogueiros que auferiam um salário médio de 500 réis e os trabalhadores que consoante a idade, ganhavam de 200, 230 e 450 réis os do sexo masculino e 180 a 200 réis os do sexo feminino[67] (Quadro VII).

[66] Ibid., p. 320.
[67] Ibid., p. 326.

Notas: (1) salários máximos para os operários mais hábeis; (2) operárias; (3) operários e (4) operárias. Fonte: Estatística Industrial dos Distritos de Évora, Beja e Faro, 1905.

Do total dos 797 operários conserveiros portugueses a trabalharem nas fábricas do Algarve, apenas 20%, sabiam ler, o que não destoava, em relação aos restantes centros, nem certamente, ao mundo operário de então. Este número contrastava «com a população estrangeira das fábricas, onde não encontrei nem um italiano analfabeto e em classes operárias da mesma categoria», segundo Francisco de Salles Fernandes Gião, Engº-ajudante, encarregado de elaborar a Estatística Industrial do distrito de Évora, Beja e Faro, em 1903 [68].

A importância do movimento operário em Vila Real de Santo António era testemunhado pelo aparecimento de associações de classe, origem de «greves parciais, com exigência de aumentos salariais, no momento em que as fábricas se encontram cheias de peixe e em que a resistência dos industriais era mais difícil; e estes, em geral, aproveitam a mudança das circunstâncias para imporem então as suas condições» [69]. O valor das matérias-primas empregues elevava-se a 167,4 contos, 122,4 para os 30.600 atuns em média capturados e 45 contos para as 580 pipas de azeite de 500 litros cada uma[70].

A indústria de conservas de Vila Real de Santo António produzia, cerca de 1903, 21.000 caixas de atum de 80 kg cada uma no valor de 336 contos; 11.500 caixas de conservas de sardinha de 30 kg cada uma no valor de 46 contos, para além de 7 contos de óleo de peixe e 7 contos de adubo de peixe[71]. Mercadoria que se dirigiu para o mercado italiano, essencialmente o atum, mas também para os países da Europa, América e colónias portuguesas[72].

Em 1917, vivendo o clima geral de alguma euforia, como já constatámos, Vila Real de Santo António conta com 8 fábricas de conservas de peixe e 1349 operários, situando-se como o segundo centro conserveiro do Algarve, em termos de número de operários e o terceiro em número de fábricas. Tinha ainda, 6 fábricas de salmoura nas quais trabalhavam, apenas, 127 operários[73].

Antes da II Guerra Mundial, somente em 1934, temos conhecimento de Vila Real de Santo António ter 13 fábricas com uma capacidade de produção de 413.561 caixas, representando 7% da capacidade total do país.

[68] Ibid., p. 320.
[69] Ibid., p. 320,
[70] Ibid., p. 321.
[71] Ibid., p. 321 e 322.
[72] Ibid., p. 322.
[73] cf. Duarte Abecassis, op. cit., p. 22.

 

2.2. Lagos

Pelo menos até à I Grande Guerra será o maior centro conserveiro algarvio, depois suplantado por Olhão. Naquele centro o arranque da indústria conserveira terá sido muito precoce, visto que em 1880 aqui se instalaram as primeiras conserveiras francesas, fugidas à crise da pesca da pesca da sardinha na Bretanha[74]. Nesta cidade a família Novack, cria, em 1890, a primeira “estiva” da sardinha[75].

Em 1889 abre as suas portas a empresa Aliança Fabril Lacobrigense, Ltd (Anexo I. Quadro IV). Em 1890, o número de fábricas eram de 4, em Janeiro de 1904, contabilizavam-se 8 fábricas de azeite e 3 de estivas, para além de uma fábrica de guano e de óleo de peixe[76], em 1905, o número de fábricas subia para 15[77], e, em 1908, o seu número encontrava-se agora na dezena, com uma produção que oscilava entre 2.000.000 e 2.500.000 kg de peixe em latas, cujo valor atingiria os 200 contos[78].

Em 1903, o conjunto de operários e de operárias nas fábricas de conservas deste centro alcançava 625 (Quadro VIII).

[74] cf. Antero Nobre, História Breve da Vila de Olhão da Restauração, p. 128
[75] cf. F.Guerra, “Conservas de Peixe”, Boletim da Pesca, nº10, Março 1946, p. 46.
[76] cf. Estatística da Industrial dos Distritos de Évora, Beja e Faro, p. 234.
[77] cf. Antero Nobre, op. cit., p.128.
[78] cf. Adolfo Loureiro, Os portos marítimos de Portugal e Ilhas adjacentes, vol. IV, p. 179.

Na fabricação de conservas de peixe em azeite e na salga de peixe trabalhavam, respectivamente, 25 e 70 trabalhadores de ambos os sexos. Naquela havia 345 operárias, correspondendo a 55,2%, enquanto nesta laboravam 50 mulheres, correspondendo a 71,43%.

 

Na salga de peixe os salários eram: tanoeiros, de mais de 16 anos, em número de 12, 600 réis, as operárias estivadoras (50), 300 réis e os trabalhadores (8) 360 réis[79].

O grande industrial Júdice Fialho adiciona ao seu património conserveiro de Portimão, em 1903, mais uma unidade industrial em Lagos[80].

Em finais de 1911, existiriam 14 fábricas de conservas nas quais trabalhavam 1.360 operários e operárias, o que mostra uma significativa evolução em relação a 1903, com uma produção anual de 800 a 900 contos (Quadro IX).

[79] Ibid., pp. 239 e 243.
[80] cf. Joaquim António Nunes, Júdice Fialho e a Evolução…, p. 11

Em 1916, laboravam, então, 13 fábricas, número que subirá para as 21, em 1930, mas, em consequência da crise descerá para 13, em 1934[81]. O número de trabalhadores, em 1917, cifrava-se agora em 1019.

 

Ainda em 1917, as fábricas de salmoura eram em número de 3, ocupando, apenas 93 trabalhadores[82]. Em 1935, o Grémio das indústrias de conservas de Setúbal, cifrava o número de operários do centro de Lagos em apenas 758; 138 homens e 620 mulheres[83].

À excepção, obviamente, da principal matéria-prima, de algum azeite e do sal, as restantes eram todas importadas. Azeite de Itália e de Espanha, folha-de-flandres de Inglaterra, arame da Alemanha e madeira para os barris da Áustria e Hungria[84]. Predominava, essencialmente, o trabalho manual, salientando-se como equipamento industrial as caldeiras a vapor, utilizadas, quer para cozer o peixe, quer nas estufas, as bassines para fritar o peixe, os secadores e as estufas[85].

Neste centro a jornada de trabalho era de “Sol a Sol”, geralmente com duas horas de descanso no Inverno e de três no Verão, repartidas por dois intervalos[86]. Era a única indústria no concelho de Lagos onde havia trabalho nocturno. Este era organizado para as mulheres da seguinte forma: a) trabalhavam «de noite mulheres, maiores e menores», sempre que houvesse peixe; b) se o trabalho terminasse às 22 horas, não haveria descanso. Em caso contrário, as operárias iriam cear, das 22 às 23 horas, e regressariam ao trabalho até o concluir; c) se no dia seguinte houvesse peixe as mulheres voltariam para o trabalho; d) todo o trabalho seria pago às horas[87].

Em carta dirigida ao Ministro das Finanças, Oliveira Salazar, sobre o porto de Lagos, afirmava-                 -se que esta cidade já possuíra 40 fábricas de conservas de peixe, estando, agora, em 1929, reduzidas a apenas 19[88].

Um dos grandes problemas da cidade de Lagos e que terá contribuído para a sua decadência relativa como centro produtor e exportador de conservas terá sido a falta de um porto com as necessárias infraestruturas – melhoramento local tão reclamado, atrevemo-nos a afirmar ao longo de décadas, pelas “forças vivas” locais. Para o Presidente da Câmara de Lagos, Francisco Moreira Pacheco, a falta daquele porto – pelo menos de um porto de pesca para abrigo das suas embarcações -, garantiria um maior movimento industrial. Os cercos de fora que na sua faina vinham pescar nas suas águas levavam de regresso a tão preciosa matéria-prima para as terras de origem, valorizando-as. Esta situação conduzia ao aniquilamento da sua indústria conserveira. Na cidade encontravam-se em laboração apenas quatro fábricas, estando paralisadas 24. Ou seja, não se fabricava, visto que não havia pesca e esta reduzia-se drasticamente porque não havia um porto. Um círculo vicioso difícil de ultrapassar[89].

[81] cf. Boletim dos Organismos Econónicos, vol. I, nº2, Dez.1935, Gráfico 23; Para 1916, Nuno Simões, “Notas sobre a evolução…”, Indústria Portuguesa, nº97, Março 1936, p.24, para 1930, Alberto C. Afrá, “A crise…”, Indústria Portuguesa, nº39, Maio 1931, p. 48.
[82] Duarte Abecassis, Estudo Geral Económico…, p. 22.
[83] cf. O Conserveiro, nº 3, 15/11/35.
[84] Estatística Industrial dos Distritos de Évora, Beja e Faro, p. 235.
[85] Ibid., p. 235.
[86] Ibid., p. 237.
[87] Adriano Couteiro, “Relatório da 4ª circunscrição dos serviços technicos da indústria (Évora, Beja e Faro), no ano de 1905, BTI, nº3, 1907, p. 35 e 36.
[88] cf. “O porto de Lagos. As reclamações e o desânimo do Algarve perante o esquecimento a que tem sido votado. Carta ao Sr. Ministro das finanças”, Terra Algarvia, nº37, 31/10/29, p. 1.

De todas as fábricas existentes neste centro havia, «uma pequena fábrica em que todos os soldadores que nella» trabalhavam estavam «associados» e constituíam «assim uma cooperativa de produção directa, sendo esta a única fábrica que trabalhava na ocasião da minha visita em que os soldadores estavam em greve», segundo o engenheiro-ajudante, Francisco de Salles Fernandes Gião, encarregado de elaborar a estatística industrial dos concelhos do distrito de Faro[90].

A importância da indústria de conservas em azeite, em Lagos, em relação a outros centros algarvios, pode ser avaliada pelo capital fixo e circulante que andariam, para cada um, pelos 100 contos. Esta indústria empregava 75.000 milheiros de sardinha, cada milheiro, em média 800 réis, 140.000 kg de azeite importado, 100.000 kg de azeite nacional, «principalmente da fábrica de Alferrarede, valendo aproximadamente uns 65.000$000 réis» e cerca de 30 contos de folha-de-flandres[91].

Valores muitíssimo mais reduzidos para a salga do peixe, com 4 contos e 25 contos, respectivamente, para o capital fixo e circulante, evidenciando a fraquíssima mecanização do trabalho, por um lado, e, proporcionalmente, os maiores gastos despendidos nas matérias-primas. A madeira para os 9.000 barris produzidos, geralmente importada, valia cerca de 3,6 contos e, os próprios barris 6,3 contos[92].

A produção das oito fábricas atingiu os 1.500.000 kg, com um valor aproximado de 300 contos cujos principais mercados consumidores se localizavam na Inglaterra, Estados unidos da América, Rússia e Bélgica. A indústria da salga produzia 112.000 kg de sardinha, cujo valor se ficava pelos 36 contos. Este tipo de conserva era exportada para Itália, Grécia «e um pouco para a Áustria-Hungria». O óleo de peixe ia quase todo para Hamburgo, enquanto o adubo era aproveitado na agricultura do Algarve.

[88] cf. “O porto de Lagos. As reclamações e o desânimo do Algarve perante o esquecimento a que tem sido votado. Carta ao Sr. Ministro das finanças”, Terra Algarvia, nº37, 31/10/29, p. 1.
[89] cf. “As nossas entrevistas. O Presidente da Câmara de Lagos fala-nos da sua cidade e dos melhoramentos que a mesma necessita”, Diário do Algarve, 28/12/32, p. 1 e 2.
[90] Estatística Industrial do Distrito de Évora, Beja e Faro, p. 237
[91] Ibid., p. 238.
[92] Ibid., p. 238.

Conclusão: predomínio do trabalho feminino auferindo salários mais baixos do que os pagos aos operários e trabalho de menores. Fraca mecanização do trabalho com o consequente predomínio do trabalho manual, consistindo a produção de conservas numa actividade, no geral, de carácter artesanal.

 

2.3. Portimão

Neste importantíssimo centro conserveiro algarvio e nacional, o take off da indústria foi também relativamente precoce (Anexo I. Quadro V).

Segundo os dados por nós recolhidos, 1891, assinala o nascer da indústria com a implantação de duas fábricas: a Fábrica de Conservas «Liberdade», e a fábrica «S. José», esta pertencente ao grande comerciante, armador e industrial Júdice Fialho. Contudo, este não ficaria apenas por esta unidade, já que, em 1903, põe em laboração a fábrica de “S. Francisco” e, em 1904, compra a fábrica de conservas localizada em Ferragudo[93].

Nas suas unidades fabris encontrava-se «tudo o que modernamente em machinismos e instalações indústrias modernas têm inventado para reduzir o trabalho manual» [94]. Das suas fábricas de Portimão e Ferragudo diariamente poderíamos contemplar quando havia «sufficiente matéria-prima para os trabalhos», «a saída de operários em grandes agrupamentos fazendo cauda extensa ao longo das estradas» [95].

Este grande e moderno industrial para o seu tempo e do qual voltaremos a falar, possuía, para além destas fábricas, e das localizadas em Lagos e em Olhão, fábricas de conservas de atum, no sítio do Esturmal, próximo da Praia da Rocha e no Funchal. Peniche (1915) e Sines (1926), como importantes centros piscatórios, viram, igualmente, erguer-se as altas chaminés das fábricas de conservas, propriedade de Júdice Fialho. Para o abastecimento das suas unidades de produção dispunha de uma frota de vapores e de gasolinas, para além de uma importante frota pesqueira, tendo montado próximo da fábrica de “S. Francisco” um estaleiro naval onde construía as suas próprias embarcações.

A fábrica “S. José”, cerca de 1911, dispunha de «tinas, adega de azeite, casas de descabeçar e enlatar, officinas de soldadores, machina de ebulição, geradores de vapor, …, estiva e casas de enxugar o peixe», entre muitos outros compartimentos[96].

[93] cf. Joaquim António Nunes, Júdice Fialho e a Evolução Histórica de Portimão, pp. 10-11.
[94] Luiz Mascarenhas, Indústria do Algarve, 1915, p. 14.
[95] Ibid., p. 15.
[96] José Gonçalves Vieira, Memória Monográfica de Villa Nova de Portimão, p. 89.

A força de trabalho era constituída por 20 soldadores, com um salário médio de 1$200 réis, 200 mulheres que auferiam 30 réis/hora, trabalhavam cerca de 10 horas, recebendo, em média 300 réis, diários[97].

A fábrica de atum tinha igualmente dos mais modernos meios de trabalho, nomeadamente, uma bateria de 20 caldeiras para cozer o atum, e da sua força de trabalho ressaltavam cerca de 50 operários, soldadores e trabalhadores, com salários idênticos à fábrica “S. José”[98].

A empresa Júdice Fialho cedo constituiu uma grande unidade de produção vertical, dispondo, não só, de uma frota de transporte e pesqueira, mas, também de outras unidades de produção adjacentes, nomeadamente, propriedades agrícolas das quais recebia as matérias-primas essenciais para a produção de conservas, como azeite, madeiras, principalmente, ficando, assim, relativamente incólume, às oscilações dos mercados.

Nesta estratégia de auto-suficiência, Júdice Fialho, cerca de 1904, ergue a “Litografia”, na qual se desenham «as marcas e as figuras das latas, litografa-se e ilustra-se a folha, fazem-se todas as operações de fabrico da lata para receber o peixe das conservas» [99].

Esta litografia, que rapidamente se desenvolveu, cerca de 1911, era constituída, entre outros instrumentos de trabalho, por três prensas litográficas de mão, uma máquina de redução, uma de granear pedras, movida por um electromotor de 2 ½ cavalos, 2 geradores de vapor, de 30 e 50 cavalos, respectivamente; a oficina das máquinas tinha três estufas e existiam ainda cinco máquinas de impressão litográfica. Todo este parque de máquinas era movido por electromotores.

O pessoal da litografia cifrava-se em 39, das quais 30 operárias; a média dos salários era de 460 réis diários, com uma jornada de trabalho de 10 horas. Imprimia, manualmente, cerca de 10.000 folhas de Flandres[100].

Feu Hermanos, espanhol de nacionalidade, funda, em 1902, a fábrica «S. Francisco», a qual, dispunha, também, de fábrica de latas, produzindo 10.000/dia e fechando 3.500. O número de trabalhadores e os respectivos salários seriam idênticos às das fábricas antes mencionadas[101].

[97] cf. ibid., p. 90.
[98] cf. ibid., p. 90.
[99] Joaquim António Nunes, op. cit., p. 11.
[100] cf. José Gonçalves Vieira, op. cit., p. 91.
[101] cf. ibid., p. 90.

O Boletim dos Organismos Económicos, de Dezembro de 1935, dá como constituída, em 1892, nesta localidade, uma fábrica de conservas de peixe pela Societé An. des Établissements F. Delory. Contudo, os autores, anteriormente citados, não nos informam sobre a existência de semelhante fábrica.

Em 1903, erguiam-se nesta vila «duas fábricas de conservas «estando uma d’ellas alargando a sua instalação e estando já a construir-se uma terceira especialmente destinada à preparação de conservas de atum» [102].

As matérias-primas secundárias empregues pela indústria de Portimão eram todas importadas; o azeite de Espanha e de Itália e a Folha-de-flandres de Inglaterra[103]. Empregava «em média annual 10.000 atuns no valor de 20.000$000 réis, e 50.000$000 milheiros de sardinha no valor de 60.000$000 réis; além de 60.000 kilogrammas de azeite valendo aproximadamente uns 17.000$000 réis, e da folha de Flandres que lhe vem de Inglaterra e que tem um valor aproximado de uns 20.000$000 réis»[104].

À semelhança de outros centros conserveiros a mecanização em Portimão era igualmente muito reduzida. As três caldeiras a vapor existentes destinavam-se a fornecer vapor para cozer a sardinha e para a estufagem das latas de conserva[105].

O processo manual predominava. O capital fixo seria de 24 contos e o móvel de 30 contos[106]. O índice de mecanização em Portimão era muito semelhante ao de Olhão, e ambos os centros inferior ao de Lagos, ou seja, baixa composição orgânica do capital.

[102] Estatística Industrial dos Distritos de Évora, Beja e Faro, p. 274.
[103] Ibid., p. 274.
[104] Ibid., p. 278.
[105] Ibid., p. 275.
[106] cf. Ibid., p. 278.

Em percentagem a proporção entre operários e operárias eram sensivelmente menor do que em relação a Olhão. A mão-de-obra feminina aqui representava 53,8% do total da força de trabalho. Os salários eram os habituais consoante a categoria e a idade. Os soldadores, em número de 53, auferiam 800 réis, podendo, os mais hábeis chegar aos 1$500. Os aprendizes de soldadores, em número de 10, auferiam um salário médio de 300 réis, pago pelos próprios soldadores e não pelo patrão[107]. Os ajudantes de soldador, 38, 100 réis. Os estivadores, apenas, operárias, 192, 200 réis, enquanto os trabalhadores (60), entre 200 e 300 réis[108]. A percentagem de analfabetos era também muito elevada entre os operários e operárias do centro de Portimão, atingindo os 85,6%[109].

[107] Ibid., p. 277.
[108] Ibid., p. 282 e 283.
[109] Ibid., p. 281.
[110] Ibid., p. 278.
[111] cf. Duarte Abecassis, Estudo Geral Económico, p. 22
[112] José Simões Quintas Júnior, “Relatório dos serviços da 5ª circunscrição industrial no ano de 1921. Resumo do Relatório”, Boletim do Trabalho Industrial, nº123, pp. 70 e 71

Para os mercados inglês, alemão, francês e norte-americano era exportada praticamente toda a sua produção. Esta era comportada em 200 caixas de conservas de atum de 80 kg cada uma, no valor de 32 contos e 50.000 caixas de conservas de sardinha no valor de 200 contos[110].

Em 1908, existiriam 3 fábricas de conservas cujo movimento de 1904 a 1908, evidenciou uma quebra da produção e respectivo valor.

 

Em contrapartida, o montante anual, quer dos direitos, quer das contribuições mostram uma clara tendência para crescer.

O período da I Guerra Mundial e o que se seguiu foram propícios, pelas razões que mais à frente analisaremos, para a implementação de um maior número de unidades de produção conserveira, com o consequente aumento da massa operária (ver Quadro X). Em 1917, existe somente uma fábrica de salmoura com um efectivo de 47 operários[111].

Em 1921, no concelho de Portimão foram registados 4 estabelecimentos industriais[112], e, em 1934, o número de fábricas, em consequência da grave crise que afectou o sector, desce em relação a 1930, para 21 unidades, com uma capacidade de produção de caixas de 100 latas ¼ club 30 mm, de 596.181, ou seja, 10,1%, do total de todos os centros[113].

[113] cf. Alberto C. Afrá, “A crise …”, Indústria Portuguesa, nº39, Maio 1931, p.48 e Boletim dos Organismos Económicos, vol. I, nº2, Dez.1935, Gráfico 23.
[114] Estatística Industrial dos Distritos de Évora, Beja e Faro, pp. 224-230.

Em Ferragudo, nesta época pertencente ao concelho de Lagoa, em Janeiro de 1904, existiam 2 fábricas de conservas, que ocupavam 227 trabalhadores, dos quais 126, cerca de 56,5%, de mulheres. O trabalho de menores tinha alguma expressão: de 12 a 16 anos, laboravam 41 aprendizes que representavam 32,24% do número total de trabalhadores. Os soldadores eram em número de 37, auferindo um salário médio de 700 réis, pagos de empreitada «sendo elles que pagam aos ajudantes, geralmente menores, que não recebem salário do industrial; as estivadoras são pagas a 20 réis por hora de trabalho, sendo o jornal dos trabalhadores propriamente ditos fixados por dia de trabalho».

A jornada de trabalho era “de Sol a Sol”, com duas horas de descanso por dia, repartidas por dois intervalos. Apenas as estivadoras trabalhavam à noite quando a quantidade de peixe assim o justificasse.

O capital fixo para as duas fábricas era cerca de 30 contos «com as habituaes reservas que as informações sobre tal assunto exigem», que produziam 14.000 caixas num valor de 70 contos, exportadas. As condições de trabalho eram muitíssimo artesanais, mesmo o dos soldadores, «feito com o auxílio de fogareiros com carvão, estando na fábrica principal este sistema para ser brevemente substituído pela gazolina» [114].

 

2.4. Olhão

Neste importante centro a origem dos capitais investidos na indústria de conservas de peixe pertenceu também a espanhóis, italianos e portugueses, nomeadamente proprietários urbanos e rurais.

Em Olhão, ao contrário de Vila Real de Santo António sobressaía «o predomínio de iniciativas “nacionais” (pela origem dos capitais) e de maior dimensão além da sua especialização em conservas mais ricas: 20% do número de fábricas da província, 17% da quantidade de conservas produzidas e 28% do seu valor, em 1908; 24%, 19% e 20%, em Olhão, respectivamente» [115].

[115] Ibid., p. 300.

O Inquérito Industrial de 1881, ainda não assinala qualquer fábrica de conservas, em Olhão. Contudo, em 1882 «parece já existirem 2 conserveiros franceses» [116], um dos quais seria F. Delory (Anexo I. Quadro VI). Contudo, em 1890, existia já uma fábrica, a Albert L. Verdeau Freire & C.ª, de dimensão razoável, para os critérios nacionais, pois nela trabalhavam 130 operários. Em 1903, contar-se-iam já 371 (Quadro XIII). O seu número irá crescer rapidamente, pois, em 1901 contabilizavam-se 8 fábricas e, em 1906, 12 empresas, destas últimas, 7 eram de conservas em azeite e 5 de salmoura, nas quais laboravam 526 trabalhadores (82 soldadores, 360 operários e 41 menores), com uma produção de 1.425 toneladas [117] (Quadro XII). Continuava, porém, atrás de Lagos que posicionava como o maior centro algarvio na produção de conservas nesta época.

Arthur Aléno Pére, um dos primeiros industriais a instalar uma fábrica de conservas em azeite, neste último ano já tinha abandonado Olhão por «incompatibilização com o pessoal operário» [118].

Aliás, o escasso apetrechamento técnico e o pouco capital necessário para montar então uma “fábrica” possibilitou a fundação de algumas pelos próprios operários: «Compravam uma caldeira, montavam algumas barracas e confiavam na sorte»[119]. A instalação de fábricas de conservas nesta localidade, aliás, como em outras, favoreceu o desenvolvimento da pesca local, o incremento da construção naval, o aumento do tráfico portuário e o crescimento do comércio em geral.

[116] cf. Antero Nobre, op. cit., p. 128.
[117] cf. Adolfo Loureiro, op. cit., p.. 306.
[118] Ibid., p. 128.
[119] João Vallares, Olhão e Abílio Gouveia…, p. 43

Segundo a Estatística Industrial de 1903 existiam nesta localidade 6 fábricas, duas pertencentes a industriais portugueses, duas pertencentes a industriais franceses e duas a italianos[120].

Embora conhecesse então uma fase de prosperidade, os conflitos sociais no âmbito da indústria tinham «levantado aos industriais algumas dificuldades», obrigando-os «a unir-se para resistir às imposições das associações da classe dos trabalhadores» [121].

Subsidiária da indústria de conservas firmava-se a pequena indústria de serração de madeira que produzia caixas e caixotes de diversos tipos empregues na exportação de peixe. O azeite utilizado na indústria de conservas era o de Alferrarede, de Moura, de Itália em maior quantidade e algum espanhol[123]. Estas seis fábricas caracterizavam-se por uma total falta de mecanização, assentando o processo produtivo essencialmente na força de trabalho. Para além dos instrumentos de trabalho indicados no quadro seguinte, a indústria de conservas empregava três caldeiras a vapor as quais se destinavam, porém, a fornecer vapor às estufas e não para fornecer trabalho mecânico. Os gazómetros de acetilene e gasolina empregavam-se na iluminação das fábricas, «havendo um industrial que… tinha quase pronta a instalação de um gazómetro para o gaz illuminante ordinário, produzido pela destilação da hulha num forno com três retortas e com que elle projectava illuminar não só a própria fábrica, mas talvez quase todas as de Olhão» [124].

[120] Estatística Industrial dos Distritos de Évora, Beja e Faro, p. 260
[121] Ibid., p. 260.
[122] Ibid., p. 260.
[123] Ibid., p. 261.

A testemunhar o peso da força de trabalho e o grau reduzido da mecanização da indústria temos os valores do capital circulante e fixo: aquele 150 contos, este 70 contos[124].

Embora as fábricas de conservas de peixe fossem, em geral, espaçosas e arejadas, a limpeza, contudo, era considerada deficiente o que de alguma forma se compreenderá pela natureza do trabalho que nelas se realizava.

Quanto às matérias-primas, e se exceptuarmos o peixe sempre variável de ano para ano, a indústria empregava em média 110 toneladas de azeite em valor aproximado de 24 contos[125].

A mão-de-obra assentava, para não fugir à regra geral, no trabalho feminino, representando 67,5% do total da mão-de-obra. Era, aliás, no trabalho feminino que se encontravam os únicos aprendizes com menos de 12 anos de idade, evidenciando a posição subalterna do trabalho feminino na indústria e ao qual eram pagos os mais baixos salários, cerca de 100 réis. Era, também, às mulheres a quem estava confiado o trabalho de estivadoras cujo salário médio era de 200 réis.

Os operários (soldadores e trabalhadores) auferiam, de uma forma geral, salários mais altos. Os trabalhadores em número de 45 de 12 a 16 anos e de mais de 16 anos, ganhavam, respectivamente, 100 e 350 réis de salário médio. Os soldadores, em número de 70, esta verdadeira aristocracia operária no mundo da indústria de conservas, auferiam salários médios muito acima das outras categorias, que iam dos 500 réis até aos 1$500 para os operários mais hábeis[126]. O seu trabalho era realizado de empreitada.

Protagonizavam, na altura, graves conflitos sociais, em Olhão. A sua associação de classe anarquista manifestava-se «por imposições mais ou menos violentas, tendo, …, os operários cercado uma das fábricas para imporem a proibição de trabalhar o contramestre da fábrica» [127].

[124] Ibid., p. 263.
[125] Ibid., p. 263.
[126] Ibid., p. 266 e 267.
[127] Ibid., p. 263.

Os patrões desejavam colocar em vigor as cláusulas aceites em Setúbal pelos operários, embora os do centro conserveiro olhanense não estivesse pelos ajustes, desejando maiores vantagens «o que parece, tinha já dado origem a coligação dos industriais, que tencionavam fechar todas as fábricas no mesmo dia até se resolver a questão de interesses levantada entre as duas classes» [128].

O analfabetismo grassava entre os operários conserveiros de Olhão, visto que apenas 50, 43 operários e 7 operárias, ou seja, 13,5%, sabiam ler [129]. Predominavam as longas jornadas de trabalho, de «Sol a Sol com 3 horas de descanso no Verão e 1 hora e meia no Inverno, distribuídas por dois intervalos» [130].

O trabalho nocturno, apenas, existia nesta indústria, pelo carácter específico da matéria-prima trabalhada que quando faltava era sinónimo de paragem do trabalho com reflexos imediatos no quotidiano dos operários.

Quanto à produção, cerca de 1903, ela seria de 700 toneladas de conservas de sardinha, 56 toneladas de conserva de atum e 300 barris de lingueirão cujo valor no conjunto alcançaria os 160 contos [131].

Itália e França eram os principais mercados de exploração, mas igualmente Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos da América [132].

Em 1906, o número de fábricas elevava-se a sete, nas quais trabalhavam 526 operários, dos quais 68,4% era mulheres.

[128] Ibid., p. 263.
[129] Ibid., p. 265.
[130] Ibid., p. 262.
[131] Ibid., p. 263.
[132] Ibid., p. 264.

O próprio tecido urbano foi afectado por esta «revolução industrial local», pelo crescimento demográfico a que conduziu, e pelo aumento da área urbana, da qual se destaca as altas chaminés das fábricas de conservas, algumas das quais, solitariamente, ainda sobrevivem, agora, com a função meritória de ninhos de cegonha.

O desenvolvimento da indústria de conservas e de outras atraiu muitos trabalhadores mais das vizinhanças na esperança de mais altos salários e correspondente melhoria de condições de vida. Em 1911, a população olhanense atingiu os 10.890 habitantes[133].

Nos anos a seguir à I Grande Guerra, Olhão, assistiu a um aumento de urbanização. Centenas de pessoas, vindas das aldeias próximas, do Alentejo, de Setúbal e do Norte, ocorreram às fábricas de conservas, pois, apesar dos salários serem ínfimos o trabalho não faltava. Consequentemente, as condições de vida eram precárias e, não raramente desumanas: «As raparigas e mulheres que chegavam de Quarteira, de Moncarapacho, da Fuseta, de São Brás de Alportel, dormiam e faziam a sua vida em barracões, enquanto não arranjavam qualquer casita onde se alojar» [134].

O desenvolvimento da indústria conserveira arrastou consigo, obviamente, o crescimento e organização do operariado conserveiro olhanense que, em 1901, funda a Associação da classe dos operários das fábricas de conservas, cujo seu primeiro presidente foi o soldador Francisco de Sousa Pité. Mas, as operárias não quiseram ficar para trás e, em 1903, tendo como presidente a operária Adelina Rosa, foi fundada a congénere feminina. No ano da implantação da República nasce a Associação de Soldadores de Olhão a qual passará a Sindicato dos Soldadores mas que, em 1928 foi dissolvido conjuntamente com a Confederação Geral do Trabalho[135].

A I Grande Guerra foi o momento do verdadeiro take off da indústria olhanense, pois «o fornecimento de peixe em conserva, tanto em molhos como em salmoura, quer às tropas portuguesas envolvidas em operações de guerra na África e na Flandres, quer ao exército dos países Aliados contra a Alemanha, fez aumentar muito o número de fábricas em todo o país, incluindo Olhão, onde parece que no fim da guerra havia cerca de 80 unidades fabris, …»[136].

Contudo, muitas delas caracterizar-se-iam mais pelo critério artesanal do que propriamente fabril «verdadeiramente improvisadas nas instalações e apetrechamento, sem organização eficaz e sem suporte financeiro suficiente» [137].

[133] cf. Antero Nobre, op. cit., p. 132.
[134] Ibid., p. 42.
[135] cf. Antero Nobre, op. cit., p. 153.
[136] Ibid., p. 160.
[137] cf. ibid., p. 160.

Os lucros provenientes da grande exportação, após o fim da I Grande Guerra, não foram devidamente canalizados para o investimento na modernização das instalações e nos processos de trabalho, mas, frequentemente gastos em artigos sumptuários e imobiliários. Muitos desses industriais, analfabetos, com pouca ou nenhuma preparação de gestão, pouco «preparados para calcular as correcções monetárias, a inflação e as oscilações nos custos das matérias-primas», eram, muitas vezes, dados «ao riso e à chacota pública, quando ofereciam às amantes, casacos de pele que elas exibiam em pleno Verão pela Av. da República» [138].

Em 1917, Olhão tinha 34 fábricas e 2638 operários, colocando-se, desde então, como o maior centro conserveiro algarvio. Em 1921, apenas no concelho de Olhão, foram registados 12 estabelecimentos industriais[139]. Mas a sua importância não parará de aumentar, até 1933, ano em que se assinalam 35 fábricas de conservas de peixe em azeite e 12 em salmoura, para as quais trabalhariam mais de 3.300 operários de ambos os sexos, com um movimento de capital superior a 60 mil contos[140].

O já referido Boletim dos Organismos Económicos, de Dezembro de 1935, dava como existindo em Olhão, 37 fábricas de conservas de sardinha com a maior capacidade de produção do Algarve, 889.254 caixas, ou seja, 15,1% da capacidade total do país.

É de salientar mais uma vez que, nesta questão, como em outras, as divergências entre fontes são assinaláveis. Assim, em 1936, registavam-se, segundo Antero Nobre, 62 unidades fabris (37 conservas em molhos e 25 em salmoura), com 2.962 operários (671 homens e 2.291 mulheres) e, em 1940, 64 fábricas (36 e 28, respectivamente, agora com um maior número de trabalhadores, 3.115 (592 homens e 2.523 mulheres) [141].

 

2.5. Faro

A capital do Algarve, segundo o Inquérito Industrial de 1890 contava com 2 fábricas de conservas de peixe. Número este que se manteve inalterável até, pelo menos, 1917, derradeiro ano sobre o qual possuímos os poucos dados acerca da indústria de conservas em Faro.

[138] João Vallares, Olhão e Abílio Gouveia. O Homem, o Historiador e o Olhanense, p. 44.
[139] José Simões Quintas Júnior, Ibid., pp.70 e 71.
[140] cf. “Notas sobre o valor económico de Olhão”, Correio Olhanense, nº 407, 16/07/33, p. 1
[141] cf. Ibid., p. 194.

Contudo, temos informação que existia, em 1903, apenas uma fábrica, com 50 trabalhadores, 40 dos quais mulheres, auferindo um salário médio de 240 réis e 5 soldadores, mas cujo salário médio era muito superior, 1$000 réis. O seu capital fixo e circulante elevava-se, respectivamente, a 10 contos e 8 contos, permitindo uma produção de 20.000 kg de conservas de azeite, num valor de 3,5 contos.

Encontrava-se instalada também na capital do Algarve uma fábrica de chaves para conservas[142].

Comparando os elementos de 1903 e 1904 e seguintes, verificamos que neles existe uma grande disparidade. Dada a minuciosidade dos elementos coligidos por Adolfo Loureiro, estes não devem ser colocados em causa. Achamos, contudo, estranho o Inquérito de 1903 não enumerar a outra fábrica, que em 1890 já deveria de existir. Durante este período terá encerrado? Reabriu, após 1903? Cresceu a produção em cerca de um ano de forma tão significativa? Respostas difíceis de dar.

 

2.6. Carvoeiro, Armação de Pêra, Albufeira e Quarteira

Embora de uma forma geral tenham sido importantes portos de pesca, nomeadamente, Albufeira e Quarteira, estas quatro localidades não se notabilizaram por uma florescente indústria conserveira.

O Inquérito Industrial de 1890 deu como existindo no Carvoeiro apenas, uma fábrica. Em 1931, segundo o Boletim dos Organismos Económicos, de Dezembro de 1935, continuava a existir uma solitária fábrica, pertencente a José Salvador e que teria uma capacidade de produção de 10.710 caixas, ou seja, uma pequena unidade fabril.

O mesmo Inquérito de 1890 contabilizou, igualmente, apenas uma fábrica em Armação de Pêra. Nesta localidade, pertencente ao concelho de Silves, e de recente instalação – cerca de 1903 –, encontrava-se uma fábrica de conservas de peixe em azeite de reduzidas dimensões. O seu grau de mecanização era reduzidíssimo, pois, apenas, dispunha de uma caldeira, de duas tesouras e balanceira, abatages, fieiras, tampons e estufas também em número de uma unidade cada um destes instrumentos de trabalho[1]. Esta pequena unidade industrial era pertença de todos os soldadores, «constituindo quase uma cooperativa de produção directa» [144].

[142] Estatística Industrial. I Série. Distritos de Évora, Beja e Faro, pp. 203-217.

Obviamente que, quer o capital fixo, quer o circulante tinha de expressar as suas dimensões; cerca de 2 contos para ambos[1]. Laboravam 50 trabalhadores, 20 operários e 30 operárias (estivadoras). Os salários hierarquizavam-se dos 600 réis de salário médio para os 7 soldadores, 240 réis para os 5 trabalhadores, e 100 réis, quer para os ajudantes (7), quer para as operárias [146].

No total eram empregues 6,55 contos de matérias-primas para produzir 3.000 caixas de conservas de peixe no valor de 12 contos, as quais eram exportadas «com toda a facilidade» para França, Inglaterra e Alemanha [147].

Em 1917, continuava a sobreviver apenas uma – seria a mesma? – na qual laboravam 91 operários [148]. No ano da implantação da Ditadura Militar reafirmava-se a existência de uma solitária fábrica pertencente à Sociedade de Conservas Viegas Louro, com uma capacidade de 28.023 caixas, número que evidencia já alguma dimensão relativamente importante [149].

A abundância de sardinha e de atum e os processos para os capturar permitiria a instalação de fábricas de conservas em Quarteira. Não sabemos concretamente a data da instalação da primeira unidade fabril conserveira em Quarteira. Em 1890, porém, já existia uma, cuja descrição que nos indica uma fábrica apetrechada com todos os requisitos modernos para a época: «O serviço de embarque e de desembarque dos seus materiaes e productos é feito em wagonetes, sobre trilhos de ferro, que avançam pelo mar a dentro n’uma ponte de madeira tosca mas segura, resistente, inabalavel ha annos aos duros embates das ondas, alli por vezes alterosas e bravias». Grande parte dos trabalhadores eram de nacionalidade italiana que quando terminava a safra regressavam ao seu país de origem [150].

Presumivelmente seria a mesma que, em 1903, não laborava. Em 1917, num período expansivo da exportação de conservas para os exércitos aliados, registámos a existência de 3 unidades nas quais trabalhavam 268 trabalhadores, com uma média por fábrica que rondaria os 90 trabalhadores. Uma das fábricas de conserva antes referida pertenceria a Francisco Martins Caiado & C.ª, a qual, em 1922, agora num período recessivo, estava à venda, mas «pronta a funcionar»[151]. Quarteira, ao contrário de outras localidades algarvias, foi sempre um pequeno centro conserveiro. Lenta, mas inexoravelmente se foram extinguido, com a contribuição prestimosa do progressivo avanço do mar e dos temporais que assolaram estes mares.

[143] Estatística Industrial. I Série. Distritos de Évora, Beja e Faro, p. 299.
[144] Ibid., p. 293.
[145] Ibid., p. 293.
[146] Ibid., p. 296.
[147] Idem, p. 294.
[148] cf. Duarte Abecassis, Estudo Geral Económico…, p. 22.
[149] cf. Boletim dos Organismos Económicos (BOE), vol. 1, nº 2, Dez. 1935.
[150] Joaquim Ferreira Moutinho, O Algarve e a Fundação Patriótica Industrial e Agrícola, Typographia Elzeviriana, Porto, 1890, pp. 173-174.

No já longínquo ano de 1908, Albufeira contava apenas com uma única fábrica provavelmente pertencente à empresa Ramirez & Cª, Lda., sedeada em Vila Real de Santo António, cuja produção, e apesar de uma quebra, em 1907, conheceu um crescimento significativo, quer na produção, quer em valores. Aliás, durante este período, e como vimos para Lagos e como veremos para as outras localidades onde se erguiam fábricas de conservas, Albufeira foi a única que conheceu um mais significativo aumento da produção de conservas de peixe.

No ano em que eclode a Revolução Russa, Albufeira, observaria, certamente o palpitante trabalhar das suas 2 fábricas e dos seus 231 trabalhadores, o que representava, em média, cerca de 115 operários por cada uma das fábricas, portanto, unidades de relativa importância. Estamos, concretamente, num contexto marcado pela I Grande Guerra e o consequente crescimento das exportações que então ocorreu.

Tal facto explica igualmente a grande proliferação de fábricas no país que, em 1917, se contava por 188 e cujo crescimento continuará a ritmo alucinante.

[151] O Algarve, 10/2/1922

 

2.7. Tavira

Poucos são os dados referentes a Tavira como centro conserveiro. Em 1917, possuía 2 fábricas as quais davam trabalho a apenas 185 operários.

Neste ano, e no contexto a que já nos referimos, implantaram-se as unidades, Companhia de Conservas Balsense, com uma capacidade de produção de 30.240 caixas e João Baptista Caleça, mais reduzida, pois a sua capacidade somente atingiu as 14.610. A empresa de J. J. Celorico Palma nasce, em 1922, e a sua capacidade era de 18.800 caixas.

 

3. Os capitais

Como os inícios da indústria conserveira, em Portugal, foi favorecida pela imigração de industriais estrangeiros, nomeadamente, franceses, italianos, espanhóis e gregos, foram os seus capitais oriundos de actividades similares que foram investidos do take off conserveiro português.

É actualmente difícil estabelecer a história dos industriais conserveiros desde a sua fixação em Portugal. A família Cocco, fixou-se, inicialmente, em Lagos, Paolo Cocco, em 1913, vieram outros membros da família, nomeadamente o pai de Giuseppe Cocco, industriais de conservas de peixe em salmoura, e, em 1930, em Olhão. Vieram de uma ilha situada no arquipélago dos Égatas, a ocidente da Sicília. Embora a maioria dos habitantes da ilha fossem pescadores, havia quem possuísse pequenas fábricas de conservas de peixe em salmoura, como era o caso do avô de Giuseppe Cocco, antigo industrial de conservas de Olhão[152].

Na altura um reduzido capital era suficiente para montar uma indústria de conservas. As instalações eram em um armazém cuja força laboral era constituída essencialmente por mulheres e o destino da sua exportação era a Itália. Giuseppe Cocco caracteriza a indústria de então como perfeitamente artesanal.

Deste modo, a aplicação de pequenos capitais, frequentemente, dando origem a sociedades permitiu o proliferar da indústria. Alguns soldadores em sociedade conseguiram mesmo algum pecúlio que os possibilitou a abrirem algumas unidades. Em 1889, «alguns soldadores e trabalhadores dos estabelecimentos (de industriais franceses), já com a prática de alguns anos da indústria e dispondo de algum capital e crédito começaram a associar-se para a montagem de pequenas fábricas de conservas em azeite, onde se preparavam muitas encomendas pedidas principalmente pelo mercado de Londres» [153].

Em Olhão, segundo, Giuseppe Cocco, os capitais provinham quer da actividade piscatória, quer da actividade rural. Os soldadores aliavam a sua actividade fabril há posse de pequenas propriedades rústicas[154]. Salgadores, comerciantes e marítimos, em Olhão, e proprietários mais, pilotos, calafates e armadores, foram, alguns dos grupos sócio-profissionais que beneficiaram da conjuntura e da simplicidade do fabrico para criarem empresas de conserva[155].

[152] cf. Entevista a Giuseppe Cocco, realizada em Olhão, em 3/11/95
[153] João Simões Quintas Júnior, “Monografia sobre a indústria de conservas de peixe em Portugal”, B. da D.G.I, nº 5, Julho 1941, p. 385.
[154] cf. ainda Entrevista a Manuel Rodrigues Pereira, Olhão, 11/10/95
[155] cf. C. Cavaco, op. cit., p. 301.

Foi, ainda, durante o período de intensa exportação de conservas após o fim da I Guerra Mundial que iniciou a sua actividade, em 1 de Novembro de 1919, a Sociedade de Pescarias e Conservas, Limitada, com um capital social de vulto para a época de 200 contos. Empresa que dispunha de uma unidade de produção, em Olhão, e de uma armação de pesca. Os accionistas eram António Leite, doutor Adolfo Bravo, José Vinhas Reis e Pedro José dos Reis Viegas, respectivamente, com as quotas de 30, 10, 10 e 150 contos. A quota do sócio maioritário era representada pelos seguintes valores: um imóvel, composto de um chalet, fábrica de conservas, armazém, duas casas de residência, poço e nora e terreno adjacente. Ainda com 50 contos em dinheiro e 80 contos representados por maquinismos, ferramentas e mais utensílios existentes no referido imóvel, reputado em 20 contos, ficando, deste modo, integralmente realizada a sua quota[156].

A família Reis era, ainda, dirigente do jornal Gazeta de Olhão, pelo que não será estranho encontrarmos frequentes referências à actividade conserveira e piscatória. Infelizmente, como, alias, era comum na altura, com honrosas excepções, o periódico conheceu vida efémera, visto que a sua existência prolongar-se-ia por, apenas, quatro anos.

A fábrica Sardinha do Algarve, Lda., constituída, em Olhão, a 25/03/20, com um capital social de 15.000$00 por quotas, tinha por accionistas proprietários e três soldadores. Cada um entrou com uma quota de 1.000$00, embora inferior aos restantes, mas que mostram que esta aristocracia operária tinha conseguido amealhar algum pequeno capital. Os sócios soldadores teriam uma remuneração de 15$00 por semana de trabalho quer na sua própria profissão, quer em qualquer outro serviço[157].

Por sua vez, a Sociedade de Conservas «Madrugada», Lda., constituída, igualmente, em Olhão, a 27/3/20, com um capital social superior de 40.000$00, tinha uma maior diversificação profissional dos seus sócios. Entre eles figuravam proprietários, um farmacêutico, um «menor púbere», proprietário, um empregado comercial e um comerciante. Alguns dos seus sócios encontravam-se ligados por parentesco familiar, como mostram os seus apelidos[158].

Mais equitativa seria a distribuição das quotas pelos sócios da Empresa de Conservas Nereida, Lda., constituída, em 16 de Abril de 1921, com um capital social de 60 contos. A quota maior e a menor era, respectivamente, de 15 e 5 contos[159]. A acumulação de capital por esta empresa ter-lhe-á proporcionado uma substancial elevação do seu capital social, em 1934, para a enorme quantia de 700 contos.

[156] Gazeta de Olhão, nº 19, 8/8/20, p. 4.
[157] cf. Gazeta de Olhão, nº 3, 18/4/20, p. 3.
[158] cf. Gazeta de Olhão, nº1, 1/4/20, p. 3.
[159] Gazeta de Olhão, nº 56, 29/5/21, p. 4.

Outra importante empresa com sede em Olhão e uma sucursal em Porto Brandão foi a de Gio-Batta Trabuco, cuja origem remontava já a 1896, mas que a 7 de Agosto de 1921, formou uma sociedade por quotas com um capital social de 200 contos. Os sócios e respectiva quota eram: Gio-Batta Trabuco (140 contos), Angelo Semino (40 contos), Luigi Vaccheri (10 contos) e Juan Gomes Fernandes (10 contos). Os três primeiros certamente italianos, o quarto provavelmente espanhol ou de origem espanhola. A diferença económica do quarteto era por demais evidente. A quota de Gio-Batta Trabuco era representada por todos os maquinismos, ferramentas e utensílios e por uma parte das matérias-primas e produtos manufacturados existentes nas suas fábricas de Olhão e de Porto Brandão. Contudo, a outra parte restante das mesmas matérias-primas e produtos manufacturados nelas existentes ficariam a pertencer, de futuro, à sociedade agora constituída, pelo que Gio-Batta ficaria credor da sociedade pelo valor das referidas matérias-primas e produtos manufacturados, ficando este capital, de futuro, e enquanto não fosse pago, a vencer o juro anual de 6%. Os edifícios onde se encontravam instaladas ambas as unidades de produção não entrariam para a sociedade pelo que continuavam sendo propriedade do Gio-Batta Trabuco[160].

Salazar, no seu relatório sobre os centros conserveiros, então por ele visitados, em 1931, referia-se, precisamente ao desenvolvimento deste sector facilitado «pela simplicidade da técnica e pela barateza das instalações rudimentares, financiada com abundância e facilidade extrema nos bons tempos da inflação da moeda e do crédito, …»[161].

A mecanização, apenas contemplava algumas fases do processo de trabalho, nomeadamente as etapas de preparação das embalagens, da conserva ou fritura do peixe e esterilização do produto. O resto era essencialmente produção manual: «Rapazes e raparigas de pouca idade podem ser empregados em trabalhos subsidiários, leves e apropriados aos seus poucos anos»[162].

Um caso paradigmático de um grande «capitão da indústria» conserveira terá sido João A. Júdice Fialho (1859-1934). Filho de Francisco Abreu Fialho e Maria Francisca Júdice iniciou a sua actividade nocomércio, abastecendo, em anos de crise, a região do barlavento do Algarve, em produtos, tais como, petróleo, cabos, alcatrão e demais materiais para embarcações e pesca[163].

[161] Gazeta de Olhão, nº 73, 13/11/21, p. 3.
[162] O. Salazar, “Sobre a indústria das conservas de peixe”, Discursos e Notas Políticas (1943-1950), vol. IV, p.530.
[163] Ibid., p. 526.

Torna-se fabricante de vinho, e, em 1881, com J. Ferreira Neto, fundou uma fábrica de destilação de frutos do Algarve. Torna-se, depois, em armador e, finalmente, em 1891, era o início da actividade como grande industrial conserveiro com fábricas espalhadas por diversas localidades do continente e ilhas. Um dos seus barcos – o “Galgo” -, colocou-o «à disposição do governo (republicano)”, tendo sido “utilizado na fiscalização da costa do Algarve, no período da grande guerra. Contribuindo também com cabos, redes e pessoal para a defesa da barra de Lisboa» [164].

Se, em Olhão, e certamente em outras regiões do país, capitais da esfera fundiária foram investidos na indústria conserveira, o contrário também se produziu. Alguns dos mais importantes industriais de conservas possuíram directamente ou por ligações matrimoniais, grandes explorações agrícolas. Exemplos: a Casa Ramirez, no concelho de Vila Real de Santo António e em outros espalhados pelo país; Severo Ramos, Lda., no concelho de Olhão e a Casa Júdice Fialho, nos concelhos de Loulé, Faro, Olhão, Lagoa, Albufeira e Portimão, nomeadamente a “Quinta da Quarteira”, o “Morgado de Boina”, o “Morgado de Arge” e o “Morgado de Reguengo”, apenas para salientar as mais importantes compradas ao longo dos anos 20 [165].

Como já vimos, anteriormente, muitos dos produtos vindos das propriedades de Júdice Fialho eram empregues na indústria conserveira ou eram transformados industrialmente e vendidos quer no mercado interno quer no externo.

Provavelmente, e ao contrário, da esmagadora maioria dos industriais conserveiros, Júdice Fialho possuía uma grande cultura, era amante de livros e pintura e verdadeiro cosmopolita, pois conhecia Espanha, França, país da sua predilecção, Itália, Suíça, Alemanha, Áustria e Inglaterra[166].

Até ao ano da sua morte, Júdice Fialho gestionou pessoalmente, pormenorizadamente todo o seu imenso património. A análise do arquivo de Júdice Fialho, evidência uma meticulosa gestão de toda a sua actividade empresarial, não só sobre a indústria de conservas de peixe (correspondência com os agentes no estrangeiro, compra e venda de peixe, importação de matérias-primas, a tempo e a horas, exportação de conservas, análise da sua qualidade, etc.), como sobre a faceta de empresário agrícola.

Análise semelhante poderemos fazer em relação à gestão de Feu Hermanos, embora, neste caso, a sua actividade seja apenas circunscrita à pesca e às conservas.

[164] Joaquim António Nunes, op.cit., pp. 11-12.
[165] cf. J. Silva Martins, Estruturas Agrárias em Portugal Continental, vol. I, pp. 602-604.
[166] cf. Joaquim António Nunes, op. cit., pp. 16-17.

 

5. O processo de trabalho

O fabrico das conservas de peixe, resumidamente, realiza-se através das seguintes fases: inicialmente faz-se o “vazio”, ou seja, a lata de conserva propriamente dita, mantendo uma das faces aberta, por onde será introduzido o peixe. Este, depois de transportado da lota para a fábrica, é nesta descabeçado e limpo, colocado numas grelhas para ser ou cozido pelo vapor, ou passado em azeite fervente. Acondicionado na lata, a qual é cheia de azeite, é esterilizada numa autoclave a uma temperatura de 120o para, finalmente, por intermédio de uma cravadeira, ser fechada. O processo de trabalho requer, assim, pouca especialização técnica do trabalho.

O reduzido grau de mecanização e de especialização inicial das primeiras unidades fabris, ainda, talvez, ao nível da manufactura, consequentemente com investimentos reduzidos, favoreceu a fundação de algumas por antigos soldadores. Estes operários especializados eram «homens dos arrabaldes que tinham o seu bocadinho de terra que hipotecavam para arranjar um pequeno capital para um princípio de laboração ou servia-lhes de aval para um empréstimo bancário»[167]. Desprezaram o mercado interno, dependeram essencialmente do preço do comprador estrangeiro, ficando à mercê da flutuação do mercado e dos momentos de crise internacional propícios ao aumento da exportação. A cultura e a mentalidade de muitos dos seus “capitães de indústria”, o carácter rudimentar do seu apetrechamento técnico-organizativo e a dependência do apoio de Estado marcaram, ao longo da sua história esta indústria.

«Começaram como artesanato sazonal e assim viveram toda a vida. Foi uma indústria que nasceu falida e ruiu estrondosamente. Conseguiu viver umas dezenas de anos porque se viveu politicamente no nosso país em regime de força, senão já ela tinha dado a queda há muito tempo. E, mesmo assim, foi o regime de ditadura que deu ao operário uma «sopinha mal molhada em água»[168]. Os trabalhadores, nomeadamente as mulheres, não tinham fábrica garantida, trabalhavam em qualquer uma das existentes consoante a fartura de peixe e depois eram despedidas à sua falta: «A indicação de que a fábrica tal tinha peixe e precisava de pessoal para trabalhar, era o apito da sirene que se ouvia em toda a vila e até no campo.

Às vezes havia fábricas que levavam o dia em toda a vila a apitar» [169].

As condições durante o processo de trabalho eram das mais degradantes. Fábricas exíguas: «Vi fábricas (?) nos mais díspares edifícios. Vi uma, a fábrica dos Cagados, num edifício pequeno de habitação, constituído por quatro divisões, …». Ausência das mais elementares medidas de segurança. A referida fábrica trabalhava o vazio «numa sala do 1º andar, onde numa bancada, 4 soldadores soldavam as latas, junto ao gasómetro que produzia o acetileno que alimentava os ferros de soldar, com todo o perigo  que dali advinha, desde a explosão do gasómetro pela sua proximidade da fonte de acetileno (um metro) à chama que saía do ferro». Reinavam as piores condições de higiene e de salubridade: «até a saúde dos operários, que passavam 8 horas ou mais por dia, em dias consecutivos, num quarto de pouco mais de 12 metros quadrados e com uma janelinha pequena, a respirar acetileno e outros gases, estava em perigo»[170].

[167] José Barbosa, op. cit., p. 128.
[168] Ibid., p. 128.
[169] Ibid., p. 131.
[170] Ibid., p. 125.

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O descabeçamento do peixe «era feito de dia ou de noite num alpendre aberto por todos os lados, onde as operárias sofriam no Inverno o rigor do frio e do vento, …»[171]. Os menores comungavam do trajecto de vida e de trabalho dos pais, visto que «acompanhavam as mães nas fábricas e não podia deixar de ser, visto que o pai, tendo ido para o mar, e a mãe no trabalho, a criança, não podia ficar sozinha em casa, às vezes mais de 12 horas.

Muitos foram criados em caixotes a servir-lhes de berço»[172]. As creches permitidas, em troca da isenção de uma taxa para o Socorro Social, mantiveram-se praticamente fechadas.

A acumulação realizava-se, consequentemente, pela extorsão de mais-valia absoluta que caracterizava o processo de trabalho nas fábricas de conservas de peixe, com base em salários baixíssimos e longas jornadas de trabalho que se prolongavam até altas horas da noite, essencialmente no período de mais intensa actividade que correspondia à época da sardinha de Verão. Força de trabalho estruturada numa elevada taxa de feminização e também em alguns menores: «antes dos dez anos, fui trabalhar com a minha mãe para a fábrica. Eu era muito pequena e não chegava à bancada; subia para um caixote e começava a tirar a cabeça às sardinhas. Ganhava três tostões por hora e as mulheres ganhavam seis e isto, por vezes, durante dez ou doze horas seguidas, sem deixar a fábrica, comendo-se ali à pressa qualquer coisa» [173].

As infraestruturas industriais das fábricas de conserva na sua alvorada eram «muito deficientes, constituídas por grandes barracões de madeira cobertas de zinco, constituídas no interior de grandes quintais, onde se praticavam todas as operações do fabrico com o maior cuidado e esmero que era possível obter de fabricantes com a mentalidade daqueles tempos, de pequena preparação intelectual, de condições financeiras precárias, em concorrência com os produtos das fábricas francesas»[174]. Estas instalações, contudo, não obstaram, talvez tenham mesmo contribuído, para a acumulação de capital, como, por exemplo, na “Fábrica do Chafariz”, em Lagos, que nos principais anos de laboração atingiu um dividendo de 800$00 por cada acção de 100$00[175].

[171] J. Villares, Olhão e Abílio Gouveia…, p. 44.
[172] Id., Ibid., pp. 125-126.
[173] Maria Amélia, cit in João Villares, A Vida em Olhão no Tempo do Padre Delgado, p. 95.
[174] João Simões Quintas Júnior, art. cit., op. cit., p.  386.
[175] Ibid., p. 386.

 

5. Considerações finais sobre a evolução da indústria de conservas

Tracemos, finalmente, as grandes linhas de evolução da indústria de conservas durante este período. Para o processo histórico da Revolução Industrial, em Portugal, ou seja, para o desenvolvimento e implantação do modo de produção capitalista, pese, embora, o seu lento e tardio despontar, em relação a outros países europeus, a indústria de conservas desempenhou papel nada negligenciável.

Entre 1884 e 1896, o crescimento do número de fábricas, cifrou-se em 322%, enquanto, entre 1912 e 1925, aquele aumento chegou a atingir 245%.

Apesar deste desenvolvimento a produtividade para os anos de 1890 e 1891 era fracamente baixa se comparada com as indústrias congéneres da Grã-bretanha e da França.

Cerca de 1910, a indústria de conservas de peixe ocupava o terceiro lugar na escala de importância da indústria nacional, quer em número de trabalhadores, quer em produtividade e representava 4,7% das exportações portuguesas.

Implementaram-se as relações capitalistas de produção. O número de operários, para os anos em que dispomos de elementos, utilizando-os com as devidas cautelas que nos permitem as estatísticas da época, entre 1890 e 1917 cresceu cerca de 584%, atingindo em anos posteriores maiores efectivos, nomeadamente, em 1934, cujo cômputo se pode fixar em mais de 22.000.

O ritmo de desenvolvimento da indústria de conservas no Algarve foi igualmente muito significativo posicionando-se até ao período da I Guerra Mundial como uma das regiões mais florescentes no que concerne a esta indústria e mesmo com um grau de industrialização bastante relevante, apenas ultrapassado por Setúbal.

A cortiça, o cobre, as conservas de sardinha e o vinho, desde a segunda metade do século XIX até 1913, irão permitir um aumento da «contribuição das alfândegas do Sul no total das exportações portuguesas, impulsionando a actividade dos portos secundários, em especial os do Algarve e o de Setúbal»[176].

Em 1917, a região algarvia dispunha de 42,5% do número de fábricas e de 53,6% do número de operários do total nacional, ou seja, com um relativamente elevado grau de concentração industrial.

A afirmação das conservas de peixe nacionais nos mercados internacionais mostrou-se inquestionavelmente fulgurante. No espaço temporal balizado pelas décadas de 1875/84 a 1890/99, as conservas posicionarem-se no segundo lugar no conjunto dos produtos que mais contribuíram para o crescimento do valor total das exportações portuguesas. A posição cimeira foi mesmo alcançada no período 1895/1904 a 1905/14, se exceptuarmos a rubrica de «outros produtos»[177].

[176] David Justino, A Formação do Espaço Económico Nacional. Portugal 1810-1913, vol. II, 1989, p. 154.[177] Ver Pedro Lains, “Exportações portuguesas 1850-1913: a tese da dependência revisitada”, Análise Social, vol. XXII, nº 91 1986-2º, Quadro nº5, p. 396.

 

 

Em 1905-1914, as conservas de peixe estão atrás do vinho do Porto (17,8% da exportação total), do vinho comum (14,7%), da cortiça (9,4%) e de outros animais (9,0).

Nos últimos vinte e cinco anos do século XIX um núcleo restrito de produtos nacionais contribuíram decididamente para o aumento das exportações portuguesas. Com início na década de 1870/80, – segundo Pedro Lains – «os produtos que passam a determinar o crescimento das exportações foram a cortiça em bruto e em obra (aqui a tendência ascendente começou antes de 1870), o peixe em conserva, o azeite (…), o vinho da Madeira, os têxteis em obra e, sobretudo, outros produtos …, como as madeiras e animais vivos (não bovinos)»[178].

Consideremos, agora, alguns factores que determinaram a economia da indústria de conservas. Certamente que um dos principais e específicos terá sido a localização e concentração geográfica das fábricas, obviamente, nas proximidades do mar, acompanhando de perto a afluência da sardinha. A predilecção da «clupea pilchardus» por determinada região, de grande variabilidade anual, aliás, ligado a factores climáticos, marinhos, etc., de grande complexidade, ainda hoje não completamente explicados cientificamente, influenciou a instalação e distribuição de fábricas, conduzindo, por vezes, à sua transferência para locais onde a afluência de peixe parecia ocorrer.

Outro factor intimamente ligado ao anterior encontrava-se no necessário acesso, fácil e rápido, à lota, consequentemente, em localidades piscatórias com relativos bons portos de pesca – o que, aliás, não se verificava nestas épocas, com raríssimas excepções, na costa do Algarve – e, também, com alguma acessibilidade de embarque do produto, situação que igualmente não ocorria.

[178] P. Lains, art. cit., op. cit., p.394 e Quadro nº 4, p. 395.

Como observámos, em páginas anteriores, à excepção da principal matéria-prima, as de índole secundária, eram essencialmente de importação. Matérias-primas secundárias cuja aquisição – beneficiada durante longos anos pelo regime de drawback, – seria, globalmente, a preços suportáveis pela indústria em termos de concorrência final do produto nos mercados externos.

A crescente importação de matérias-primas, no caso em apreço, a folha de Flandres, o estanho, o chumbo, e outros produtos, foi, sem dúvida, sinal do desenvolvimento das forças produtivas conserveiras.

Contudo, esta dependência, quase diríamos estrutural, do estrangeiro destes produtos manifesta um relativo fraco desenvolvimento da indústria em Portugal, e, quando esses produtos existiam caracterizavam-se pela sua fraca qualidade, como era exemplo o azeite nacional, frequentemente preterido pelo congénere externo.

O recrutamento de trabalhadores foi aspecto de importância considerável. A divisão de trabalho nas fábricas de conservas, ao longo deste período, foi paulatinamente alargando-se à medida que se introduzia a mecanização do sector, principalmente em empresas de maior peso económico. Em finais de 1908, «haveria no máximo dois ou três estabelecimentos com solda automática. Em Portimão, os de Júdice Fialho. Em Setúbal, só a Fábrica Delpeut (Ferdinand Garrec) se achava automatizada, entre as quarenta e sete em laboração», em 1910[179]. Nos seus primórdios, para algumas tarefas mais especializadas foram mesmo recrutados operários estrangeiros.

O trabalho de produção de conservas, contudo, tinha claras características artesanais, predominando o capital variável sobre o capital fixo. Aquele manifestando-se, essencialmente, por elevadas taxas de feminização. Mulheres que na maioria dos casos efectuavam trabalhos não especializados, ao contrário dos operários sobre os quais recaíam tarefas mais complexas, mais pesadas e mais perigosas, veja-se como exemplo os soldadores, ao longo do processo de produção.

As taxas de analfabetismo – tendo presente os poucos elementos disponíveis – eram entre os operários conserveiros, em particular, e entre os operários, em geral, bastante elevadas.

[179] Carlos da Fonseca, História do Movimento Operário e das Ideias Socialistas em Portugal. IV-Greves e Agitações Operárias, 1ª parte, p. 117.

Dos elementos anteriormente coligidos comprova-se as longas jornadas de trabalho que alcançavam e ultrapassavam as doze horas diárias, o trabalho nocturno e o emprego de menores, cujo maior número era igualmente pertença do sexo feminino.

O recrutamento dos trabalhadores era com base na localidade onde estivesse implantada a fábrica e de aldeias e lugares circunvizinhos de molde a facilitar o transporte, numa época, aliás, que não primava pela sua expansão.

O aumento demográfico e, certamente, com alguma probabilidade, o paulatino desaparecimento de relações, diríamos, pré-capitalistas, libertava considerável braços de trabalho para a indústria conserveira.

São escassos elementos disponíveis para avaliarmos a evolução do salário do operário do sector durante esta época. Se entrarmos, porém, em linha de conta com algumas greves que eclodiram nos princípios do século XX, precisamente tendo como motivo aumentos salariais, poderemos, concluir, provisoriamente, que o nível salarial auferido seria muito baixo, com excepção de algumas categorias, designadamente os soldadores cuja «qualificação e os altos salários» os transformaram «numa élite profissional, orgulhosa e distante dos salgadores, dos abridores de peixe, dos lavadores…, tarefas geralmente confiadas a mulheres»[180]. Salários que seriam, porventura, para os soldadores não muito diferentes do que os pagos aos seus camaradas de Setúbal[181].

Se aos factos antes mencionados, associarmos a falta de assistência médica e de bairros operários, teremos um quadro impressivo nada lisonjeiro da situação de vida e de trabalho dos trabalhadores conserveiros do Algarve, neste princípio do «Século do Povo».

A conjugação de todos estes factores acabados de analisar conduz-nos a considerar que, à semelhança da indústria portuguesa, em geral, o ritmo de acumulação de capital neste sector foi relativamente intensa.

[180] Carlos da Fonseca, História do Movimento Operário e das Ideias Socialistas em Portugal. IV-Greves e Agitações Operárias, 1ª parte, p. 117.
[181] cf. Vasco Pulido Valente, “Os conserveiros de Setúbal (1887-1901)”, Análise Social, vol XVII (67-68), 1981-3º-4º, pp. 664, 674 e 678.