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CARACTERIZAÇÃO GERAL DA EVOLUÇÃO HUMANA PENINSULA DE SETÚBAL


 

CARACTERIZAÇÃO GERAL DA EVOLUÇÃO HUMANA PENINSULA DE SETÚBAL

ARQUITECTURAS DO MAR

PTDC/AUR-AQI/113587/2009

Equipa

José Duarte Centeno Gorjão, Jorge, Jorge Manuel Tavares Ribeiro, Maria Manuela Cordes Cabêdo Sanches Raposo Magalhães, Henrique José Figueiredo Garcia Pereira, Manuel João Mendes Da Silva Ramos, Maria Da Graça Xavier Da Fonseca E Costa Bachmann, Maria Da Graça Dos Santos, Antunes Moreira, Jorge Luís Firmino Nunes, Pedro Miguel Ramos Arsénio, Aline Gallasch Hall, Cristina Alexandra Tété Garcia, Carlos Jorge Henriques Ferreira, Isabel Maria Augusto De Sousa Rosa, Pedro Paulo Da Silva Marques De Abreu, Carlos Manuel De Almeida Figueiredo, Célia Joaquina Fernandes Faria, Carlos Jorge Branco Mendes, Maria Da Conceição Bidarra De Melo Trigueiros, Maria Filomena Da Silva Marques, Joana Raquel De Sousa Bastos Malheiro, João Nuno Da Silva Carrola Gomes, João Pedro Laranjeira Esteves

Participant Institutions

Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (FA-UTL)
Campo Arqueológico de Mértola (CAM)
Instituto Superior de Agronomia (ISA-UTL)
Instituto Superior Técnico (IST-UTL)
ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL)
Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design (CIAUD)

 

 

1. A região da Península de Setúbal. Uma visão geral

A Região da Península de Setúbal localiza-se na costa ocidental da Península Ibérica. É um

território de 1.421 km2 habitado por 712.000 pessoas. A Península de Setúbal, no contexto da

Área Metropolitana de Lisboa, afirmou-se na última década como a região do Continente de

maior crescimento populacional (9,8%) integrado no conjunto de concelhos que se caracterizam

por estruturas sócio económicas do tipo urbano – industrial. É definida geograficamente pela

fractura definida pelo traçado do esteiro que conduz a ribeira de Coina até ao Tejo. Esta área

contém distintos territórios como a zona de terras baixa e suave relevo a ocidente da Península e

zonas montanhosas muito marcadas como a Arrábida, na parte meridional. Há ainda áreas de

largas manchas arenosas preenchidas por pinhais.

Em termos históricos a geografia coincidia, sensivelmente com os concelhos medievais

de Almada (que englobava o território hoje pertencente ao Seixal e o chamado «país» de Azeitão

em Sesimbra) e o enclave de Coina, que contornava a confluência da ribeira homónima com um

profundo esteiro do Tejo.

O crescimento económico da Península de Setúbal e concretamente este concelho tem

assentado sobretudo na actividade industrial e nas potencialidades portuárias, sendo o Porto de

Setúbal é um dos principais portos nacionais. A favorável acessibilidade fluvial -marítima

conduziu à instalação de importantes unidades industriais de construção, reparação e de outras

unidades de metalomecânica pesada na zona costeira cujas produções são orientadas sobretudo

para o mercado externo.

A população empregada está dividida entre os sectores primário, secundário e terciário e

na Península de Setúbal a maior expressão vai para o sector terciário, enquanto que no sector

primário não chega a 8% a taxa de ocupação.

A Península de Setúbal tem a capacidade de alojamento declarada de 4.843 camas, e no

ano 2005 o total de dormidas foi de 540.169 pessoas (Instituo Nacional de Estatística, 2005). A

sua linha de costa e sobretudo a sua área de estuário, referente ao Rio Sado, constitui

historicamente uma frente de ligação comercial entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo.

A diversidade de recursos naturais relacionados com os meios estuarinos e marítimos

(Luís de Camões refere a “piscosa” Sesimbra”), a localização privilegiada do porto natural de

Setúbal e da sua baía, a navegabilidade e transitabilidade para o interior do território do Rio

Sado, a linha de costa aberta para o mar e a proximidade com o grande pólo de Lisboa

condicionaram o passado histórico da região. Esta ligação da região com diferentes culturas do

passado está patente por exemplo no estabelecimento de relações com feitorias fenícias e

cartaginesas, no intercâmbio com mercadores gregos e magrebinos, na inclusão no vasto império

romano, a islamização do território, a cristianização sob o papel catalisador das Ordens Militares

ou a grande empresa dos Descobrimentos que aqui encontrou um local ideal para lançar os seus

barcos e tripular os seus navios.

Durante os séculos XVII e XVIII, a Região da Península de Setúbal conhece uma expansão

demográfica, urbana, comercial para a qual contribuiu o sal de Setúbal e a inclusão da região nas

estratégias de centralização do poder régio que os monarcas (sobretudo no século XVII)

implementaram. As comunidades locais, desde cedo organizadas em estruturas semi-autónomas,

protegidas pela Ordem de Santiago, e apoiadas pelos monarcas, demonstram uma capacidade de

iniciativa para se estruturarem em pequenos negócios e empresas para explorar os seus recursos,

provocando mesmo rivalidades entre localidades vizinhas. Os recursos naturais, o sal e o peixe,

são explorados até à exaustão, taxados sucessivamente e constituem uma grande fonte de

riqueza, que chegará até aos anos 50 da nossa era, sobretudo através da indústria pesqueira e

conserveira, que surge com um grande vigor nos finais do século XIX e princípios do século XX,

substituindo o sal enquanto fundamento económico da região.

O percurso histórico da Península de Setúbal não é homogéneo. Encontramos no seu

território diferentes formas de interacção das populações com o seu meio ambiente. A área

costeira conheceu uma importante transformação a partir da década de 60 do século XX, com a

expansão da indústria turística. Aqui, nos últimos decénios verificou-se uma alteração

significativa da estrutura produtiva, com a redução da importância do sector primário para o

ramo da hotelaria, imobiliária e serviços. As actividades de relação com o meio natural foram

depreciadas em favor das novas formas económicas, mas mantiveram-se como estruturantes na

manutenção e propagação da identidade regional, actuando como catalisadores turísticos mas

perdendo a sua relevância enquanto actividade económica principal.

Esta expansão turística vem acompanhada de uma forte pressão urbanística sobretudo

nas zonas litorais. Estas pressões urbanísticas encontram nas escarpas da serra da Arrábida um

elemento condicionante para os seus processos de expansão (quer por questões relacionadas

com a fisiologia do espaço, quer por questões de protecção legal) mas que encontra em zonas

como Sesimbra ou na península de Tróia uma possibilidade de existência. As zonas de interior

mantêm uma actividade económica considerável, potenciada pela proximidade com Lisboa e pela

facilidade de vias de comunicação, e constituem-se como zonas de atracão para as populações

urbanas. A agricultura continua a ter uma forte expressão sobretudo através da cultura do vinho.

No caso da grande Setúbal é onde é mais notória uma relação fragmentária e desprovida de base

estrutural entre as comunidades e o seu território o que levou a uma redução de qualidade de

vida das populações locais e degradou a qualidade ambiental. Em termos gerais verificou-se uma

polarização da economia nas actividades turísticas e no mercado imobiliário e o declínio da

actividade agrícola e piscatória.

Relativamente aos investimentos financeiros exteriores, e a sua intervenção na evolução

e desenvolvimento económico regional há que ter em atenção a necessidade dos mesmos serem

enquadrados pelas políticas regionais. Sobre este aspecto diz o Parecer do Comité Económico e

Social Europeu sobre a Integração Regional e Desenvolvimento Sustentável “ (…) O investimento

directo estrangeiro pode ter um papel importante ao serviço do desenvolvimento económico, e na

redução da pobreza, graças à criação de empregos, que constitui um preâmbulo para o

desenvolvimento sustentável. (…) Segundo vários estudos, é verosímil que em muitos casos, tais

investimentos produzirão, a longo prazo, efeitos prejudiciais tanto para o desenvolvimento

sustentável como para a integração regional. Tal verifica-se se os postos de trabalho criados não

assentarem numa produção de bens e serviços baseada por sua vez numa estratégia integrada

que tenha também em conta os três pilares do desenvolvimento sustentável (desenvolvimento

económico, conformidade com o ambiente e justiça social). Por outras palavras, embora o custo

do trabalho ajude as empresas a serem economicamente sadias, não é tão evidente que essas

empresas sejam responsáveis no plano do ambiente, e no plano social” (Parecer do Comité

Económico e Social Europeu nº 2004/C 241/12 de 2 de Junho).

Assim, as estratégias de desenvolvimento económico adoptadas baseado apenas uma, ou

duas variante produtiva (industria e turismo) e sem enquadramento local resultaram numa

região que se destaca por um crescimento desmesurado e desordenado dos núcleos urbanos e a

quase estagnação dos tradicionais processos produtivos ligado ao sector primário, quer na

agricultura, quer no mar. Em causa são colocadas as referências culturais e territoriais das

populações, o que leva a uma perda da sua qualidade de vida. (ver dados de crescimento

demográfico).

Qual a situação actual e estado de conservação dos recursos naturais e culturais da

região da Península de Setúbal? Encontramos duas Áreas Protegidas com estatuto legal de

protecção, o Parque Natural da Serra da Arrábida e a Reserva Natural do Estuário do Sado. Há

ainda três Monumentos Naturais classificados, o Monumento Natural da Pedra da Mua, o

Monumento da Pedreira do Avelino e dos Lagosteiros, todos inseridos no Parque Natural da

Arrábida. Foram classificados em 1997, e apresentam como características as pistas de pegadas

de sauropodes. Existem apenas 8 monumentos naturais classificados em Portugal, sendo que três

deles localizam-se na área de Sesimbra, representando quase metade de todos os monumentos

naturais classificados em Portugal. Os mecanismos do progresso e a pressão causada pela

proximidade da área da Grande Lisboa, poderão ser factores de ameaça para a manutenção da

integridade destes monumentos. Os agentes destes mecanismos são sobretudo a cumplicidade

entre a administração local, central e os investidores privados.

Actualmente, a pesca continua a ser uma actividade importante do sector primário,

sobretudo na região de Sesimbra, associada a uma pesca artesanal local, sobretudo costeira e de

cerco. As principais espécies descarregadas em Sesimbra e Setúbal são sardinha, cavala e

carapau. As embarcações de Setúbal por apresentarem características diferentes (mais pequenas,

operam a menores profundidades e em zonas mais próximas da costa) têm uma pesca também

diferente. Tradicionalmente, as embarcações da frota artesanal local utilizam vários tipos de

artes, diversidade associada à natureza e comportamento dos recursos, tipo de materiais

utilizados e engenho e arte de cada pescador. As principais artes são as redes de emalhar

fundeadas, as armadilhas, os aparelhos de anzol, os arrastos de vara, as redes cercadoras, as

xávegas, as redes de arrasto pelágico e as redes de arrasto de fundo. As frotas pesqueiras, quer

em Setúbal, quer em Sesimbra têm vindo a diminuir rapidamente, contrastando com

investimentos cada vez mais avultados em obras de intervenção de requalificação de frente

marítimas, mas que não são feitas na perspectiva da economia do mar. Em Sesimbra o núcleo

duro da frota, os barcos da pesca de aparelho longínqua, enfrentam a opção de serem abatidos

ou transformados para tecnologias sem futuro e que rompem com a tradicional cultura da pesca

do aparelho. Esta situação constitui uma ameaça à vida socioeconómica de Sesimbra devido aos

acordos de pesca e as negociações relativamente às quotas do pescado, sobretudo com

Marrocos, onde os escassos barcos portugueses foi “englobada” com a frota espanhola.

A população agrícola na região regista 15.033 indivíduos, correspondentes a 14,9% da

população residente. As explorações agrícolas ascendem às 5.936, com uma superfície de 76.460

hectares, destes, 56.106 hectares constituem a superfície agrícola utilizada. Desde o final da

década de 80 que a região tem conhecido uma redução no n.º de explorações agrícolas, mas a

superfície agrícola cultivada aumentou, o que demonstra a existência das grandes propriedades,

muitas vezes em regime de monoculturas (vinho ou citrinos). Podemos considerar que o padrão

histórico – económico de vida na Península de Setúbal tem vindo a afastar-se da actividade

agrícola, uma vez que os pequenos e médios proprietários desaparecem.

Da superfície agrícola total da Península, a grande fatia (73,4%) é dedicada às produções

agrícolas sendo a restante área ocupada por matas e florestas. As produções agrícolas mais

significativas são os citrinos representando 57% da produção, seguida da vinha. É com este

produto que a região tem granjeado notoriedade nos mercados nacionais e internacionais. Já no

século XX entra em grande expansão a monocultura do arroz, confinada geograficamente à

região da Península de Tróia.

O Plano Estratégica de Desenvolvimento da Península de Setúbal preconiza num dos seus

eixos programáticos o retorno à ruralidade “ (…) articulação do meio rústico com o meio urbano,

procurando atingir um desenvolvimento ambientalmente sustentável, a promoção de um

adequado uso do solo, especificando os parâmetros urbanísticos que devem ser aplicados no

espaço rústico e também a promoção da imagem de marca e denominação de

origem dos produtos da Península de Setúbal.” (Plano Estratégico para o Desenvolvimento da

Península de Setúbal, 2004, consultado em http://pedepes.amrs.pt/historia.html). O mesmo

plano preconiza a criação de uma rede de Gestão Integrada dos Espaços Naturais, considerando

esta uma medida essencial para “ (…) envolver os agentes económicos locais, públicos e privados,

incentivando-os à manutenção, gestão e renovação destes espaços. É igualmente um

instrumento fundamental para o sucesso de uma gestão integrada do património natural da

Península, de forma a promover e a compatibilizar os usos múltiplos (…)” (PEDEPES, 2001,

consultado em http://pedepes.amrs.pt/historia.html).

 

2. Património Cultural Imóvel

O inventário do património arqueológico do distrito de Setúbal conheceu um grande

dinamismo na década de 80 que veio a culminar com a publicação dos Subsídios para uma carta

arqueológica do Distrito de Setúbal em 1993. Este trabalho, organizado por Carlos Jorge Ferreira,

Carlos Tavares da Silva, Fernando Severino Lourenço e Paula Sousa constitui uma base de

referência relativamente ao património arqueológico. Devido à antiguidade deste trabalho,

haveria que reconsiderar uma actualização do mesmo à luz dos novos critérios de gestão de

património, tornando este documento num efectivo instrumento de gestão patrimonial.

Os Planos Directores Municipais em vigor não fazem uma actualização da informação,

agindo mais como colectâneas de bibliografia que dispensaram, na maior parte dos casos, a

actualização de conhecimentos no terreno. Continuam a faltar investimentos para a protecção do

património arqueológico, que do ponto de vista da sua recuperação e aproveitamento turístico,

apresenta uma situação de quase abandono, estando votados ao esquecimento muitos locais

arqueológicos. Apesar de existirem alguns exemplos de levantamentos patrimoniais, como por

exemplo a Carta Arqueológica de Sesimbra (Serrão, 1994) em revisão actualmente, o

Levantamento do Património Arqueológico da Freguesia da Marateca (Marques, 1985), a Carta

Arqueológica de Palmela (2007), o recente projecto de Carta Arqueológica da Arrábida – Setúbal

(2010) e o inventário das grutas da Arrábida promovido pelo Núcleo de Espeleologia da Costa

Azul só muito recentemente se assume o património arqueológico como um recurso

fundamental na gestão articulada do ordenamento do território e no desenvolvimento

sustentado da região, um valor que importa salvaguardar, divulgar e disponibilizar à sociedade e

um contributo indispensável para o entendimento da construção da identidade cultural de uma

região.

Apesar desta premissa verifica-se ainda um grande desconhecimento sobre os valores

patrimoniais, o que resulta em destruições dos mesmos. A maior parte das intervenções

arqueológicas são efectuadas em situação de emergência, sem continuidade de projectos de

investigação. Realça-se também a diversidade de vestígios subaquáticos situados na envolvente

marítima da região, que já mereceu a criação de um Parque Arqueológico Subaquático (Parque

Arqueológico Subaquático de Sesimbra) mas cujo desenvolvimento carece ainda de impulso e

divulgação. A intervenção do capital privado no Património Histórico faz-se por via do seu

aproveitamento turístico ou imobiliário, como o caso da Pousada de São Filipe ou do

empreendimento de Tróia. Também a exploração da Herdade da Comporta, quer a nível turístico,

imobiliário e agrícola é feita por particulares. Muitos elementos patrimoniais presentes na região

de Setúbal pertencem a privados, como por exemplo as quintas do eixo Palmela-Azeitão, que as

aproveitam individualmente para turismo (Bacalhoa, Quinta das Torres) mas não se conhece um

sistema de articulação regional de promoção do Património Cultural.

Sesimbra e Setúbal apresentam um centro histórico, mas apenas Setúbal apresenta uma

política concertada de salvaguarda e valorização do mesmo. O Plano Municipal de Intervenção no

Centro Histórico de Setúbal está em vigor desde 2009 e tem como objectivos proteger os valores

culturais do património e o ambiente envolvente e garantir a segurança da população. Existem 9

edifícios classificados como Monumento Nacional, em Setúbal e Sesimbra, 9 imóveis de Interesse

Municipal e 20 Imóveis de Interesse Público, nas zonas correspondentes aos actuais concelhos de

Sesimbra e Setúbal. Na Península de Tróia apenas as ruínas romanas estão classificadas, como

Monumento Nacional.O Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, da

responsabilidade da antiga Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e agora da

competência do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana, inventaria 211 elementos

patrimoniais na nos concelhos de Sesimbra e Setúbal (145 em Setúbal e 66 em Sesimbra). A

região dispõe de 9 estruturas museológicas, 6 em Setúbal e 3 em Sesimbra, sendo de destacar

aqui o Museu do Mar. O IGESPAR, instituto da tutela do Património não possui qualquer serviço

dependente na região.

A arquitectura tradicional da região que se caracteriza pela simplicidade das formas e

pelo recurso aos materiais de construção locais e pela integração na paisagem tem vindo a sofrer

alterações profundas, provocadas pelo desenvolvimento industrial, crescimento da população

activa e afastamento das actividades económicas tradicionais, progresso da urbanização e

introdução de novos materiais de construção. Ainda subsistem, apesar do crescimento de alguns

aglomerados, alguns tipos de construção sobretudo nas zonas mais rurais ou nos litorais

estuarinos, mas que não representam já o modo de relação das populações com a sua

envolvente ambiental, mas um elemento acessório e algo anacrónico. Finalmente, a paisagem

cultural que durante séculos dominou uma boa parte desta região, os “jardins de sal”, meandros

e labirintos de taludes e pequenos muros que definem um padrão geométrico na paisagem,

estão hoje quase desaparecidos, por abandono e reconversão para outros usos. As poucas salinas

em funcionamento alteraram o seu traçado e os seus processos, afastando-se dos métodos

tradicionais que historicamente asseguraram a produção de um sal de qualidade superior e o

fundamento económico da região.

A aposta no turismo tem sido um factor fundamental, nos últimos anos na região. O

Plano Estratégico para o Desenvolvimento da Península de Setúbal, apresentado em 2004, define

o turismo como um dos seus programas fundamentais, valorizando o espaço náutico e a tradição

pesqueira, o turismo de habitação, o turismo ambiental e cultural e a criação de uma simbiose

entre o habitante local e o turista, sempre em presença do binómio sol-praia. As propostas são

ainda demasiado recentes para delas se fazer uma avaliação critica, não havendo ainda

capacidade de avaliar se foram já cumpridos os propósitos de alargamento da gama de

equipamentos, serviços e formas de lazer com a preservação dos seus recursos naturais,

qualificação dos recursos humanos, estimulação da criatividade. Apenas no desenvolvimento da

iniciativa privado podemos verificar a existência de dois grandes empreendimentos: Tróia e

Herdade da Comporta, não isentos de muita discussão sobre a sua implementação e à das

incidências no tecido social da região e no equilíbrio ambiental.

Acresce ainda que na região prepara-se uma candidatura a Património da Humanidade, a

do Parque Natural da Arrábida, a apresentar em 2012 assente nos valores excepcionais presentes

na Arrábida e na sua forte identidade paisagística.

 

3. Os testemunhos arqueológicos desde a Pré-História ao Período Romano

3.1.Paleolítico

A pouca investigação existente do distrito condiciona o conhecimento que temos da

ocupação da pré-história antiga do Distrito de Setúbal. O que até agora foi possível investigar

leva-nos a remontar a mais antiga ocupação humana no Distrito de Setúbal ao Paleolítico Inferior,

possivelmente ao pré-acheulense, como testemunha o conglomerado de Belverde, que ocorre

entre o estuário do Tejo e o sopé da cordilheira da Arrábida (Santa Marta de Corroios, Quinta do

Peru, Quinta dos Arcos e Basteza da Mó). Pode caracteriza-se esta ocupação por uma indústria

lítica muito simples sobre uma base de seixos rolados e achatados, geralmente de quartzito, nos

quais são talhados gumes através da extracção de lascas por percussão directa, em uma das faces

do seixo e mais raramente em ambas. Estes artefactos correspondem a uma cronologia de um

milhão e duzentos mil anos, ocorrendo em contextos de praias antigas.

Já durante o período Acheulense os testemunhos são mais precisos, com a existência de

vários elementos genericamente enquadráveis no contexto industrial desta época, que ocorrem

nos terraços do Tejo e nas praias levantadas da costa sul da Península de Setúbal (concelho de

Sesimbra) e no litoral sul de Sines.

Também o Paleolítico Médio está bem representado nos terraços do Tejo e nas praias levantadas

do litoral através de indústrias enquadráveis no Mustierense. As jazidas mais significativas deste

período têm sido as da gruta da Figueira Brava.

 

3.2.Epipaleolítico e Mesolítico

O final da última glaciação, Würm, trouxe consigo importantes alterações climáticas que

levaram a modificações nos ecossistemas de subsistência das comunidades humanas, em toda a

zona da Europa central e Europa do Sul, incluindo Portugal.

Terá sido o período em que aumenta a importância das actividades de recolecção e

pesca.

Embora o Epipaleolítico seja mal conhecido no distrito existem alguns locais que

forneceram indústria de tradição languedocense (artefactos macrolíticas de quartzito ou

grauvaque com talhe subvertical e remontante): margem sul do estuário do Tejo e litoral

ocidental da península da Arrábida e litoral a sul de Sines.

O mesolítico está bem representado no distrito de Setúbal, sobretudo no vale do Sado e na costa

sul de Sines. Durante este período, o vale do Sado, devido à transgressão flandriana, era um

enorme estuário que passava Alcácer do Sal. A riqueza deste ecossistema permitiu o

florescimento de numerosos povoados baseados numa economia sazonal de recolecção de

marisco, pesca e caça (sobretudo de veado e javali, a julgar pelos achados faunísticos em algumas

estações arqueológicas). Estas ocupações, ou povoados, são conhecidos como concheiros, assim

chamados devido ao elevado n.º de conchas de moluscos que neles foram encontradas.

Estabelecem-se preferencialmente em zonas planas e baixas e ocorrem em grande número em

toda a zona do vale do Sado, incluindo as regiões da actual Península de Tróia (Carvalhal). Aliás,

em toda a zona que corresponde actualmente, à freguesia do Carvalhal, são conhecidas várias

estações arqueológicas cujo espólio indica uma ocupação no período mesolítico, muito

possivelmente relacionada com a exploração dos recursos marítimos, sobretudo a recolecção de

marisco.

 

3.3. Neolítico

A passagem do mesolítico para o neolítico terá acontecido, na região de Setúbal de uma

forma contínua e sem grandes rupturas. As comunidades do neolítico antigo terão desenvolvido

uma estratégia de subsistência baseada na exploração complementar e sazonal dos

ecossistemas: as actividades de caça, pesca e recolecção eram complementadas e enriquecido

pela prática de formas elementares de produção de alimentos, a agricultura.

Os povoados do neolítico mantêm um padrão de implantação no território dando

preferência a locais planos, arenosos, extensos e abertos, desprovidos de condições naturais de

defesa situados quer no litoral, junto da arriba, quer no interior, nas margens dos cursos de água.

A grande inovação na cultura material é o aparecimento da cerâmica. Os recipientes

cerâmicos apresentam formas muito simples (esferoidais ou ovóides) com uma decoração muito

abundante em que predomina a técnica incisa através de punção ou com o bordo serrilhado da

concha cardium (decoração cardial).

Na fase final do neolítico antigo, na 1ª metade do VI milénio, ter-se-á desenvolvido a

agricultura a par com a criação de gado. Esta nova estrutura produtiva deverá ter tido impacto

significativo nos modos de vida das populações do neolítico e terá potenciado novas formas de

organização das comunidades humanas. É possível obter informações sobre esta organização

através da leitura das necrópoles megalíticas que surgem durante o Neolítico Médio e que se

tornam as grandes referências do território, em oposição a povoados frágeis, de curta duração e

grande mobilidade.

Este megalitismo evolui de uma fase inicial (Marco Branco em Santiago do Cacém) com

túmulos de pequenas dimensões, de planta fechada rectangular ou ovalada para estruturas mais

complexas e regionalmente diversificadas, em que as sepulturas atingem maiores dimensões e de

um modo geral adquirem um corredor.

As manifestações megalíticas no distrito de Setúbal ocorrem em 5 grandes áreas: a

península da Arrábida (Palmela e Sesimbra), arredores do Torrão, a do Lousal – Grândola, Sines e

Santiago do Cacém.

No Neolítico Final ocorre uma das fases mais significativas da transformação pré-histórica

do território com um fenómeno a que se chamou a Revolução dos Produtos Secundários definido

essencialmente pela utilização da tracção animal, o aparecimento do carro e do arado. Estas

inovações tecnológicas vão permitir aumentar a produtividade e consequentemente gerar mais

produto económico. A agricultura passa a ser feita com recurso a arado, numa intenção de

sistematização da produção. A organização das comunidades complexifica-se e hierarquiza-se.

Surgem os primeiros povoados de altura espelhando necessidades defensivas.

Permanecem ainda outras formas de povoamento e de vivências durante o neolítico

médio e final. Por exemplo as comunidades que viviam da exploração dos recursos marinhos. Na

Comporta, ao longo dos 3 primeiros quartéis do V milénio, os pequenos grupos de mariscadores,

estabelecem-se nas extremidades de línguas de areia adjacentes a antigos esteiros, actualmente

colmatados e ocupados por arrozais. O local seria, ao contrário do que sucede hoje, francamente

influenciado pelo oceano; o Sado desaguaria entre a Comporta e Tróia. A actividade destas

comunidades reflecte-se no tipo de vestígios deixados, os concheiros.

Nesta zona identificam-se 3 fases de evolução durante o Neolítico: a 1ª fase (Pontal), com

uma reduzida ocorrência de cerâmica decorada; a 2ª fase (Barrosinha, Celeiro Velho, Possanco,

Malhada Alta e Sapalinho) onde se verifica um progressivo enraizamento local das populações

que começam a produzir cerâmica lisa e aumentam o âmbito da sua estratégia de subsistência

(de uma espécie de moluscos passam a outras espécies de moluscos e ainda outro tipo de fauna

como peixes e aves). Na 3º fase, já na passagem para o Calcolítico (Possanco) há novos perfis

cerâmicos.

 

3.4. Calcolítico

Os numerosos povoados existentes no distrito de Setúbal situam-se quase sem excepção

em locais elevados com boas condições naturais de defesa e que são complementadas por

estruturas fortificadas, muralhas e torres, como se verifica no Monte da Tumba (Alcácer do Sal).

Estão muitas vezes implantados nas proximidades das margens de ribeiras mais expressivas.

Durante o Calcolítico o grande investimento construtivo é feito nos povoados, ao invés do que

sucedia no neolítico, sobretudo final, em que a ênfase foi colocada na construção de estruturas

funerárias.

Na península da Arrábida está representado o chamado Calcolítico da Estremadura, que

se encontra sobretudo nos povoados da Serra de São Luís (Rotura e Pedrão). Muitos dos locais

sepulcrais do neolítico final continuam a ser utilizados durante o Calcolítico da Estremadura, nas

grutas naturais (Lapa do Fumo, Lapa do Bugio) e nas grutas artificiais (Quinta do Anjo).

Por outro lado, o Calcolítico do Sudoeste abrange Alcácer, Grândola, Santiago e Sines,

tendo os melhores exemplos no Monte da Tumba e no Torrão. Neste fácies do Calcolítico persiste

também a ocupação de necrópoles vindas do neolítico, mas assiste-se à construção de novos

espaços funerários, com estruturas de falsa cúpula mais leves e fáceis de erguer.

 

3.5. Idade do Bronze

O padrão de ocupação do território na zona do Distrito de Setúbal durante a Idade do

Bronze é uma continuação de ocupação das necrópoles do Calcolítico, quer as grutas naturais

(Lapas do Bugio e do Fumo) quer as grutas artificiais (Quinta do Anjo) ou os dólmenes

reutilizados. Também os povoados em altura com boas condições naturais de defesa

permanecem, mas surgem povoados abertos com escassas ou nulas condições naturais de defesa

(Miradouro dos Capuchos, Barrada do Grilo, Vale Vistoso). Esta coexistência pode indicar uma

nova estratégia de ocupação do território reflexo de um início de formas de organização estatal.

As ocupações da Idade do Bronze permitem perceber a existência de uma organização

social já com diferenciações e uma hierarquização do território com “lugares centrais” definidos

pelos povoados de altura e de condições naturais e construídas de defensibilidade (Castelo dos

Mouros, Castelo Velho) e povoados secundários baixos e planos sem condições naturais de

defesa. Alguns autores fazem ainda corresponder esta estratégia de povoamento com uma

diferenciação social, fazendo corresponder os povoados de altura à classe dominante e os

povoados baixos aos seus protegidos.

As comunidades da Idade do Bronze, mais concretamente do Bronze Final, assentariam

grande parte da sua riqueza e do seu poder no controlo do comércio entre o Mediterrâneo e o

Norte da Europa, como testemunham os achados da Roça do Casal do Meio (fíbula de cariz

mediterrânico) e os achados de Alfarim (peças de bronze – machados de alvado com anéis

laterais) e Pedreiras (foice e machado de alvado com anéis laterais em bronze).

É no sul do distrito de Setúbal que se encontram os melhores testemunhos do Bronze

Final, a que se chama de Bronze do Sudoeste, cultura que se terá desenvolvido no sudoeste

peninsular na 2ª metade do IV milénio B.P. Os povoados, em áreas planas, baixas, abertas e

extensas eram formados por cabanas de planta rectangular, confinando os habitats com as

respectivas necrópoles de sepulturas tipo cista, em geral individual, integradas em recintos

tumulares que configuram uma forma de favo.

 

3.6. Idade do Ferro

A Idade do Ferro no distrito de Setúbal é marcada pelas influências orientalizantes que

são trazidas pelos navegadores fenícios ocidentais. Em Setúbal e Alcácer do Sal sobre os níveis

dos finais da Idade do Bronze vão-se formar níveis ricos em produtos orientalizantes, atribuíveis

ao século VII a.C.

Estes povoados indígenas, abertos ao comércio com os povos do mediterrâneo oriental,

localizam-se junto das desembocaduras e no fundo do estuário de uma das mais importantes vias

de penetração no interior alentejano de onde vinham os principais produtos que alimentavam

esse comércio – o rio Sado. Na margem direita do antigo estuário do Sado, está o sítio do Abul,

local onde os fenícios estabeleceram uma feitoria, a partir da qual desenvolviam os contactos

com as populações locais.

Também no estuário do Tejo a situação é semelhante.

Alguns destes estabelecimentos mantêm-se activos até à Época Romana revelando um

ambiente claramente mediterrânico.

A par deste horizonte cultural, o distrito de Setúbal mantém locais onde o Ferro

Continental ou celtizante está bem documentado, como é o caso de Chibanes, Miróbriga e Pedra

da Atalaia. São locais de cumeada onde se verifica a ocorrência de cerâmica que coloca esta

região numa vasta área cultural que abrangia o Alentejo e se prolongava pela Estremadura

espanhola.

 

3.7. Colonização Romana

Em meados do século I a.C. a instabilidade politica e social fazia-se sentir nesta zona. A

ocupação da Península pelos exércitos romanos não teria sido pacifica e testemunho disto é a

ocupação do povoado do Pedrão, na Serra de São Luís, instalado num patamar rochoso

defendido por altas escarpas, onde se verificou a existência de importantes vestígios atribuíveis a

esta época.

É só no século I d.C., a partir de Augusto, que se inicia uma efectiva colonização do

território, que na zona em estudo corresponde à fundação de Imperatória Salacia. Sob a sua

administração nasceu nas margens da desembocadura do Sado o mais importante centro

industrial de salga de peixe do ocidente peninsular e que corresponde nos dias de hoje, a Setúbal

e Tróia.

A cidade de Cetobriga era uma cidade binuclear, dividida entre o actual centro histórico

de Setúbal e Tróia. A produção de preparados piscícolas levava a outras industrias sobretudo a

salicultura e o fabrico de ânforas. Encontramos ao longo das margens do Sado, entre Setúbal e

Alcácer, numerosos vestígios destas produções.

No sul do distrito destaque para Miróbriga, Sines e Ilha do Pessegueiro. Sines poderia terse

sido o porto de mar de Miróbriga, e era também um centro produtor de preparados piscícolas.

A Ilha do Pessegueiro pode ser a ilha de Poetanion referida por Avieno na Ora Marítima. Este

local aproveitou as excelentes condições de fundeadouro e porto natural existentes no canal que

separa a ilha de terra para operar como entreposto comercial entre o séc. I e o séc. III a.C.,

recebendo produtos por via marítima e enviando para o interior alentejano de onde recebia

minério, que seria exportado através da ilha.

A decadência do Império Romano terá tido reflexos na zona de Setúbal, com a referência

ao eclipse da povoação existente no século V d.C.

 

3.8. Tardo-Romano

Nas fases conturbadas do baixo império, dos ataques dos povos bárbaros e no inicio da

ocupação islâmica a região terá conhecido um período de abrandamento das actividades

económicas, sobretudo das actividades pesqueiras e salineiras e das industrias da salga e de

conserva. Por exemplo, em Tróia, o florescente complexo industrial romano terá sido

abandonado cerca do século VI d.C.

As zonas de planície terão sido substituídas pelos sítios de cumeada e a subsistências das

populações assegurada pelas práticas agrícolas, pastoreio e alguma pesca. Na alcaria do Alto da

Queimada, ocupação localizada na crista da cordilheira da Arrábida, em local de cumeada, os

vestígios materiais demonstram alguma continuidade ocupacional entre o período tardo-romano

e o inicio da ocupação muçulmana do espaço, testemunho de instabilidade na zona. Aqui,

“(…)uma clara permanência nos séculos IV-V marca uma renovação da exploração do solo, sem

descurar a possível função de refúgio garantida pela localização do vicus, provavelmente

associado a uma pequena construção defensiva.” (Fernandes, 2011: 194). Poderemos estar

perante uma situação de interpenetração dos valores culturais em presença, num processo de

aculturação recíproca. Tal era proporcionado pela existência de condições naturais favoráveis

como solos de boa qualidade para agricultura, existência de abundantes fontes de águas e

condições propícias à pastorícia. O panorama da ocupação em período tardo-romano na região

apenas será mais claro com o avanço de trabalhos de investigação arqueológica.

 

 

4. Época islâmica

Embora a informação disponível sobre a ocupação islâmica da Península de Setúbal seja

ainda escassa, com identificação e escavação arqueológica de poucos sítios, há dados que

poderemos retirar de outras fontes como por exemplo a leitura dos geógrafos da Antiguidade ou

a análise da toponímia da região, ou ainda mesmo através da leitura dos registos já de época

cristã que descrevem uma região pouco mudada. Assim ressalta a importância estratégica e

económica da região dos estuários, e o carácter periférico de parte do território de Setúbal,

nomeadamente a finisterra sesimbrense. A Península de Setúbal era de grande importância para

a circulação económica e para o domínio político-militar do território circundante a Lisboa.

Constituía ainda o mais fácil acesso, por sul, à cidade de Lisboa.

Na zona da Arrábida, são comuns as referências toponímicas a uma ocupação islâmica.

No actual local que corresponde ao cabo Espichel, há um esforço de sacralização do espaço. O

historiador e geógrafo islâmico Ahmad al-Râzî1 refere-se à região, nomeando os montes dos

filhos de Banamocer, situados nos limites dos distritos de Beja e Lisboa. Para além da descrição

geográfica o cronista refere a dimensão espiritual do espaço, assim como a sua importância

estratégica e militar. Existiria um porto na Arrábida, pois o califa Almançor ali terá reunido uma

importante frota onde transportou diversos corpos de infantaria, os aprovisionamentos e armas

para a campanha na Galiza (Coelho, 2008: 37, 232). O nome de Arrábida deriva do árabe rábita2,

cuja origem ainda está por definir mas pode assentar na existência de uma mosteiro-fortaleza

islâmico. Tal proposta parece ser aumentada pela importância estratégica que tal estrutura

poderia assumir como ponto defensivo da costa, com funções de vigilância activa de linha de

costa, constantemente assoladas por piratas.

Também terá que ser assim enquadrada a existência da Azóia3 do Cabo Espichel que seria

uma pequena construção religiosa onde místicos islamistas viviam retirados do convívio com os

homens, dedicando-se à meditação, agregando discípulos e constituindo uma pequena célula

conventual, porventura em torno do túmulo de santo ou asceta merecedor da veneração das

gentes. Esta construção possui também funções de vigilância activa da costa dando sinal de

alarme à aproximação de forças hostis.

1 Ahmad ibn Muhammad al-Razi (888-955), também conhecido como o Mouro Rasis, foi um historiador muçulmano do Al-Andalus. Nascido em Córdova de uma família de mercadores, sabe-se que escreveu vários tratados sobre geografia e história do Al-Andalus durante o governo do califa Abderramão III. Nenhuma de suas obras sobreviveu até os nossos dias, mas sua História dos emires de Espanha (Akhbâr mulûk al-Andalus) foi traduzida para português no século XIV na corte senhorial dos Aboim-Portel, a mando do rei D. Dinis, sendo conhecida como a Crónica do Mouro Rasis. Essa tradução, da qual tampouco se conservam exemplares, foi utilizada como fonte de várias crónicas conservadas, como a Crónica Geral de Espanha de 1344 e derivados desta.

2 Ribat: acantonamento dos muçulmanos dedicados à piedade e à guerra santa.

3 Do árabe zâwiya ‘canto’, ‘espaço pequeno’, metonimicamente aplicado a pequenos estabelecimentos religiosos.

A análise da toponímia ainda hoje existente fornece-nos algumas indicações sobre o

modo de vida da península de Setúbal em época islâmica: Alfarim: al-farix ou corte de floresta,

desarborização; Zambujal e Azeitão que testemunham a presença da olivicultura.

Se parece estar comprovada a existência de um hisn (fortificação) omíada do século IX,

no actual local onde se ergue o castelo de Sesimbra, os testemunhos arqueológicos são muito

exíguos no que diz respeito a esta época. A sua implantação era estratégica, com uma posição

privilegiada de vigia sobre o Atlântico, Arrábida e Palmela, que lhe permita fiscalizar a navegação

oceânica entre Lisboa e Alcácer. Ao contrário do vizinho hisn de Palmela, seu contemporâneo,

não existiria em Sesimbra um povoado permanente, apenas um grupo de homens responsáveis

pela manutenção do posto de vigia, que aqui se refugiariam em caso de ataque. O papel do

castelo de Sesimbra teria assumido uma relativa importância sobretudo no período dos ataques

vikings no século IX e X.

As moedas árabes encontradas na região fornecem-nos informações cronológicas sobre a

presença muçulmana: um dinar cunhado em 783-784 e um dirham de 780-781, encontrados

numa lapa nas imediações de Azóia e, na Lapa do Fumo, um tesouro escondido com cerca de

cinco centenas de moedas, umas cunhadas em Silves, outras da época almorávida e outras mais

do 2.º período de taifas (entre 1144 e 1168).

Fora da Serra, já no estuário do rio Sado, Al-Idrisi indica apenas Alcácer como a única

povoação existente nas margens do Sado (Xeturbe). De acordo com o relatos Alcácer do Sal é

identificada como sendo uma cidade mediana situada “(…) nas margens de um grande rio (Sado)

que os barcos sobem. Todos os terrenos próximos estão cobertos de bosques de pinheiros,

graças aos quais se constroem muitos navios” (Coelho, 2008: 41). Al-Idrisi afirma que “(…) Alcácer

do Sal é uma bonita vila de grandeza média, erguida nas margens do Sado, grande rio sulcado por

numerosas embarcações e navios de comércio. A vila está rodeada por todos os lados por

bosques de pinheiros, cuja madeira serve para a construção de numerosos barcos” (Coelho,

2008: 53). É em relação a Alcácer que se verificará a luta de poder pelo território, transitando a

sua posse entre os poderes cristão e muçulmano, demonstrando a importância estratégica deste

porto na segunda metade do século XII, até ser finalmente conquistada em 1217 pelas forças

cristãs.

A existência de Setúbal, é à data de Al-Idrisi, completamente ignorada. Seria um território

vulnerável, à beira do Sado e como tal, em época islâmica, estaria limitado a uma aldeia ligada às

actividades do mar. Contudo, o seu abrigado ancoradouro seria com certeza um refúgio para o

tráfego marítimo originado por Alcácer e tinha como referência o castelo de Palmela, que

dominava toda a península.

A população durante a ocupação islâmica ter-se-ia adensado durante os séculos IX e XII

assente nas riquezas agrícolas e minerais da região, na vocação marítima e nas facilidades de

comunicação. A ocupação do território seria feita através de um sistema de alçarias e aldeias

ligadas a fortificações que se repartiriam entre Coina, Palmela e Sesimbra. Se tivermos em conta

a abundância dos recursos naturais, como a extensão de solo cultivável, as facilidades de

exploração de água ou as boas condições de pastoreio, podemos estar perante uma grande

quantidade de núcleos de camponeses que comunicariam entre si através de um conjunto de

itinerários secundários e pequenos troços que faziam a ligação entre os povoados ao longo das

planícies inter-estuarinas e dos vales que ladeiam a cordilheira da Arrábida (Fernandes, 2001:

185). A rede viária romana terá sido mantida em época islâmica seguindo o eixo Almada-Palmela-

Alcácer. Pode propor-se a existência de uma agricultura de feição mediterrânica de sequeiro e de

regadio, apoiada nas inúmeras estruturas de irrigação ligeiras (poços fonte, açudes, ribeiras

represadas), que funcionaria em conjunto com a pesca e com a produção animal.

 

5. Entre a conquista cristã e a conquista de Ceuta: séculos XII – inícios século XV

5.1. Idade Média Cristã – Séculos XII – XIV

Existe um grande desconhecimento, a nível de fontes, sobre o que terá acontecido na

região entre o final do século XII e o início do século XIII.

Se são diminutos as informações que chegaram até nós, relativos ao povoamento deste

espaço, nestas décadas, tal pode ser o resultado da escassa iniciativa da Coroa e das instituições

eclesiásticas em relação a este território, cabendo aos particulares a grande iniciativa de

povoamento da região. Este terá sido feito com base na procura de terras mais produtivas e

acessíveis. Por exemplo, o foral de Sesimbra de 1201, parece ter sido uma forma de

reconhecimento do rei D. Sancho de uma auto organização existente no castelo, desde a

conquista de Sesimbra em 1165, baseada no comprometimento dos homens livres da vila — o

concelho.

Verifica-se durante a época medieval, a existência de propriedades em extensão na zona

de Azeitão, o que fazia com que os camponeses ocupassem pequenas aldeias que se distribuíram

pela estrada que percorria o sopé da Pré-Arrábida. Já nos terrenos arenosos, que se estendiam

da Azóia até Alfarim, então aproveitados preferencialmente para o cereal, dominava um

povoamento intercalar, com pequenos núcleos, quase sempre coincidentes com as cabeças dos

casais que preenchiam a zona.

Este povoamento terá tido no seguimento do processo da Reconquista Cristã o seu

impulsionador. Um dos eixos do avanço cristão orientou-se na direcção de Palmela e de Alcácer

do Sal, marginalizando a face ocidental da Península de Setúbal, logo a partir da década de 40 do

século XII.

As fontes muçulmanas e cristãs são contraditórias no que respeita à situação das

fortificações de Sesimbra, Coina-a-Velha e Palmela. Provavelmente, a coroa portuguesa ter-se-ia

limitado, em 1147, a conquistar, a sul do Tejo, o castelo de Almada, assegurando a neutralização

das fortificações de Alcácer através de acordos com os vários reis taifa: primeiro de Évora e

depois com o da Alcácer. Poucos anos após a queda de Alcácer, seriam tomados as fortificações

da Arrábida. O episódio da tomada de Sesimbra, em 1165, foi registado na Crónica de Cinco Reis

de Portugal, que valorizou o decisivo protagonismo de Afonso Henriques, ao enfrentar o

numeroso exército do governador muçulmano de Badajoz.

A ofensiva almóada do século XII leva a uma nova organização do território, muito

pautada pela instalação em Portugal da Ordem de Santiago e da fundação da Ordem Militar de

Évora. No final da década, procede-se à reorganização defensiva de Lisboa, tendo em conta a

ameaça marítima. Os ataques navais a Lisboa, entre 1178 e 1182, são rechaçados com sucesso

pelas forças navais portuguesas. A mitificação da hipotética batalha naval do Cabo Espichel, de

que é feita a menção na Crónica de Cinco Reis de Portugal, com vitória de Fuas Roupinho sobre

uma frota mourisca, revela a importância estratégica daquele mar, mas também o

reconhecimento do valor do poder naval portugalense.

No reinado de D. Sancho I esta importância das Ordens Militares traduz-se na concessão

à Ordem de Santiago de castelos e vilas no Baixo Tejo e na Península de Setúbal, enquadradas na

reorganização político-militar do território promovida pelo rei. Até ao final do séc. XII, este

território conheceu uma sucessão de tomadas de posse, quer pelas forças cristãs, quer pelas

forças almóadas, acompanhado de uma instabilidade no povoamento, mercê da sua posição

estratégica relativamente ao controlo do território do Tejo, de Lisboa e do Atlântico.

No final do século XII, com o abrandamento do império almóada e o estabelecimento de

tréguas, o poder real português concentra os seus esforços na defesa e povoamento do vale do

Tejo, da península de Setúbal e do Noroeste Alentejano. O objectivo é o combate à

vulnerabilidade meridional e à fragilidade das posições mais avançadas. Neste locais há acções de

outorga de forais, doação de terras, reocupação de castelos e sua operacionalização (Mafra,

Palmela e Sesimbra).

A outorga régia do foral à vila de Sesimbra, estava integrada num conjunto de iniciativas

tendentes a defender os territórios fronteiriços do Baixo Tejo e da Península de Setúbal e a

consolidar o seu domínio pela colonização. Conseguia-se afirmar a soberania da coroa da região,

ligando o poder central com os poderes locais pré-existentes, que granjeavam o reconhecimento

como instituições públicas. A Coroa conseguia com estas medidas obter vantagens fiscais (através

da eficácia de sistemas de cobrança de impostos) e controlava, no caso de Sesimbra, uma

fortificação estrategicamente relevante, com a colocação de um alcaide nobre de nomeação

régia. A posição geográfica e a morfologia do morro do Castelo de Sesimbra conferiam boas

condições para as funções de vigilância e protecção costeiras. À defensibilidade natural (encostas

de acesso difícil e terreno de declives muito fortes) junta-se um domínio total da sua envolvente,

que lhe permitia controlar e vigiar em todos os lados e numa grande extensão de quilómetros os

movimentos hostis. Seria essa a primordial função militar de Sesimbra, articulada com os castelos

de Palmela e Coina-a-Velha (hoje desaparecido), e muito provavelmente com Almada, num

sistema que garantia a defesa da margem esquerda do Tejo. Por outro lado, as terras agrícolas

próximas e o mar proporcionariam os recursos necessários à sobrevivência da comunidade que aí

se instalasse.

As referências à zona costeira da Serra Arrábida e ao estuário do Sado, durante esta

época são escassas. A documentação referente, por exemplo, a Setúbal é inexistente durante

todo o século XII.

A tradição historiográfica portuguesa tem vindo a acentuar a ideia de um “nascimento”

de Setúbal no século XIII, remetendo para uma total inexistência de um núcleo habitacional em

épocas anteriores. Esta situação poderá estar mais relacionada com uma ausência de

investigação sobre a matéria, do que uma realidade concreta que revele esta situação. A

arqueologia realizada na cidade de Setúbal forneceu (e continua a fornecer) elementos que

apontam para uma ocupação intensa do espaço da actual cidade durante a Idade do Ferro e no

Período Romano. Recentes intervenções arqueológicas têm também demonstrado uma

ocupação islâmica, com materiais genericamente enquadráveis no século X, o que tem feito

recuar o hiatus entre o século VI/VIII e o século XIII.

As condições de estabelecimentos humanos nesta zona não são favoráveis durante o

século XII. A zona de Setúbal, durante toda esta época insere-se na região controlada quer por

Palmela, que por Alcácer do Sal, cuja instabilidade foi uma constante até aos inícios do séc. XIII. O

ambiente não seria propício para a existência de localidades “abertas” (sem a protecção de

muralhas). Se verificarmos os forais outorgados constata-se que as povoações crescem no

interior das cercas amuralhadas ou então sob a protecção directa destas: Sesimbra, Alcácer,

Palmela. Conjuntamente com este factor e não alheio a ele, a tendência de povoamento no

território é de reorientação do povoamento afastando as localidades das linhas de costa e das

zonas mais a jusante do vales do rios.4

A subida do nível das águas do estuário poderá ter tido alguma influência na estratégia de

povoamento. A insalubridade característica de meios pantanosos cria difíceis condições de vida.5

A orla marítima, tal como a conhecemos hoje, não será coincidente com a que se verificaria ao

longo dos séculos XII e XIII. Uma diferença que encontra uma das suas explicações na

manifestação dos efeitos de um período de aquecimento climático que favoreceu a penetração

do mar sobre as áreas costeiras mais baixas, as quais sofreram significativas acções de

assoreamento. 6

Uma boa parte dos terrenos litorais, por seu lado, era estéril ou pouco produtiva o que

juntamente com a presença de areias movediças, tornava a zona pouco favorável à ocupação

humana.7 A costa era ainda mais recortada do que na actualidade o que permitia a existência de

mais portos de abrigos, de pequenas ou muito pequenas dimensões que acolhiam barcos de

pequeno calado, mas que dificilmente comunicavam entre si dado o relevo em que se inseriam.

Não constituíam, por isso, grandes pontos de vitalidade económica, já que os contactos e trocas

entre si seriam diminutos.

4 ANDRADE, Amélia Aguiar, 2005, p. 65.

5 Na toponímia de Setúbal em relação a este aspecto encontramos os nomes Praça do Sapal ou Largo do Sapalinho.

6 GRANJA, Maria Helena, pp. 97-98

7 LAUTENSACH, Herman e RIBEIRO, Orlando, 1997.

Acresce a esta situação a presença recorrente nas costas portuguesas da pirataria

islâmica, e em épocas mais recuadas dos vikings e outros povos do norte. É por exemplo

conhecido a entrada no estuário do Sado e navegação pelo rio de uma frota Normanda que

apenas terá sido travada pelo poderio militar da Fortaleza de Alcácer do Sal, no século X.

Este conjunto de factores contribui para que para a sociedade rural do Ocidente cristão

peninsular e em geral, em todo o ocidente medieval, o mar “é visto como fronteira exterior da

Cristandade, como o antimundo a que se associa um carácter destrutivo, demoníaco.”8 Desta

forma, a existência de povoações à beira mar em Portugal durante este período é rarefeita

salvaguardando-se apenas aquelas que edificaram sistemas defensivos, como muralhas ou torres

de vigilância, ou que se posicionam em pontos mais abrigados das entradas dos estuários, onde

decorrem acções exploração de sal, pesca e uma navegação de cabotagem. Na região de Setúbal

é conhecida a actividade de exploração do sal, controlada por Alcácer.

A partir do século XIII, sobretudo após o processo final de conquista do território, a

Península de Setúbal parece ganhar relevância no quadro de uma estratégia nacional de

povoamento.

Desde logo há uma reapreciação pelo espaço geográfico em que a zona se insere,

querendo tal dizer, que se toma consciência do valor que pode advir de uma exploração dos

recursos marítimos. O mar afigura-se agora como um espaço a dominar, dentro de uma lógica

expansionista e empreendedora. Os ancestrais medos e terrores foram sendo afastados, graças à

mediação de santos como São Brandão, São Telmo e São Vicente.9 As inovações tecnológicas na

arte de navegar acompanham esta vontade de dominar o mar e revigorar os contactos entre o

Atlântico e o Mediterrâneo. O mar já não é demoníaco ou assustador e assume importância

estratégica para a nação portuguesa.

A actividade piscatória conheceu um verdadeiro incremento em Sesimbra, que dispunha

de condições ecológicas particularmente favoráveis. Para além da pesca as águas garantiam,

também, a força motriz necessária ao funcionamento de azenhas, junto a levadas e ribeiros, ou

dos chamados moinhos de maré, que tiravam partido da alternância entre a enchente e o

vazante nas bordas do mar da Palha, na vizinhança, por vezes, de algumas marinhas que

propiciavam a extracção do sal.

8 KRUS, Luís, 1994, pp. 143-144

9 ANDRADE, Amélia Aguiar, op. cit., p. 70.

Esta importância assume um carácter intervencionista por parte da coroa portuguesa,

sobretudo a partir da segunda metade do século XIII e os seus mais empenhados protagonistas

forma D. Afonso III e D. Dinis, cuja atenção que disponibilizaram para a Península de Setúbal

demonstra um entendimento dos mais importantes pontos da costa medieval. Os objectivos da

sua acção prendiam-se com o controlo da foz do rio, a promoção de ocupação humana dos

pontos mais importantes da linha de costa, o fomento, vigilância e usufruto sobre as actividades

portuárias, pesqueiras e salineira, o estabelecimento da rede alfandegária e o fomento de

construção naval associada à criação de uma marinha de guerra.

No caso da zona entre Sesimbra e Setúbal esta acção terá que ser concertada com os

desígnios da Ordem de Santiago donatária do espaço. A doação dos terrenos da faixa litoral à

Ordem de Santiago acompanha uma prática de alienação por parte dos monarcas portugueses de

território litorais sobretudo em zonas onde havia povoados e onde a exploração dos recursos

marítimos (sal e pesca) tinha alguma importância.

O recurso às Ordens Militares e outros estabelecimentos eclesiásticos permitia ao rei

colmatar a insuficiência das instituições administrativas régias no processo de povoamento e

exploração de recursos. Assim se entende que em 1236 o rei Sancho II entregue Sesimbra à

Ordem de Santiago, concedendo-lhe os direitos reais sobre o senhorio da vila e castelo e o

padroado das igrejas e assim se compreende ainda que primeiro foral de Setúbal seja outorgado

pelo Mestre da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, em 1249, desvinculando a localidade

Setúbal da autoridade administrativa de Palmela.

Esta desvinculação de Setúbal relativamente a Palmela permite ainda perceber que este

aglomerado urbano detém já uma significativa estrutura económica e social que lhe permite ser

responsável pelos seus próprios destinos. Esta situação parece testemunhar uma mentalidade

generalizada, durante o século XIII, da compreensão do valor que podia advir com as

aglomerações fluviais e marítimas relacionado sobretudo com a possibilidade de incrementar

receitas económicas, sobretudo aquelas de advêm de politicas fiscais. Em Setúbal, a Ordem de

Santiago desde o século XII que cobra imposto (dízimo) pela navegação comercial no rio Sado a

todos os barcos que entravam rio acima. Muito possivelmente essa cobrança de imposto,

promovida pela Ordem, seria feita nas praias do Sado, antes da entrada no rio, na zona de

Setúbal, o que terá dado origem ao aglomerado inicial. Desde 1255 que a Ordem de Santiago

dispõe, por doação régia, dos direitos sobre o pesca em Almada, Sesimbra, Setúbal e Alcácer do

Sal.

A ligação ao aproveitamento dos recursos marítimos intensifica-se ao longo da Idade

Média. A dimensão da actividade de pesca reflecte-se já no urbanismo das localidades, uma vez

que implicava a existência de estruturas de armazéns, alfândegas, zonas de descarga e venda de

pescado, entre outras, que garantiam uma maior eficácia na cobrança de dizima, portagens e

outros direitos quer os devidos ao donatário, quer o de usufruto exclusivo do rei. A esta

multitude de espaços acresce a existência de zonas de acolhimento para n.º variáveis de

embarcações, portos.

A situação em Setúbal, em meados do século XIV, testemunhava a dimensão da sua

actividade económica centrada nos recursos marítimos: em 1336 a cobrança fiscal advinda destes

produtos era tão significativa que leva ao arrendamento das dízimas, por um período de quatro

anos, pela soma de centro e três mil libras. Testemunho também do florescimento da localidade

é o facto de em 1343 ser definido o termo de Setúbal, a pedido dos homens-bons do concelho,

com o objectivo de tornar mais eficaz o controlo régio dos impostos e no reinado do mesmo rei,

D. Afonso IV foi iniciada a construção da muralha medieval de Setúbal, que cumprindo funções

defensivas facilitavam um controlo fiscal apertado.

Esta cerca é marcada pela orientação do rio e apresenta um eixo este/oeste com uma

planta de traçado genericamente quadrangular que se adaptava à topografia do terreno. A

muralha medieval de Setúbal utilizava os elementos naturais existentes como parte da sua

estratégia defensiva: a norte uma linha de água; a nascente uma ravina; a sul o rio e as suas

margens; a poente uma linha de água que funcionava como fosso natural. Das quatro portas

originais apenas subsiste hoje a Porta do Sol, localizada a este do conjunto fortificado, que

apresenta um arco gótico, de volta quebrada. Para o lado sul, para a margem do rio não há

portas, apenas postigos reforçando o sistema defensivo ao não abrirem portas para uma zona de

difícil defesa, a praia. Esta cerca deixa de lado os já existentes arrabaldes de Troino e Palhais, que

se manterão até ao século XVII fora de muralhas. Para a defesa da localidade e das actividades

económicas marítimas é edificada a Torre de Santiago do Outão, no reinado de D. João I, com

funções essenciais de vigilância da entrada da barra do Sado. Foi remodelada em épocas

posteriores, mas a inscrição aqui colocada no século XVII, aquando uma das campanhas de

ampliação fala-nos da sua criação por D. João I. Seria ainda interessante verificar exactamente a

função desta torre, pois a tratar-se de uma fortificação de cariz marítimo será certamente um dos

primeiros exemplares em Portugal.

Por outro lado, a criação da Póvoa marítima de Sesimbra, por ordem do rei D. Dinis, no

local onde hoje se ergue a vila, terá ainda que ser melhor clarificada. Este monarca, inserindo na

estratégia atrás referida, foi impulsionador da criação de póvoas, localidades junto ás margens

dos rios, ou nas orlas costeiras. Por exemplo, na foz do rio Alcabrichel, na Baixa Estremadura

mandou D. Dinis edificar a Póvoa de S. Dinis, com ruas, casas e um templo, num processo muito

semelhante ao que sabemos ter acontecido em Sesimbra, quando D. Dinis aqui manda instalar

um assentamento marítimo, deslocando-se o primitivo núcleo de ocupação no castelo para junto

do mar, na Ribeira de Sesimbra. Esta deslocalização do núcleo urbano só veio a completar-se no

século XV, quando foi instalada a Matriz na Igreja de Santiago, abandonando a Igreja de Santa

Maria, localizada no castelo. O diploma régio de 1255, atribuía os direitos das pescarias de

Sesimbra e de outras localidades à Ordem de Santiago, e autorizava os pescadores da vila não só

a utilizar os exidos para salgar e estender o pescado e consertar as redes como a construírem

cabanas in terra. A modesta origem do arrabalde estava bem patente na precariedade das suas

primitivas construções, feitas de materiais rapidamente perecíveis. Mas o seu sítio adequava-se

sobremaneira aos novos critérios de produção e da circulação locais e o final da Idade Média

assistiria à progressiva deslocação das actividades económicas e do próprio povoamento para o

espaço ribeirinho. Uma evidência desta crescente importância parece ser o esforço régio para

não perder o usufruto das actividades piscatórias como o demonstra o acordo estabelecido em

1308 entre o rei e a Ordem de Santiago, donatária das localidades ribeirinhas a sul do Tejo –

Sesimbra, Alcácer e Setúbal – sobre as pescarias na península de Setúbal, que reservava para o

monarca os direitos sobre o pescado obtido por todos os pescadores que não fossem moradores

nessa região.

No cabo Espichel, local sagrado e mítico, com uma forte tradição espiritual que

remontava à época islâmica, a lenda da imagem de Nossa Senhora, aliada à ocorrência de

fenómenos geológicos como as pegadas de dinossauros, terá contribuído para a existência,

anteriormente ao século XV, de um centro propiciatório a práticas cultuais. Estas práticas,

provavelmente medievais, vieram a ter uma expressão material com a construção da Ermida da

Memória, no século XV, no local onde segundo a tradição terá sido descoberta, por dois velhos

de Caparica e Alcabideche avisados em sonhos por Deus, a imagem milagrosa de Nossa Senhora,

transportada até ao alto do cabo numa mula, cujas pegadas (o trilho de dinossauros) teriam

permanecido. Num documento datado de 1366 estão assinaladas as peregrinações a Santa Maria

do Cabo Espichel utilizadas pelos círios e romeiros provenientes do extremo Sul e Leste da

Península de Setúbal. Este caminho de origem medieval, que tinha como ponto de abrigo e apoio

o Castelo de Sesimbra, passava pelas localidades que na altura constituíam os principais centros

de povoamento rural do concelho, como o Zambujal ou a Azóia. Ao longo do percurso surgiam

poços, fontes e bebedouros, que abasteciam de água os peregrinos e os animais que os

acompanhavam.

Isenta de aglomerados urbanos marítimos, com excepção da manutenção de algum tipo de culto

na sua capela10 estava a zona da actual península de Tróia e toda a costa ocidental, entre Setúbal

e Sines, era em época medieval, agreste e despovoada. Em 1305 é estabelecido um contrato

entre o rei e a Ordem de Santiago, donatária do espaço, para garantir os direitos régios sobre os

cetáceos aqui capturados. Assim cabia a dois homens de Setúbal a feitura da almadrava, isto é de

armações próprias para a pesca do atum reservando-se a cobrança de dizima e da sétima parte

para o rei.

Apesar desta intensificação da exploração dos recursos marítimos, ocorrida durante toda

a Idade Média, na região da Península de Setúbal verifica-se que é a propriedade alodial que

ainda mantém a preponderância nas actividades económicas da região. O exercício do poder

camarário foi assegurado maioritariamente por aqueles que se dedicavam à exploração de terras

(quer proprietários, quer enfiteutas). O acesso de outros sectores sócio-profissionais à gestão

municipal era reduzido, ou inexistente. Só mais tarde e apenas em Sesimbra, quando a vila

piscatória substituiu definitivamente o recinto amuralhado, um novo grupo profissional, a

comunidade dos mareantes, acedeu à gestão da vida concelhia. Será a força económica dos

pequenos ou médios detentores de terras de extracção popular que permite explicar o controlo

do poder político durante este período, demonstrado pelas politicas municipais orientadas na

defesa dos interesses dos agricultores, protegendo as suas produções ou reclamando contra os

excessos praticados pelos oficiais das donatárias sobre a sua actividade.

10 A capela de N.ª Sr.ª Tróia, edifício do século XV, testemunha a manutenção da ocupação humana no local, após a sua época de grande expansão económica durante o período romano.

 

 

6. A Idade Moderna: do século XV até à Restauração da Independência

6.1. Setúbal

No século XV é definida uma nova hierarquia dos portos costeiros em que tomam

preponderância os portos algarvios e assumem-se como os grande centros de entreposto

marítimo Lisboa e Porto. Dos restantes portos marítimos apenas vão sobreviver aqueles que

estão em locais com condições naturais mais favoráveis e com ligação com interland.

Os rendimentos obtidos com o sal, o pescado e os direitos cobrados com a entrada no

porto, durante o século XV, colocam Setúbal nesta categoria de portos que se enquadram na

nova estratégia da costa atlântica. Estes começavam a revelar-se de importância fundamental

para a empresa dos Descobrimentos em Portugal: em 1473 Setúbal contribuiu com 2 contos e 57

mil réis para as rendas régias, superando Guimarães e Évora. Assim, no final da Idade Média, a

vila emergente na foz do Sado já se assumia como o principal porto a nível regional, estatuto que

traduzia uma situação de progresso económico que não passou despercebida aos Espatários,

como se comprova pela implantação na urbe de importantes estruturas políticas e

administrativas do Mestrado de Santiago, de que são exemplo os Paços da Ordem, o Paço do

Trigo ou as lojas da Ordem, localizadas junto ao cais principal na Ribeira da vila, assim como pela

estância de um crescente número de oficiais em sua representação, nomeadamente os escrivães

que, na Ribeira, procediam ao registo dos direitos tributários pertencentes ao Mestre enquanto

governador do Mestrado.

Ao longo do século XV a vila de Setúbal parece ter entrado em fase de acentuado

desenvolvimento. Testemunho deste facto são as novas construções que se levantam na cidade:

o convento de franciscanos, o primeiro de todos os conventos de Setúbal, cuja construção se

inicia em 1410. Em 1490 inicia-se a construção do Mosteiro de Jesus, fundado por Dª. Justa

Rodrigues Pereira para albergar a Ordem franciscana feminina de Santa Clara, sendo, muito

provavelmente, obra arquitectónica do Mestre Diogo Boitaca, o mesmo que se ocupou do

Mosteiro dos Jerónimos.

Esta campanha de construções vem no seguimento da fixação de residências, ainda que

sazonais, em Setúbal da realeza e da nobreza11. Em 1458 parte de Setúbal uma parte da armada

portuguesa comandada por D. Afonso V com destino a Alcácer-Ceguer e em 1471 casa-se em

Setúbal, ainda príncipe, o futuro D. João II. Aliás este rei mostrou uma preferência notória pela

localidade de Setúbal, onde esteve instalada a sede da corte entre 1481 e 1485. O papel de

Setúbal na política de centralização do poder régio está marcado, por exemplo, na morte do

Duque de Viseu, em 1484. É no reinado de D. João II que se iniciam algumas das construções mais

significativas: o aqueduto de abastecimento de água à cidade (1487) e a abertura da Praça do

Sapal construindo-se um espaço urbano central à volta da casa da Câmara, Paço do Trigo,

Açougues e Cadeia e a remodelada Praça do Sapal; D. João II promove a realização, em Setúbal

de uma série de experiências que serão adaptadas à empresa dos Descobrimentos Portugueses:

experimentação de bocas de fogo nas caravelas, com a instalação de bombardas que disparavam

tiros rasantes.

11 Em 1461, os Duques de Aveiro iniciam a construção do seu palácio.

Este desenvolvimento da cidade teria na economia marítima a sua explicação. Um dos

eixos desta economia seria a pesca.

A importância do peixe em Setúbal seria já de tal ordem que em 1421 há uma queixa dos

pescadores de Setúbal ao rei relativamente à postura da Câmara que os obrigava a, por cada

barco que traziam de peixe, a encher uma cesta destinada à venda aos locais de Setúbal. Esta

medida destinava-se a colmatar a inexistência de pescado em Setúbal, apesar da abundância de

peixe, uma vez que este era integralmente arrematado, ainda no mar, por regateiros e

almocreves que faziam as rotas comerciais entre o Tejo e o Guadiana. Tal demonstra também

que a economia de Setúbal directamente relacionada com a pesca tinha já uma importância

nacional, ou pelo menos uma importância regional muito acentuada.

Outros dos eixos importantes seria o seu comércio marítimo, sobretudo na sua

capacidade de ligação com o interland, gerador de uma riqueza considerável. A manutenção

desse comércio foi durante o século XV uma preocupação de Setúbal, ao ponto de em 1425 ter

sido feita uma queixa ao rei, por parte da Câmara, dos continuados ataques de piratas ao porto e

costas de Setúbal. Nesta queixa a Câmara referencia ainda que os pedidos de ajuda feitos aos

vizinhos de Palmela, Sesimbra e Alcácer não são tomados em conta e que estes não socorrem a

vila. A documentação disponível mostra-nos que as relações de vizinhança com os territórios

vizinhos, muito consolidados, não seriam as mais amigáveis: são conhecidas queixas constantes

ao rei, por parte dos habitantes de Sesimbra, Palmela e Alcácer, insurgindo-se contra as

dificuldades levantadas pelos setubalenses à entrada e venda dos produtos trazidos pelos

comerciantes destas zonas.

Um outro eixo seria o comércio e exploração do sal. A actividade salineira encontrava no

estuário do Sado condições naturais muito favoráveis ao seu desenvolvimento. As marinhas

faziam parte da paisagem peri-urbana da vila sadina, noticiando-se a sua presença desde 1322,

como pertença da Ordem Militar de Santiago, junto ao arrabalde de Troino, bem como no

arrabalde de Palhais. Contudo, a pouco e pouco, as marinhas mais próximas da vila foram

abandonadas e os terrenos que outrora produziam sal deram lugar à edificação de novas

habitações, permitindo a expansão urbana para a periferia exterior da zona amuralhada. Em

contrapartida, parece ter-se intensificado o aproveitamento de terrenos de sapal através da

instalação ou revitalização de marinhas nas margens do tramo do Sado, localizadas entre Setúbal

e Alcácer do Sal, onde se viriam a formar diversas marinhas ao longo dos séculos XV e XVI, que,

em certos casos, recuperavam as estruturas de antigas salinas, embora mais frequentemente

constituíssem novas ocupações. Na realidade, em 1532, a zona situada a montante de Setúbal

constituía já o maior conjunto salineiro do País. As salinas podiam ser de propriedade régia ou de

particulares, mas os direitos pagos, múltiplos, indicam receitas sobre a área da salina, a produção

e a comercialização do sal12. Ao rei pertenciam o mar, rios e lagoas, e os direitos sobre os seus

rendimentos passíveis de arrendamento. Se, num primeiro momento, apenas encontramos

referências às salinas da Ordem Militar de Santiago, era, no entanto, evidente, no século XV,

sobretudo no último quartel dessa centúria, o investimento de uma oligarquia local na

construção e recuperação de salinas e na produção de sal, de que a milícia beneficiava também

por meio da recepção do dízimo da produção e dos tributos que incidiriam posteriormente sobre

as transacções do produto.

A crise os cereais que surgiu na sequência do esforço mercantilista promovido pelos

Descobrimentos, foi um assunto que os monarcas portugueses tentaram resolver, recorrendo a

politicas de isenção de pagamento de dizimas aos exportadores de sal, conquanto trouxessem

nas cargas de retorno o cereal. Como resultado deste politica mercantilista, em que o sal se

afirmou como moeda de troca, o porto de Setúbal passou a ocupar uma importante posição no

comércio de exportação nacional, dada a fama do sal de Setúbal entre os países do Atlântico

Norte, sobretudo os países confederados na Hansa cujas frotas passaram a demandar o porto de

Setúbal.

A relevância do comércio do sal seria de tal ordem que em 1570 são impostos preços

fixos do sal em Setúbal, num esforço de controlo e monopólio indirecto por parte do rei da

produção do sal de Setúbal. Este alvará de 26 de Setembro de 1570, excluía da comercialização

do sal os corretores de sal estrangeiros e portugueses, assim como os funcionários municipais e

da Alfândega e Mesa do Sal, dado que praticavam, indevidamente, revendas de sal.

Finalmente encontramos também a construção naval como um dos eixos

impulsionadores de uma nova economia.

Esta economia marítima, que ainda está em fase de crescimento, é um complemento da

actividade agrícola, sobretudo a actividade vitivinícola, sendo a vinha maciçamente cultivada no

aro citadino e constituindo a marca dominante na paisagem. A vinha é cultivada em torno de

Setúbal desde muito cedo. O aumento da procura de vinho no espaço citadino, constituía um

indicador da dimensão espacial da urbe, a qual podia ser avaliada pela vastidão dos vinhedos que

a envolviam, cujo cultivo estava por sua vez garantido pela disponibilidade de mão-de-obra

assegurada por um núcleo urbano próspero. Em Setúbal verifica-se um particular interesse na

promoção da cultura da vinha, transversal a uma grande diversidade de proprietários de distintos

grupos sociais, o que não é detectado relativamente a outras produções agrícolas.

12 AMORIM, Inês, 2008, pp. 184-185.

A economia, de fácies marítimo, é claramente expressa no foral de 1514 de D. Manuel.

Está ainda patente no urbanismo da cidade: a Praça da Ribeira Velha, antigo topónimo

relacionado com a anterior existência de uma praia banhada pelo Sado, faz uma alusão ao

comércio de pescado, sobretudo ao da descarga de peixe, potenciado pela localização encostada

à muralha sul, onde seria possível observar as margens do rio.

Durante todo o século XVI e XVII assiste-se em Setúbal a um aumento demográfico

promovido pelo sucesso da actividade de extracção e comércio do sal. Entre 1527 e 1640 o

crescimento do número dos fogos urbanos foi na ordem dos 139%.

Este crescimento traduz-se por exemplo na ordem, por D. Manuel, de ampliação das

Igrejas de Santa Maria e São Julião, por não caberem nelas tantos fiéis, ou ainda na instalação de

vários mosteiros e conventos: à volta da vila, numa distância não superior a três quilómetros do

termo, instalaram-se os Arrábidos a poente, em 1539, a noroeste o convento de S. Paulo, em

1531, e o de Alferrara, em 1578; já às portas da povoação tinha-se erguido, em 1525, o convento

de S. João; o convento e seminário de Brancanes, em 1682, encerravam este conjunto

arquitectónico que, em dois semi-círculos, fechava Setúbal. Dentro das muralhas, durante o auge

da produção e venda do sal, surgiram, na Anunciada, os Conventos do Carmo Calçado (1598), do

Carmo Descalço (1661) e da Santíssima Trindade (1656), e, em S. Sebastião, os Jesuítas (1653) e

os Agostinhos Descalços (1700). É ainda instalada a sede da Irmandade da Misericórdia, em 1501,

numa estratégia de unificação dos vários pequenos hospitais que existiam em Setúbal. A mesma

lógica encontra-se nas confrarias: quatro existentes até 1500 passaram para, pelo menos, trinta e

cinco no século XVIII.

Esta lógica de crescimento acompanha uma complexização sócio – funcional, responsável

pela rápida alteração da fisionomia social de Setúbal. O maior promotor desta mudança terá sido

um grupo de abastados, detentores do capital económico e social que lhes permitiu, por compra,

doação ou mesmo usurpação, o acesso ao salgado de Setúbal. Este novo grupo social, que

integrava a nobreza favorecida pelo Mestre da Ordem de Santiago, mas também as elites locais,

incluindo aqui a pequena nobreza e a burguesia endinheirada, rapidamente se tornou

dominador, acentuando-se distinções sociais que logo adquiririam cariz político, ao apoderaremse

do governo do principal centro de poder, a Câmara Municipal.

O espaço físico de Setúbal passa a estar condicionado pelos interesses desta classe. Nesta

lógica enquadra-se os movimentos de reestruturação urbanística de Setúbal, iniciado com D. João

III, desde 1550, como por exemplo a criação da Praça do Sapal, resultante do alargamento do

antigo Largo do Pelourinho. A partir do Sapal novas artérias acolheriam as habitações desta

classe dominante.

Ainda permanece a cerca medieval, mas a expansão dos arrabaldes, sobretudo do Troino,

leva a que se abra a Porta Nova, durante o reinado de D. João III, para permitir uma maior

facilidade de acesso a estes locais. Testemunho ainda desta expansão demográfica é a

constituição, em 1553, de duas novas freguesias: são estas São Sebastião a nascente da vila,

resultando do desmembramento da freguesia de Santa Maria, e que inclui o arrabalde a nascente

de Setúbal e a Freguesia da Anunciada, a poente que nasce do desmembramento da freguesia de

São Julião. Nesta data, Setúbal possuía 1912 fogos e 8603 habitantes, divididos pela freguesia de

São Julião, com 1035 fogos e 4657 pessoas, e a freguesia de Santa Maria da Graça, com 877 fogos

e 3946 pessoas, o que situava Setúbal ao mesmo nível de cidades como Guimarães, Coimbra,

Lagos. A importância que Setúbal havia granjeado valeu-lhe a concessão, em 1525 do título de

notável vila, pelo rei D. João IIII.

A importância de Setúbal aparece ostensivamente em 1580, no contexto da crise

sucessória deixada por D. Sebastião. É em Setúbal que vêm instalar-se os governadores do reino,

depois da morte do cardeal D. Henrique e aí querem preparar uma aparência de solicitação à

vinda do rei espanhol, pressionados seguramente por Cristóvão de Moura, ao serviço do rei de

Espanha. Também é para Setúbal que D. António prior do Crato, que se tinha proclamado rei,

manda alguns dos seus partidários a fim de promover o levantamento da cidade a favor daquele.

As tropas do Duque de Alba, entram facilmente em Setúbal e a partir daqui concretiza a sua

estratégia de ocupação de Lisboa, por Cascais. Em Lisboa o Duque de Alba vence as forças do

Prior do Crato e inicia-se o período da dinastia filipina.

Em 1580 a posse do reino decide-se pelo domínio dos seus portos, só havendo batalhas

ou confrontos armados na linha de costa. A conquista da costa era a chave da conquista de todo

o território interior. Foi em Setúbal que se iniciam as conversações entre Filipe I de Portugal e a

Duquesa de Bragança que aqui assina a sua desistência aos direitos pessoais ao trono. Durante o

domínio espanhol a cidade não viveu tempos calmos sobretudo devido à hostilidade entre a

Espanha e a Europa do Norte. Portugal era a fronteira atlântica do novo reino, assaltada com

grande frequência por ataques de frotas inglesas. A estratégia defensiva filipina voltou-se em

grande força para as fortificações marítimas, num esforço de protecção da fronteira atlântica.

Nesta conjuntura o peso da região do Sado era imenso uma vez que Setúbal é, depois de Lisboa e

ao lado de Tavira, o maior porto do sul. A edificação da fortaleza de São Filipe, da autoria de

Filipe Terzi demonstra bem a necessidade de protecção à cidade e seu comércio, bem como a

toda a navegação na barra do Sado. Setúbal é um ponto estratégico defensivo. Em 1610 diz

Duarte Nunes de Leão na sua “Descripção do Reyno de Portugal”: “hua das nobres villas de toda

Hespanha, e nomeada por as muitas partes, que nella concorrem, por os edificios de marmore

jaspeado de que he edificada, por os mais nobres, e saborosos pescados que há em toda a

Europa que, em seu rio, e no mar vizinho se pescão, do quaes se bastece grande parte de

Hespanha. E por o grande, e fermoso porto a onde vem proverse de sal todas as provincias de

Septentrião, porque aquella terra he rica, e mui celebrada.”

A questão comercial da cidade era um outro ponto sensível, sobretudo no que diz

respeito à maior moeda de troca existente em Setúbal, o sal. Os negociantes privilegiados do

comércio do sal de Setúbal, os europeus do norte, eram os mais aguerridos oponentes aos

espanhóis. Isto gerava incompatibilidade entre interesses portugueses e espanhóis. Além disso a

facilidade com que podia ser vigiado o seu comércio e sua saída tornava-o objecto de medidas

fiscais crescentes. O combate às práticas especulativas na exploração e comércio do sal,

manteve-se durante a época da governação filipina, combatendo o “estanco” ou monopólio

realizado por outros que não o poder régio ou seus mandatários.

O comércio de Setúbal estava ainda ameaçado por um outro factor, este de origem física.

A partir de 1619 acentua-se o processo de assoreamento do rio Sado, verificando-se que entre a

Torre do Outão e a ponta de Tróia se pode agora, na baixa-mar, passar a pé. Esta situação é

indicadora das dificuldades de navegação no estuário do Sado, onde em tempos anteriores

tinham navegado as caravelas. O escoamento do sal das marinhas torna-se mais difícil.

 

6.2. Arrábida

A ocupação da zona da Arrábida durante a Época Moderna caracteriza-se pela presença

constante de elementos de arquitectura rural, resultado dos modos de vida ligados às actividades

agrícolas tradicionais. Não podem igualmente de deixar de ser referidos alguns edifícios

considerados de elevado valor histórico – patrimonial que tiveram a sua origem na fixação da

nobreza portuguesa nesta região, em períodos de férias. Deste conjunto de edifícios podem-se

destacar: o palácio da Bacalhoa e o Palácio da Quinta das Torres com as influências

renascentistas, o Palácio do Calhariz onde está espelhado o barroco e rococó e o já mencionado

Palácio dos Duques de Aveiro.

Há ainda que referir a importância de um assinalável conjunto de vários cruzeiros e

pelourinhos, chafarizes e os tão característicos moinhos.

Em maior número surgem os exemplos de património religioso. Igrejas, ermidas e

conventos, disseminados um pouco por toda a região. A Lapa de Santa Margarida, no sopé da

Serra da Arrábida localizada junto ao mar, encerra uma capela edificada no século XVII, onde

existiam imagens de N.ª Sr.ª da Conceição, Santo António e Santa Margarida. Local de

peregrinações era especialmente adorada pela comunidade de mareantes que aqui vinham

venerar N.ª Sr.ª da Salvação ou da Galé.13

O Convento da Arrábida, construído no século XVI, está situado na vertente sul da Serra

da Arrábida, virado para o mar. Entre 1538-1539, D. João de Lencastre 1º Duque de Aveiro

permitiu ao franciscano Frei Martinho cumprir o seu desejo de fazer uma vida eremita, dedicada

exclusivamente a Nossa Senhora. O duque cedeu-lhe a serra da Arrábida, onde já se existia uma

ermida aberta ao culto em que se venerava a imagem conhecida por Nossa Senhora da Arrábida.

No ano de 1542, a ermida foi incorporada na ordem dos capuchinhos, com o título de Custódia

de Santa Maria de Arrábida, assim como os conventos que a ela se acresceram. D. Jorge de

Lencastre, filho do 1º duque de Aveiro, continuou as obras mandando construir uma cerca para

vedar a área do convento. Mais tarde, seu primo D. Álvaro, mandou edificar a hospedaria que lhe

servia de alojamento e projectou as guaritas, na crista do monte, que ligam o convento ao sopé

da montanha, deixando, no entanto, três por acabar. Por sua vez, D. Ana Manique de Lara, nora

de D. Álvaro, mandou construir duas capelas, enquanto o filho de D. Álvaro, D. António de

Lencastre, mandou edificar, em 1650, o Santuário do Bom Jesus.

Existe ainda na Arrábida, um conjunto disseminado de estruturas que espelha as

actividades económicas aqui exercidas, e que caracterizam esta zona como um espaço

heterogéneo de Serra e Mar:

• as estruturas ligadas às actividades marítimas, nomeadamente as do fabrico de

conservas de peixe, construção naval e afins existem nos Concelhos de Sesimbra e Setúbal;

• uma fábrica de gelo em Sesimbra;

• os moinhos de vento, ao longo da pré – Arrábida, desde Sesimbra a Palmela e

Setúbal, que testemunham a actividade de moagem de cereais.

• As azenhas de água são escassas, devido às características hidrológicas da Arrábida.

• As adegas de vinho encontram-se principalmente na pré – Arrábida, na zona

entre Palmela e Azeitão, protegida dos ventos marítimos mas influenciada por eles.

• Os lagares de azeite, que mantêm uma certa expressão, em actual declínio,

encontram-se também entre Palmela e Azeitão.

 

13 Conta a lenda que um grupo de pescadores foi perseguido no mar por navios piratas ou corsários. Estes entretanto ficaram encalhados próximo da Lapa, salvando-se todos os perseguidos. Como tinham invocado a imagem de N.ª Sr.ª do Menino Jesus, que se encontrava na Gruta, em sua memória fizeram um barco que colocaram na mãe esquerda da imagem, passando esta a ficar conhecida como N.ª Sr.ª da Galé ou da Salvação.

 

 

6.3. A Península de Tróia

A península de Tróia durante a Idade Moderna manteve um carácter inóspito de

despovoado. A única excepção encontra-se em Tróia, mas concretamente na zona da ermida de

invocação de N.ª Sr.ª edificada no século XV. Muito possivelmente para dar apoio aos

caminhantes que demandavam Setúbal, Lisboa e o norte do país. É, ainda, de referir no período

Quinhentista o estabelecimento de uma carreira regular, em batel, para o transporte de pessoas

e mercadorias entre Setúbal e Tróia. No século XVI é edificado no estuário do Sado (do lado de

Tróia) um moinho de maré.

Os moinhos constituíam uma estrutura fundamental de qualquer núcleo urbano,

essencial para o abastecimento da urbe e na satisfação das necessidades decorrentes do

abastecimento da marinha mercante. A edificação de estruturas moageiras accionadas pela maré

constituiu uma importante inovação técnica, garantindo que a moagem de cereais se processasse

com regularidade, sem depender da intensidade do vento ou dos caudais dos cursos de água. O

empenho dos governadores da Ordem de Santiago na promoção do aproveitamento de recursos

nas terras que lhes estavam confiadas, era notório. A edificação de moinhos de maré, não se

restringiu ao estuário do Tejo, abrangendo igualmente diversas localidades do litoral sul do País

integradas no senhorio da milícia espatária, desde que apresentassem as condições necessárias

ao seu funcionamento.

Após a criação da freguesia de Melides, no século XVI, a maior parte do território da

Península de Tróia, passou a integrar aquela freguesia, enquanto o extremo norte da península

de Tróia dependia de Setúbal.

Com a instituição da Casa do Infantado, no segundo quartel do século XVII, que passou a

integrar a zona oeste da margem esquerda do Sado, as terras do Carvalhal ficaram a pertencerlhe.

Continuando praticamente desabitadas, assim permaneceram, até à extinção daquele

vínculo, por volta de 1836.

O património mais considerável existente nesta Península é sem dúvida o complexo de

Tróia. Durante a Época Moderna, sobretudo desde o século XVI, são constantes as referências às

ruínas romanas de Tróia: em 1516 Gaspar Barreiros refere as salgadeiras em que se curava o

peixe. João Baptista Lavanha menciona também o local em 1622, referindo os tanques de salga,

mas também ruínas de edifícios.

Foi no século XVIII que, por iniciativa da futura D. Maria I, tiveram lugar as primeiras

escavações arqueológicas, dando-se a conhecer as casas da chamada Rua da Princesa.

 

7. A prosperidade do século XVII e o terramoto de 1755

Durante o século XVII e até ao terramoto de 1755, Setúbal é uma zona próspera,

baseando a sua riqueza na exploração dos recursos marítimos, com uma estrutura social muito

orientada para a economia do mar. A sua riqueza e posição estratégica terão sido alguns dos

factores pelos quais a cidade foi preferida, durante esta época pelos reis de Portugal.

A independência de 1640 é responsável por uma alteração na paisagem construída do

litoral do estuário do Tejo e costa da Arrábida. A nova cintura fortificada abaluartada de que a

cidade foi dotada, foi acompanhada de um extenso sistema defensivo mais vasto de protecção da

barra do Sado que incluía um conjunto de fortificações seiscentistas: o Forte de Nossa Senhora da

Arrábida, o Forte de Santiago do Outão, o Forte de Albarquel, e a Fortaleza de São Filipe que

domina a entrada da barra (existiam ainda dois outros forte que completavam o sistema

defensivo terrestre, o Forte Velho e o Forte da Estrela, situados a Noroeste e a Norte. Esta nova

cintura amuralhada inclui pela primeira vez os arrabaldes de Troino e Palhais, configurando uma

nova cidade. O projecto definitivo da cerca seiscentista é conhecido por descrições do século

XVIII: o rio continua a coordenar a orientação geral do traçado que constava de uma cintura de

cortinas, onze baluartes e seis meios baluartes. Destas construções mantém-se ainda visível o

Baluarte de Nossa Senhora da Conceição, localizado a sul, junto ao cais e para defesa deste; dos

restantes baluartes seiscentistas conservam-se ainda alguns vestígios sobreviventes da

destruição provocada na muralha sul pelo terramoto de 1755. A planta da cidade englobada

pelas fortificações da Restauração apresenta uma forma claramente rectangular e rectilínea e

uma ocupação do espaço menos densa e mais aberta do que a verificada na cidade medieval.

Durante o século XVII Setúbal retomou a sua actividade centrada principalmente na

produção de sal e pesca, apesar de várias medidas tendentes a um incremento das práticas

agrícolas como as que foram promulgadas por D. Pedro II que ordena a plantação de amoreiras

para a criação de bichos de seda, proíbe a exportação das laranjeiras de Setúbal e regulamenta o

comércio da grã. Nos reinados seguintes é dada especial atenção à produção de bens agrícolas na

zona em redor de Setúbal: vinhos de Palmela e Azeitão, a cultura da batata do arroz e da tufa.

Em meados do séc. XVIII, Setúbal apresentava uma estrutura económica bastante desenvolvida,

se comparada com o resto do país, produzindo sabão, panos, chitas e lenços estampados, solas,

cortumes, rendas de bilros e rolhas de cortiça. Além do sal, também a pesca originava uma

intensa corrente comercial para o interior e litoral do país, corrente comercial possível, devido à

conservação do peixe pelo sal. A produção agrícola, como se referiu, ocupava também lugar de

relativa importância nas transacções comerciais e portuárias.

A evolução demográfica parece confirmar tal desenvolvimento económico e social. Se,

em 1530, Setúbal tinha cerca de 6 000 habitantes, em 1734, a sua população rondava os 13 000.

A prosperidade que Setúbal continha no século XVIII é visível por exemplo na grande

riqueza azulejar patente no património religioso de Setúbal. Esta profusão de azulejos, patente

em grande parte dos edifícios religiosos de Setúbal poder-se-á atribuir às comunidades de

pescadores e armadores, que mandavam executar importantes encomendas nas capelas da sua

devoção, sobretudo a partir do século XVIII: Igrejas do Senhor Jesus do Bonfim, a Capela do Corpo

Santo, a Capela de N.ª Sra. Da Conceição da Porta de Évora serão disso testemunhos e exemplos.

Contudo Setúbal permanece à margem do grande movimento urbanístico do barroco, não sendo

conhecidos edifícios de grande monumentalidade arquitectónica e urbanística.

O terramoto de 1755 encontra uma cidade plena: D. João V está aqui em 1711, em 1721

cria-se a Academia Problemática e Obscura de Setúbal, a primeira instituição formal de Cultura,

em Setúbal. As preocupações sobre a identidade sadina estão implícitas desde o início, visto que

os seus membros ou são naturais de Setúbal, ou vivem nela e as reuniões são, igualmente,

apenas nesta vila. Em 1735 o banqueiro alemão Henrique Torlades abre em Setúbal uma

delegação comercial e começa a construir uma doca com a ideia de instalar uma fábrica de

conservas, que nunca chegou a efectuar; em 1753 nasce em Setúbal Luísa Todi.

A devastação provocada pelo terramoto e consequente maremoto foi enorme. Grande

parte das muralhas seiscentistas foram destruídas pelo mar e o fogo subsequente destruiu

grande parte do tecido urbano da vila. Foram sobretudo afectadas as freguesias na zona baixa da

cidade: São Julião, Anunciada, parte de Santa Maria e as Fontainhas em São Sebastião. Escreve

Gregório de Freitas, escrivão da portagem de Setúbal:

 

“ Em o primeiro Sabbado pella menhãa serião nove horas e meia pouco mais ou menos

tremeu a terra e principiando brandamente levantou algua Couza e logo deminuio e

tornando com mais força a levantar e depois a demenuir ate que parou o que tudo seria

hum quarto de hora pouco mais ou menos. Sucedeu que com este terremoto esta terra de

Setuval se aruinou caindo os templos e muitas Cazas por forma que fogindo algua da

gente sucedeu perecerem nas Ruas muitas e nos templos bastantes. Vi que com este

tremor se perturbou toda a gente e receando ser o dia final os maridos procuravão pellas

mulheres, estas por elles, os pais e mais pellos filhos, estes por elles e ellas, os Irmãos

huns pellos outros e no fim tudo era Confuzão e o verdadeiro retrato do Dia do Juizo.”14

 

14 Citado por José Custódio Vieira da Silva, na sua obra Setúbal de 1990.

 

A reconstrução da vila foi ordenada de imediato, em Novembro de 1755. Terá sido feita

por iniciativa dos habitantes, não sendo conhecido qualquer plano de reordenamento e

construção, como havia acontecido com a Baixa Pombalina de Lisboa ou com Vila Real de Santo

António. Nestas circunstâncias, os habitantes reconstruíram a cidade, respeitando certamente o

traçado das ruas, os logradouros e as cérceas. Pouco ou nada se sabe da influência da política

económica pombalina em Setúbal, facto que mereceria só por si, uma pesquisa aprofundada.

 

8. O povoamento de Sesimbra entre os séculos XV e XVII

A partir do século XV, e sobretudo XVI a povoação da Ribeira de Sesimbra sobrepõe-se

em importância ao burgo existente no castelo. No início do século XVI é iniciada a construção da

Casa da Câmara, testemunho da transferência do poder politico para a zona ribeirinha. Durante

todo o período inicial da Expansão, Sesimbra participa activamente como porto contribuindo

quer com embarcações quer com tripulações. Toda a estrutura do castelo e do interior rural é

secundada em detrimento da póvoa ribeirinha e das actividades ligadas ao mar, que as carreiras

para o império condicionavam, desde a construção naval ao abastecimento das frotas.

A comunidade de pessoas ligada ao mar assumiria uma importância significativa já no

século XV. Nos finais deste século temos notícias da edificação do hospital e capela pela Confraria

do Corpo Santo, corporação dos mareantes e pescadores de Sesimbra. As escavações

arqueológicas efectuadas sob o pavimento da actual capela do Espírito Santo dos Mareantes,

entre 1979 e 1981, puseram a descoberto as estruturas de um antigo hospício. Nas paredes

divisórias do mesmo eram ainda visíveis esboços a carvão representando embarcações antigas. A

Confraria do Corpo Santo terá sido uma das primeiras corporações de pescadores, inteiramente

constituída por membros deste grupo e por eles mantida. Tinha como objectivo a prática da

caridade cristã socorrendo os confrades nela filiados. A confraria constituía para os seus

membros uma segurança espiritual mas fundamentalmente de apoio em matéria tão importante

como o auxílio mútuo, nomeadamente perante a morte. Os objectivos das confrarias

permanecem inalteráveis ao longo do tempo, mantendo-se fiéis aos princípios que as originaram.

A riqueza que esta capela e hospital tinham no século XVI, atestada pelas visitações promovidas

pela Ordem de Santiago, mostra a importância socioeconómica atingida pela confraria dos

pescadores. Será interessante verificar também a constituição da Câmara, durante o século XVI,

no sentido de obter informações mais precisas sobre o peso dos pescadores na vida politica de

Sesimbra e do seu termo. Por exemplo, em 1644 encontramos um mareante, Manuel Martins

Franco, como juiz da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

A visitação do Mestre da Ordem de Santiago, D. Jorge, à comenda de Sesimbra em 1511

dá-nos algumas informações sobre o que seria a importância do mar na vila de Sesimbra.

Encontramos a invocação a Santa Maria da Consolação, na Igreja paroquial. Não se tratando de

uma Virgem protectora a priori, mas alguém a quem os familiares dos pescadores recorrem, para

seu conforto, em caso de naufrágio, perda de bens ou na impossibilidade de se poderem fazer ao

mar, a sua existência mostra já a relevância da ligação e das actividade do mar, que Sesimbra

conheceria o século XVI. Um outro aspecto revelado por esta visitação mostra ainda que o

retorno económico gerado pelos trabalhos do mar seria de monta significativa, uma vez que

permitia que todas as alfaias de culto existentes15 estivessem em bom estado, ao contrário do

que sucedia com grande parte das igrejas existentes nas comendas da Ordem de Santiago.

Os mareantes de Sesimbra teriam ainda sido responsáveis pela edificação da Ermida de

São Sebastião, tendo sido visitadas outros edifícios religiosos no termo da Comenda: a ermida de

Santa Ana (localizada em Santana), de fundação muito antiga, perdida na memória dos homens,

que era sustentada pelo concelho; a referida ermida de São Sebastião; e ermida de Santa Maria

do Carmo, restaurada, mas de fundação antiga; a ermida de Nossa Senhora do Cabo, ermida de

muita devoção onde acorrem muitos peregrinos. Foram ainda visitadas as ermidas de São

Lourenço de Azeitão, São Simão de Azeitão e São Pedro de Azeitão, cuja responsabilidade

religiosa cabia ao pároco de Sesimbra.

A nova vila demonstra uma tendência de expansão no espaço da baía, com uma malha

urbana muito característica destas novas povoações do século XVI. A importância da sua costa

marítima e das actividades que a partir dela se geravam significou a construção, ordenada pelo

Rei D. Manuel, de uma fortificação marítima, que tinha como invocação São Valentim. A

destruição provocada pela armada inglesa em 1602, altura em que Portugal estava sob domínio

filipino, desta fortaleza e a construção em seu lugar do actual Forte de Santiago, condiciona a

leitura que podemos fazer desta primitiva fortaleza.

Juntamente com a função defensiva na nova vila encontramos a função religiosa, a

função assistencial e a função administrativa, estando assim cumpridos todos os requisitos para a

existência plena de uma localidade: a Capela e Hospital do Espírito Santo dos Mareantes, a Igreja

Matriz, a Igreja da Misericórdia e os Paços do Concelho são edificados nesta altura. Os eixos que

compõem o traçado urbano da vila de Sesimbra estabelecem uma relação directa com o areal,

local de ancoragem e largada de frotas e de construção naval, duas das mais importantes

actividades históricas da vila. Também a relevância da actividade marítima da pesca tem

influência nesta estruturação da vila ribeirinha. Por exemplo, o início da edificação da Casa da

Câmara indica a aquisição dos terrenos pelo mareante Gonçalo Anes e sua mulher Inês

Gonçalves. Um aspecto específico da costa de Sesimbra é a existência ao longo das suas enseadas

de construções de pedra, calhaus de armação, que serviam de apoio à actividade piscatória. No

século XVI a população de Sesimbra contaria com 450 vizinhos ou moradores, ou seja, uma

comunidade com 2.250 habitantes, apresentando um aumento populacional na ordem dos 25,3%

até 1527, altura que foi realizado o levantamento populacional do Reino.16

15 As alfaias litúrgicas e o edifício em si eram tratados e zelados pela comunidades de mareantes existente em Sesimbra.

Tal como em Setúbal a ausência de uma arquitectura monumental poder-se-á explicar

pela constituição social da sua população: uma grande massa de gente ligada aos trabalhos do

mar, sobretudo à pesca e depois ao apoio logístico das grandes frotas que partem para os

Descobrimentos, e alguma burguesia que promove a construção de alguns edifícios mais

expressivos, com ênfase sobretudo na sua decoração interior: a Igreja Paroquial de Santiago,

edificada no século XVI (1536) apresenta uma estrutura arquitectónica típica do segundo quartel

do século XVI, concebida dentro de um espírito tardo – gótico em que as pinturas das colunas

quinhentistas, a policromia dos azulejos e a talha barroca, conferem ao interior da igreja grande

unidade artística. Esta igreja testemunha ainda a consagração do núcleo ribeirinho de Sesimbra:

em 1536 esta Igreja abre ao culto, no mesmo ano em que é criada a freguesia da Ribeira, por

ordem de D. Manuel I. Finalmente em 1538 ocorrem as últimas vereações de Câmara na casa das

vereações do Castelo, situado no topo da colina.

Durante o século XVI Sesimbra manterá uma duplicidade na sua estrutura económica: por

um lado a exploração dos recursos marítimos permitia o desenvolvimento de uma classe que

gerava suficiente riqueza para manter em bom estado os edifícios religiosos; por outro lado a

manutenção, sobretudo no termo de Sesimbra (Azóia, Azeitão, Alfarim) de uma actividade

marcadamente agrícola que originava admoestações por parte do prior de Sesimbra, proibindo o

trabalho ao domingo antes da missa, “nas vinhas ou nos pomares”. Este sistema de produção

económica manter-se-á durante toda a Idade Moderna.

Com a crise de 1580 e a perda da independência, a vila começa a decair com a falta de

homens e sobretudo com os ataques de piratas. Sesimbra não possuía a riqueza de sal como na

sua vizinha Setúbal, que lhe garantia a protecção regiam, mesmo durante o período filipino. Os

conflitos entre o governo filipino as demais potências europeias estão bem patentes por exemplo

na destruição do Forte de São Valentim, ou da Marinha por uma armada inglesa em 1602. O

reconhecimento da importância de Sesimbra só adveio com a Restauração de 1640. Nesta altura

Sesimbra recuperou a sua posição enquanto fronteira marítima, devido à acção do rei D. João IV,

que ordenou a reedificação de uma linha de fortificações costeiras: a fortaleza de Santiago e os

fortes de S. Teodósio, S. Domingos, Nossa Senhora do Cabo e S. Pedro. Conjuntamente com os

fortes existentes ao longo da costa da Arrábida e com as fortificações em Setúbal, esta linha tinha

condições para, no final do século XVII, interditar a aproximação de forças inimigas que

ameaçassem a segurança de terra. No entanto, esta linha não foi suficiente para dissuadir os

ataques marítimos, em particular dos corsários berberes, como sucedeu em 1665 e

1721.Também o castelo de Sesimbra conheceu obras de adaptação ao sistema abaluartado com

a construção de quatro baluartes destinados a proteger a aproximação por terra.

16 COLAÇO, João Telo Magalhães, – Cadastro da População do Reino (1527), in “Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Ano II, 1934, p. 101.

O Forte de Santiago, em Sesimbra, é sem dúvida o elemento estruturador do urbanismo

da vila de Sesimbra. Em 1702 a fortaleza é artilhada e em 1712 está aqui instalada a sede do

governo militar. Foi ainda utilizada como balneário para os filhos bastardos de D. João V,

conhecidos como os “Meninos da Palhavã” e também, por diversas vezes, de cidadela real. Ao

forte de Santiago subordinavam-se as defesas costeiras inclusive o Forte de Santiago do Outão, o

Forte de Santa Maria da Arrábida, o Forte de São Teodósio da Ponta do Cavalo e o Forte de São

Domingos da Baralha.

Durante o século XVIII ocorre um conjunto significativo de situações que vão ter reflexo

nos termos de Sesimbra. Assim, nesta época as terras pertencentes ao termo de Sesimbra

deixam de pertencer aos Duques de Aveiro, últimos representantes da Ordem Militar de

Santiago. 17

A ligação histórica entre a casa de Aveiro e a região de Sesimbra e Setúbal é intensa e

marcada por uma intervenção na paisagem construída desta região. Pertenciam à casa de Aveiro

alguns dos mais importantes exemplares construídos na região como o Palácio dos Duques de

Aveiro em Setúbal, possivelmente a única estrutura com carácter monumental que se encontrava

na cidade, ou ainda o Palácio dos Duques de Aveiro em Azeitão. É também da responsabilidade

do 1º Duque de Aveiro a construção do Convento da Arrábida. Defronte da lapa de Santa

Margarida, na Arrábida, existe um Penedo sobre o qual D. Álvaro de Lencastre, Duque de Aveiro,

passava horas nas suas pescarias, ficando assim conhecido como o Penedo do Duque. È no seu

palácio de Azeitão que é preso D. José de Mascarenhas e sua família, 8º duque de Aveiro.

Durante a vigência do Ministério de Sebastião José Carvalho e Melo, polarizaram-se em torno do

Duque de Aveiro os desagrados dos nobres face às políticas impostas pelo Ministro de D. José,

tendentes ao controlo dos poderes das famílias nobres. Em 1758 ocorre um acidente que envolve

o rei D. José e que é divulgado como tendo sido um plano de conspiração, encabeçado pelo

Duque de Aveiro, para a morte de rei e sua consequente subida ao trono. Esta manobra tem o

seu final no conhecido Processo dos Távoras, que levou á extinção para sempre dos títulos de

Duque de Aveiro e Marquês de Távora.

A sentença, de 1759, ordenava a confiscação de todos os bens, que as armas fossem

derribadas e picadas em todos os lugares onde estivessem colocadas, e as casas de residência

demolidas a arrasadas de sorte que delas não restassem vestígios, sendo reduzidas a campo e

salgado. Contrariamente aos outros imóveis da família, o paço de Azeitão não foi derrubado, nem

o seu chão salgado, aquando da execução.

17 O 1º Duque de Aveiro, D. João de Lencastre, filho de D. Jorge de Lencastre, Mestre da Ordem de Santiago foi detentor de um vasto Património na zona da Península de Setúbal.

A partir desta data as terras do termo de Sesimbra passam para a posse da tutela real,

repartindo-se ainda o concelho, sobretudo na zona de Azeitão. O mesmo acontece com o poder

judicial, que transita para outras comarcas até às crenças religiosas e património da Ordem, que

passam directamente para as paróquias.

O terramoto de 1755 provocou uma grande extensão de danos em todo o termo de

Sesimbra. As notícias existentes referem um grande número de edifícios derrubados e um grande

n.º de mortos. Durante todo o século são grandes os testemunhos de um certo abandono das

instituições do termo: por exemplo em 1739 é dada ordem de entaipamento do Hospital do

Corpo Santo, devido ás condições de abandono de edifício, agravadas ainda mais após o

terramoto.

 

7. Setúbal nos séculos XIX-XX e o arranque da indústria conserveira e das actividades turísticas

A primeira metade do século XIX conhece na região importantes acontecimentos político militares:

as invasões franceses (Setúbal foi entre 20 de Dezembro de 1807 e 01 de Fevereiro de

1808, a capital do principado de Godoy); as lutas liberais e a guerra civil da Patuleia. Estes três

acontecimentos vão conduzir a uma ruína económica, social e populacional que será agravada

por epidemias em meados do século.

Só com o advento da Regeneração é que se estabelecem de novo condições para um

crescimento económico, com uma campanha de melhoramentos a vários níveis. Estes

melhoramentos traduzem-se por exemplo numa campanha de Obras Públicas que incluía

reformulação de artérias, iluminação pública, escolas, entre outros.18

O crescimento económico do final do século XIX, vai assentar na região em estudo,

sobretudo no desenvolvimento, na segunda metade do século XIX, da indústria conserveira e das

pescas.

A indústria conserveira arrancou em Setúbal em 1880, graças ao impulso de capitais

franceses, numa altura em que no país se fomentava a industrialização em vários sectores, entre

os quais o da alimentação. Embora existam experiências conserveiras anteriores, como por

exemplo a fábrica de enlatados de peixe em azeite de Manuel José Neto, que terá funcionado

entre 1865-1870, 1880 é a data de introdução da técnica francesa de cozer peixe em água.19

Setúbal para além de possuir, nas suas águas, grande abundância de sardinha, oferecia

outras condições como a abundância de mão de obra feminina, a existência de um porto e de

uma frota piscatória relativamente importante, sem falar da sua proximidade com a capital,

facilitada com a ligação a Lisboa pelo caminho-de-ferro, inaugurada em 1861. Esta indústria

caracterizava-se por um crescimento desmesurado e pela utilização de processos de produção

muito rudimentares e artesanais. Além disso eram fábricas de pequenas dimensões pulverizadas

pelas localidades mais importantes, Sesimbra e Setúbal. Ocupavam grandes contingentes de

mão-de-obra, que veio a ter um reflexo imenso no crescimento demográfico da Península de

Setúbal. Em Setúbal o ciclo do sal foi definitivamente encerrado pelo ciclo conserveiro.

18 Em Setúbal é promovida a construção da Avenida Luisa Todi, roubada ao rio; melhoramento do porto; criação do Liceu; ligação ferroviárias ao Pinhal Novo – Barreiro; construção do Parque das Escolas e arranjo do Campo do Bonfim; iluminação a gás; construção do Mercado do Livramento, etc.

19 A técnica utilizada nas instalações que funcionaram entre os anos 60 e 70 era a de cozer o peixe no forno, facto que não impediu que, em 1877, as conservas de Setúbal fossem premiadas em exposição internacional

Até aos anos 20 do século XX a evolução do n.º de fábricas, em Setúbal, foi a seguinte:

em 1897 – 26 fábricas; em 1906 – 35 20; em 1912 – 42; em 1915 – 46 e em 1916, 55 fábricas. Por

volta de 1920, Setúbal deve ter atingido o n.º máximo de fábricas – 130 – com uma população

operária avaliada em cerca de 10 000. Em Sesimbra, em 1917, existiam 8 fábricas conserveiras

que empregavam cerca de 500 pessoas.21

Todo este conjunto de actividades geradoras de emprego (indústria conserveira e

indústrias subsidiárias) fez acorrer à região numerosa população de outras zonas do país, o que

significou que em Setúbal a população quase que triplicou entre 1890 e 1930 22.

 

20 Segundo o Boletim do Trabalho Industrial, n.º 2, Lisboa, 1906, as 35 Fábricas de Conserva da Sardinha, existentes em Setúbal, eram assim designadas e localizadas:

Zona Ocidental

José Casimiro Sant’Anna Estrada da Rasca

Eduardo Fernando Barbosa Estrada da Rasca

Costa e C.ª Estrada da Rasca

R. Beziers e C.ª Estrada da Rasca

Santarém Ramos e C.ª Estrada da Rasca

G. Chibert e C.ª Estrada da Rasca

Societé Parisiense Estrada da Rasca

Ferreira Mariz e C.ª Estrada da Rasca

Santarém Ramos e C.ª (2ª fábrica) Saboaria

António Azedo e C.ª Saboaria

Ferreira Mariz e C.ª (2ª fábrica) Saboaria

José Alves de Andrade Piteira Saboaria

F. Ferreira Mariz Alto da Brasileira

Zona Central

Viúva Costa e Carvalho Doca

F. Delory Doca

P. Chancerelle Doca

F. Garrec e C.ª Doca

F. Rouillet Ponte do Carmo

Carvalho e C.ª Ponte do Carmo

J. Marques Câncio e C.ª Rua Oriental do Mercado

Alves e Fragoso Rua Oriental do Mercado

Viúva Macieira Rua Oriental do Mercado

Firmin Julien Rua Oriental do Mercado

Mendanha e C.ª Rua do Mercado Pedro

Callé e C.ª Rua do Mercado

Zona Oriental

Vítor Tetrais e C.ª Fontainhas

Mariano Lopes e C.ª Fontainhas

Santos Cunha e C.ª Fontainhas

Viúva Luís Branco Fontainhas

Costa Benzinhos e Ribeiros Ladeira de S. Sebastião

Branco Miguel e Rochas Fontainhas

António Ascensão e C.ª Fontainhas

Henrique António Vidal Claro Estrada da Barroca

Fragata Santos e C.ª Estrada da Barroca

Francisco José Pereira Ladeira de S. Sebastião

21 “(…) as fábricas de Sesimbra não passavam, em regra, de filiais das de Setúbal (…)”, VALENTE, Vasco Pulido, Os conserveiros de Setúbal (1887-1901)”, in Análise Social, vol. XVII (67-68), 1981-3.º-4. °, 615-678.

22 Evolução demográfica entre 1890 e 1930:

 

Este aumento demográfico acarretou alterações no urbanismo das localidades: em

Setúbal os novos contingentes demográficos instalam-se sobretudo nas freguesias de São

Sebastião e Anunciada. Na Anunciada erguem-se as vilas operárias no final do século XIX e inícios

do século XX como é o caso da Villa Montalvo (1909). Também aqui surgem as pequenas

moradias já dos inícios do século XX, da tradição Arte Nova. Esta acelerada expansão urbana não

obedeceu, contudo, a qualquer plano urbanístico, à excepção do bairro Salgado, em Setúbal,

habitado por uma pequena e média burguesia, e do arranjo urbanístico da antiga R. de São

Caetano, hoje Av. Dos Combatentes da Grande Guerra.

As fábricas implantavam-se de forma desordenada e anacrónica. As unidades fabris

encontravam-se espalhadas pela cidade, paredes-meias com a habitação, a maior parte delas em

condições deficientes de funcionamento, sem possibilidades de expansão e com acessos difíceis.

Em Sesimbra, por exemplo, relacionado directamente com a indústria da pesca, verifica-se que

na cidade os edifícios possuem dois pisos, sendo os pisos térreos utilizados como armazéns de

pesca, denominados “lojas de companha”, onde se preparam cada viagem ao mar e muito

possivelmente também o pescado.

Contudo a indústria conserveira começa a dar sinais de crise, acompanhada pela situação

difícil que vive o sector da pesca. Consegue ainda aguentar-se durante a II Guerra Mundial, mas

após o fim desta, a região, muito dependente das suas fábricas de peixe entra em período de

declínio económico, acompanhado pela estagnação social. A entrada em laboração das fábricas

de cimento (sobretudo a partir de 1925 com a Secil) e da Sapec (1926) e a construção do porto de

Setúbal (1929/33) não alteraram o carácter mono-industrial de Setúbal, revelando contudo as

grandes potencialidades que Setúbal desfrutava para se afirmar como cidade e região no

contexto da economia nacional.23

Relativamente ao clima social, todo este período foi marcado por numerosos e graves

(alguns deles) conflitos verificados a nível das relações de trabalho. Desde muito cedo, as ideias

revolucionárias e anarco-sindicalistas encontraram aqui muitos adeptos que as propagaram

através da imprensa e de organizações associativas sindicais e partidárias. Em Sesimbra, no ano

de 1897 assistiu-se a uma grande actividade sindicalista e política por parte dos trabalhadores:

pescadores, operários, e de outras profissões. Nessa altura já existiam em Sesimbra quatro

associações de classe, ou sindicatos: dos Lojistas, dos Operários Marítimos das Armações de

Pesca, dos Soldadores das fábricas de conservas, e uma englobando ofícios vários. Em 1858 a

antiga corporação quinhentista dos Mareantes passa a ser designada por Associação de Socorros

Mútuos Marítima e Terrestre da Vila de Sesimbra. Em Setúbal existiam as Associações de Classe

dos Conserveiros, Corticeiros, Trabalhadores do Mar, Soldadores e Fabricantes de Calçado.24

 

1890 – 16 986 habitantes; 1900 – 21 722 habitantes; 1911 – 27 962 habitantes; 1920 – 37 002 habitantes; 1930 – 46 342 habitantes.

23 A localização das fábricas do Outão e da Sapec no extremo Oeste e Leste, respectivamente, não constituiu alternativa à crise de desemprego que grassava na cidade, embora revelasse já a importância de Setúbal como cidade e região, facto que a criação do distrito administrativo de Setúbal (1926) veio consagrar.

 

A única excepção a este cenário de “cidade de província congelada” é trazida pela cultura

dos laranjais, agrupados em quintas ao longo das terras de muito boa qualidade que formam a

várzea a Norte de Setúbal. Aliás um dos mais importantes eixos de desenvolvimento económico

verificado durante o século XIX foi o do incremento da actividade agrícola: os produtos agrícolas

produzidos na região adquirem uma enorme expressão nacional sobretudo as laranjas e o vinho

moscatel produzido na região de Setúbal. A grande propriedade que persistiu até ao liberalismo

nas mãos das ordens religiosas e de membros da Casa Real com significativa expressão na

Península de Setúbal (de Sesimbra a Canha), prevaleceu em grande medida porque se inseria

estrategicamente numa área de fornecimento energético a Lisboa, aproveitando o custo barato

do transporte fluvial. Por isso, a Península de Setúbal será ainda na 2ª metade do século XIX uma

das frentes de colonização interna: povoamento por contratos enfitêuticos para colonos

(caramelos e ratinhos) que vinham do centro do País e que permitiram a implantação das

grandes extensões de vinha, cuja produção se orientava para França, a compensar a grande

queda da produção deste país, assolado pela praga da filoxera.

Na zona da Península de Tróia, por exemplo, surge a cultura do arroz, que se tornou

desde a viragem para o século XX na cultura dominante, quase exclusiva desta região. Este facto

contribuiu para que se fosse fixando alguma população nestas localidades não obstante a

sazonalidade endémica. Em 1836 a Herdade da Comporta é incorporada na nova Companhia das

Lezírias do Tejo e do Sado, propriedade pertencente à Coroa Portuguesa, que a vende em 1925 à

empresa britânica The Atlantic Company, Ltd. Aqui se erguem armazéns, depósitos, oficinas, as

primeiras casas de quem administrava e de quem dirigia a operação. Os trabalhadores do arroz

vinham de várias regiões do país e aqui se foram fixando mantendo-se em precárias cabanas de

troncos e colmo Foi só nos anos sessenta que a Companhia começou a construir um bairro,

propriedade sua, que substituísse as cabanas.

A construção do moderno porto de Setúbal veio trazer uma nova dinâmica à região.

Apesar de já existirem obras portuárias em Setúbal desde 1793, só em 1930 são adjudicadas as

obras de construção do que viria a ser o Porto de Setúbal. O primeiro projecto de obras de 1793

correspondia a uma doca ou caldeira, projectada pelo coronel Chermont, cujo objectivo principal

era o de dar abrigo a pequenas embarcações. Esta aportagem estava localizada entre os

baluartes do Livramento e da Conceição. Em 1836, 43 anos após a edificação da pequena doca

(cujos contornos deverão ser melhor estabelecidos), a Câmara Municipal de Setúbal atribui a um

particular a concessão da construção da primeira doca, localizada junto à foz da Ribeira do

Livramento, a designada Doca Delpeut. Esta doca constituiu durante um século o único abrigo de

que o porto dispunha para pequenas embarcações.

24 De acordo com o Inquérito feito pela Direcção Geral do Comércio e Industria em 1908.

Em Dezembro de 1923 era criada a Junta Autónoma das Obras do Porto e Barra de

Setúbal e do Rio Sado, no seguimento de um reconhecimento da necessidade de criação de um

organismo próprio para a execução das obras do porto. As obras do porto foram adjudicadas em

27 de Junho de 1930 à Hojgaard & Schultz, de Copenhaga, com a colaboração para os trabalhos

de dragagem da Van den Bosch & De Vries, de Ultrecht.O lançamento da primeira pedra realizouse

em cerimónia solene a 28 de Julho de 1930, aproveitando a visita do Presidente da República e

de membros do governo, por ocasião da Exposição Regional do distrito e da inauguração da luz

eléctrica na cidade.

 

O programa da 1ª fase de obras, que decorreu entre 1930 e 1934 previa as

seguintes acções:

• Regularização da margem direita do rio, numa extensão de 4 km, entre a Vila Maria e

Albarquel;

• Construção de 2.170 metros de taludes empedrados, destinados a pequenas

embarcações;

• Aterro da antiga Doca Delpeut e prolongamento da cobertura da Ribeira do

Livramento;

• Execução de terraplenos numa área total de 600.000 m2;

• A construção de três docas destinadas ao apoio da pesca, do recreio e do comércio.

As obras incluíram ainda a construção de seis estacadas acostáveis:

• Estacada 1 – Estacada do Carvão, situada a poente da Doca de Pesca, com 60m de

comprimento e 18 pés de calado;

• Estacada 2 – Estacada da Lota, localizada a nascente da Doca de Pesca, destinada à

acostagem de barcos de pesca, com 120m de comprimento e 18 pés de calado;

• Estacada 3 – Estacada das Conservas, situada a poente da Doca de Comércio, dedicada

ao comércio relativo à indústria de conservas e outras mercadorias, com 130m de comprimento e

25 pés de calado;

• Estacada 4 – Estacada do Comércio, situada a nascente da Doca de Comércio, dedicada

ao tráfego geral, servida por um ramal de via-férrea, com 60m de comprimento e 19 pés de

calado;

• Estacadas 5 e 6, localizadas no interior da Doca de Comércio.

 

Nas décadas seguintes, o porto foi alvo de outras obras e melhoramentos, tendo condicionado a

zona marginal de Setúbal irremediavelmente.

Mas talvez a mais importante alteração relativamente à ligação da região com o mar

tenha sido a vilegiatura marítima que se implantou em Portugal e desenvolveu a partir do século

XIX. Entendamos a vilegiatura marítima associada ao desenvolvimento do turismo.

No final do século XIX, Setúbal era um destino de férias, motivado por condições

climáticas e pelas suas excelentes praias, recomendado pela medicina e pelos publicistas: em

1875 e 1876 Ramalho Ortigão nas suas obras Banhos de Caldas e Águas Minerais e As Praias de

Portugal, sugere alguns sítios saudáveis ligados com a costa. Ao longo da segunda metade do

século XIX, a beira-mar constitui-se como um lugar de lazer para a burguesia urbana. A partir de

então, o progresso impõe as suas marcas sobre o espaço e, à medida que se desenvolve a

actividade piscatória e se vão povoando os cordões dunares que defendem o litoral, os

contrastes acentuam-se enormemente: nas praias de melhor acessibilidade, mais frequentadas

pelos banhistas vindos das grandes vilas e cidades do interior, surgem hotéis, cafés, salões de

baile e casas de jogo; noutros locais inicia-se a construção de palheiros “de luxo” que se alugam

aos veraneantes, nalguns casos com múltiplas divisões, dois pisos, grandes varandins e escadarias

exteriores.

Câmara Reis, escrevia na Ilustração Portuguesa em Junho de 1918 que “Um momento

supôs-se que, desde Setúbal até ao Portinho da Arrábida, se estenderia, em poucos anos, uma

linha de construções marginais, chalets de luxo e vivendas formosas, em volta das quais iriam

tomando vulto povoações de recreio e de repouso. Viriam a finança e a aristocracia semear o seu

ouro fecundo, transformando a encosta inútil em uma admirável estação marítima, que só teria

rivais na margem do Tejo, de Lisboa a Cascais, e na margem do Douro, do Porto a Leça da

Palmeira.”

O exemplar mais conseguido, e talvez único desta estratégia é o Palacete da Comenda,

localizado a oeste da cidade de Setúbal, mandado construir pelo representante da França em

Portugal, o Conde Armand, e projectado por outro arquitecto português de renome, Raul Lino.

Encontramos alguns edifícios também na praia do Portinho ou ainda em Albarquel.

Em 1926 a praia de Tróia funcionava como lugar balnear para crianças. As pessoas

deslocavam-se com as suas merendas e, por vezes, compravam frutas, refrigerantes nas

pequenas barracas existentes ao longo da praia até à costa.

Em 25 de Maio de 1930 escrevia assim o Cezimbrense: “Possui Cezimbra uma soberba

praia de banhos, pela limpidez das suas águas, mas os banhistas preferem passar a época

calmosa em outras praias, por desconhecerem o valor da nossa terra como estância balnear, e,

ainda, pela circustância de falta de alojamentos. Com uma intensa propaganda se pode conseguir

que, este ano, a nossa praia passe a ser frequentada, se os habitantes de Cezimbra seguirem o

exemplo dos habitantes das praias da Nazaré, Ericeira, Matosinhos, etc., dispensando durante a

época balnear as suas residências, ou parte delas, aos banhistas, proporcionando-lhes assim certa

economia nas suas deslocações. Com os meios de comunicação que hoje possuímos entre

Cezimbra e Cacilhas, servidos por excelentes ‘auto-cars’, só carecemos de garantir aos forasteiros

as comodidades de que eles possam carecer e que facilmente encontram da parte das povoações

das outras praias”. Não havia chegado ainda a Sesimbra todo o fulgor da estância balnear25 que

se concretizaria na década de 60 do século XX.

25 E Setembro de 1930, foi fundado o Clube Naval de Sesimbra, como centro de pesca desportiva e de desportos náuticos, capaz de dinamizar o turismo da vila.

 

 

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