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Maria da Conceição Quintas • Parte 2


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SETÚBAL
ECONOMIA, SOCIEDADE E CULTURA OPERÁRIA
1880-1930

Publicamos em vários posts o Capítulo II – INDUSTRIALIZAÇÃO – CONSERVAÇÃO DO PEIXE do livro SETÚBAL ECONOMIA, SOCIEDADE E CULTURA OPERÁRIA 1880-1930, de Maria da Conceição Quintas.

 3 -Papel do núcleo setubalense

Maria da Conceição Quintas
Professora na Universidade Moderna
m.c.quintas@mail.telepac.pt

 

Papel do núcleo setubalense

“Favorecidos pela Natureza, pela abundância e continuidade da pesca, estava-nos destinado o lugar de maior centro de produção, e hoje [1912], que uma fábrica de França não ultrapassa na produção de um ano 9 000 caixas de 100 latas, em Setúbal temos muitas fábricas que atingem 30 000, 40 000 e até 50 000, sendo para notar que existem actualmente nesta cidade 42 fábricas de conservas de sardinha em azeite, e todas têm uma produção entre 15 e 30 000 caixas, destacando-se algumas com cifras muito superiores”.

A falta de pesca em França, conjuntamente com a aversão que os pescadores na Bretanha tinham a novos aparelhos já há muito usados em Portugal e Espanha, fez diminuir consideravelmente a produção francesa, situação que, aliada ao declínio das empresas espanholas (Vigo), em virtude das grandes crises naquela região e ao aumento considerável da sardinha nas águas portuguesas, fez proliferar a indústria de conservas de peixe em Portugal e especialmente em Setúbal, onde se encontrava o maior número de empresas deste sector económico, como atrás referimos.

No Inquérito Industrial referente ao ano de 1890, encontram-se mencionados 13 estabelecimentos produtores de conservas alimentícias, das quais 11 são especificadas como “conserva de sardinha” e duas como “conserva de peixe”, que produziram, no total, mais de 106 000 caixas (algumas informam que são caixas de 100 latas, outras não, pelo que se infere pela generalização deste número que, assim, rondaria os 1 272 000 kg), pois duas não indicam a produção, que ultrapassavam muitíssimo os 2 610 900$000 réis, uma vez que 5 não forneceram elementos sobre a importância total das verbas obtidas nas vendas realizadas.

Os principais consumidores foram a França, a Inglaterra, a Holanda, o Brasil, a Alemanha, a América do Norte e as colónias.

A proliferação de fábricas, assim como o aumento sistemático da quantidade de produto exportado para vários países, fez com que os fabricantes nacionais reclamassem do Governo legislação que os protegesse, à semelhança do que se passara em França, como mencionava a Associação Comercial e Industrial de Setúbal no seu primeiro boletim, datado de 31 de Janeiro de 1912:

“Depois de dois anos de diligências, os fabricantes franceses conseguiram do seu Governo a promulgação do decreto de 11 de Julho de 1906, proibindo a entrada em França e suas colónias, a todas as latas de conservas de sardinhas, que não tivessem em uma das partes brancas do fundo ou tampo, gravado em caracteres de pelo menos 4 milímetros, o nome do país de origem.

É curioso que os industriais franceses com aquele pedido – que foi atendido – , aliás muito patriótico, longe de prejudicarem os portugueses ainda lhes prestaram um óptimo serviço. Por falta de solidariedade e amedrontados por alguns comissários que só tinham em mira os seus interesses pessoais, os fabricantes portugueses não tinham nunca sabido evitar o crime que aqui se praticava com a sua própria cumplicidade.

Fabricando-se em Setúbal, em todas as épocas de peixe próprio, todas as qualidades, desde a mais fina até à mais ordinária, é bom saber-se que as melhores qualidades eram empacotadas em latas com os dizeres: Nantes – France, Lorient – France, Concarneau – France, Bordeaux – France, etc. etc., enquanto que, as qualidades ordinárias e até ordinaríssimas, que se faziam, eram expedidas em latas com os dizeres Setúbal – Portugal, e algumas vezes até levavam um nome que indicava o fabricante.

Nestas tristes condições não havia que estranhar o descrédito em todo o mundo das conservas de Setúbal.

Deste descrédito se queixavam todos os nossos entrevistados, cujo passado esteve ligado à indústria conserveira que, segundo Manuel Veiga, atingira o ponto máximo de degradação na segunda década de novecentos, quando “fabriquetas”, sem quaisquer condições ou credibilidade, “metiam pedras nas latas, em vez de sardinhas”, provocando a depreciação do produto proveniente das fábricas setubalenses.

A lei francesa, ao obrigar a colocação da nacionalidade de origem no fundo da lata, fazia com que tanto os produtos de qualidade inferior como os mais apreciados ficassem conotados com os industriais que os produziam.

 

A importância da indústria de conservas de peixe em Setúbal revelava-se pelo volume da produção e pelo seu valor alfandegário.

Em 1911 este foi de 10 880 832 quilos no valor de 979 274$880 réis, o que equivale a 90 réis o quilo. A produção desta indústria rondava os 2 000 contos de réis anuais na segunda década do século.

Então, as fábricas de Setúbal empregavam mais de 4 000 trabalhadores, dos quais destacamos 900 soldadores, 400 moços, 2 500 mulheres e 250 rapazes, cujo salário total ultrapassava 500 000$000 réis anuais, numa média de 800 réis para os soldadores, 550 para os moços, 160 para as mulheres e 240 para os rapazes.

Em 1912 os portugueses eram os maiores produtores de conserva de sardinha, possuindo, com a França, o regime de pauta mínima, de 50 a 25 francos de direitos por cada 100 quilos.

Mas os industriais franceses e alemães tentavam alterar a posição, até então de privilégio para os portugueses, propondo aos seus Governos a alteração das leis que tal permitiam, criando novos projectos de trabalho e de publicidade, facto que levou a Associação Comercial e Industrial de Setúbal a alertar o Governo português, numa tentativa de salvaguardar o mercado das conservas de peixe portuguesas. Para tal considerava urgente a entrada num novo ciclo de transformação fabril, capaz de garantir maior êxito na concorrência comercial e maior bem estar para os trabalhadores.

A iniciá-lo, deveria o Governo português fazer publicar uma lei que obrigasse o industrial fabricante de conservas a gravar em todas as latas a origem da conserva e o nome do fabricante. Assim, saber-se-ia internacionalmente que a maior parte das sardinhas que até então eram compradas com rótulos de outras proveniências, onde este peixe existia em pouca quantidade, eram de origem portuguesa, facto que elevaria Portugal ao seu real lugar de primeiro produtor de sardinhas em conserva das melhores qualidades, produzidas essencialmente em Setúbal.

Esta lei, a ser publicada, evitaria que os fabricantes portugueses continuassem a estar à mercê de comerciantes ou industriais menos escrupulosos, que exportavam as sardinhas produzidas em Portugal em latas das suas melhores marcas com rótulos estrangeiros, deixando as de menor qualidade reservadas às marcas portuguesas.

Esta determinação seria o melhor incentivo para o aperfeiçoamento técnico das industrias nacionais, tanto no processo de fabricação da conserva como ainda no embelezamento da embalagem, através da criação na área da litografia e vazio.

A Associação Comercial e Industrial de Setúbal considerava também de extrema importância que, em Portugal, se seguissem as determinações saídas do Congresso de Nantes, realizado no dia 9 de Fevereiro de 1912 na Union des Syndicats. Além da identificação da nacionalidade de origem das conservas, estas deliberações exigiam a indicação da espécie (sardinha), pois havia países que utilizavam o nome deste peixe em latas de “sprat, arenque, boqueirão, chicharro, etc.”.

Portugal e, especialmente Setúbal, lucraria muito se o Governo português decidisse secundar os fabricantes franceses na campanha de identificação dos produtos exportados.

Em Maio de 1912, Setúbal exportou para os vários países seus clientes um total de 56 305 caixas de sardinha em conserva, que pesavam 1 036 118 quilos. O principal importador foi Hamburgo, que consumiu 264 175 quilos desta mercadoria.

Em Julho de 1912, a Associação Comercial de Lisboa, consciente dos prejuízos que adviriam para a indústria de conservas de peixe, pelo facto de não ter sido ainda exigida, por lei, a identificação da nacionalidade de origem dos produtos conservados, tal como o conteúdo das latas, contactou a sua congénere setubalense para, em conjunto, tentarem resolver o problema que estava a afectar o mercado externo português.

Os fabricantes setubalenses responderam prontamente à solicitação feita, reunindo-se para decidir sobre a sua actuação no processo nacional. Por deliberação da assembleia geral, foi pedida, a todos os fabricantes de Setúbal, opinião por escrito. A resposta foi positiva na sua quase totalidade.

Mas, ao que parece, o problema não foi resolvido, pois num texto produzido em 1935, após realização de análises ao óleo utilizado nas conservas de sardinha, encontramos referência aos valores obtidos para os índices de iodo na “sardinha Clupea Pilchardus”, na “sardinha Clupea Spratus” e na “sardinha Clupea harengus”.

Em 1912 Setúbal possuía 42 fábricas de conserva (número igual ao que se verificava em 1949). Então, no país havia, ao todo, 106 empresas. Os proprietários das 42 fábricas eram em número de 110, empregando-se todos na direcção das respectivas casas.

Em 1913 existiam 44 fábricas e, em 1914, 46. A Primeira Grande Guerra criou novas necessidades de produtos enlatados, facto que fez com que proliferassem em Setúbal as empresas produtoras de conservas de sardinha.

Assim, em 1916 havia 55 estabelecimentos reconhecidos, para além de pólos de fabricação acidental, instalados até em barcos, de que apenas encontramos notícia em alguns jornais ou, muito especialmente, através de testemunhos orais.

Em 1920 Setúbal atingiu o número máximo de fábricas – 130. O país tinha, em 1922, 289 estabelecimentos deste tipo.

Em 1924 Portugal contava com 400, o número mais alto que em qualquer tempo se verificou.

Em 1934 existiam apenas 203 empresas a nível nacional, tendo Setúbal descido para 68. Mas, segundo Guilherme Faria, a indústria de conservas estava a ser organizada e a capacidade teórica de produção do país era, nessa altura, de 5 886 257 caixas (à base do formato de 1/4 de club) enquanto que a de Setúbal era de 2 032 765 caixas.

No que se refere à exportação, verificamos que em 1900 Setúbal vendeu 5000 toneladas, valor que correspondia a 47,6% do produto nacional exportado.

No primeiro quinquénio do século esta soma passou a 6 500 toneladas (47,9% do total nacional) e nos anos de 1906 a 1920, Setúbal manteve uma exportação média anual de, aproximadamente, 10 000 toneladas.

Entre 1921 e 1935 a média anual da exportação foi de 13 000 toneladas no primeiro quinquénio e de 16 000 toneladas no segundo e no terceiro. Se tivermos em conta a média geral das exportações realizadas nos primeiros 48 anos do século, verificamos que a média anual em Setúbal foi de 11 356 toneladas, o que corresponde a cerca de 570 000 caixas, sendo a média da exportação total do país de 32 200 toneladas, correspondendo sensivelmente a 1 600 000 caixas. Neste contexto, a mercadoria vendida pelos industriais setubalenses representa 35,2 % do total nacional.

A necessidade de alimentos em conserva, que a Guerra provocara, favoreceu o aumento da produção no aglomerado urbano de Setúbal, situação que proporcionou emprego a um maior número de pessoas, de ambos os sexos e de vários níveis etários, na indústria conserveira.

Quando em 1920 as fábricas eram 130, o pessoal que nelas trabalhava rondava os 10 000 indivíduos, entre homens, mulheres e rapazes. Na pesca, só da sardinha, empregavam-se, por essa época, umas 2 500 pessoas (o número total de pescadores rondava os 3 800)

E, em 1925, Setúbal atingiu o maior volume de exportação de todos os tempos – 19 500 toneladas, correspondentes a cerca de um milhão de caixas.

Mas, nesta mesma década, a indústria de conservas de Setúbal começou a mostrar os primeiros sinais de cansaço, resultantes da hipertrofia que atingira. O número de fábricas decresceu, enquanto que, no país, ainda aumentou, atingindo o seu máximo (400 fábricas) em 1924. Neste ano iniciou-se a crise das conservas em Portugal, independentemente da grande exportação realizada em 1923 e 1924, ou talvez melhor dizendo, em íntima relação com essa exportação, dada a concorrência indisciplinada que se assinalava neste ramo de trabalho nacional.

Os clamores das dificuldades haviam de concretizar-se no I Congresso Nacional da Pesca e das Conservas, realizado em Setúbal em 1927, do qual saíram as principais sugestões que de algum modo constituíram a base da indústria, em 1932. Setúbal, em 1928, possuía apenas 63 fábricas de conservas de peixe. A actividade piscatória continuava, no entanto, em pleno desenvolvimento.

Em 1924 tinham desaparecido os últimos cercos à vela e a remos (os 3 primeiros cercos a vapor haviam sido registados no ano de 1920), dando lugar aos de propulsão mecânica, que chegaram a ser 48 em 1925, mas apenas 34 no último ano do decénio (1930). O número total dos pescadores, entre 1921 e 1930, rondava os 4 600. As estatísticas oficiais começaram a registar o peso aproximado do pescado, sabendo-se que nos últimos quatro anos deste período (1927/1930) a média anual da sardinha colhida foi de 18 116 toneladas.

Em 1930 a população de Setúbal tinha subido para 46 342 indivíduos.

Pesca e conservas de peixe (sardinha) foram, ao longo de meio século, o suporte económico, social e populacional da cidade, como é possível verificar através dos documentos coevos. O seu declínio teve, pois, graves repercussões, não apenas na economia setubalense como também no processo demográfico da cidade.

Em 10 anos a população do aglomerado urbano desceu para 45 345 habitantes (menos 1 000 do que em 1930). Nos primeiros cinco anos deste período (1930-1940), Setúbal manteve ainda uma exportação de conservas de peixe que representava 41,6% das vendas externas portuguesas, mas nos anos que mediaram entre 1935 e 1940, os industriais da cidade apenas venderam 21,9% do montante nacional .

Em Setúbal fazia-se conserva dos mais variados peixes, principalmente no século XIX, em que o próprio salmonete, o robalo e o linguado eram enlatados e vendidos no país e no estrangeiro, como podemos verificar através da tabela de preços de “Conservas alimentícias”, atrás reproduzida.

Mas a espécie mais consumida nesta indústria, e mais desejada pelos consumidores, era a sardinha.

No século XX, com o desenvolvimento do mercado internacional e a introdução de novas técnicas, os industriais setubalenses dedicaram-se à conservação de outras espécies, além da sardinha, conserva por excelência.

Desenvolveu-se a fabricação de carapau, brama-rai (chaputa), atum (embora em menor quantidade) e biqueirão (nesta conserva era usado um método misto de salga e Appert).

Número de fábricas de conservas de peixe, número de operários e toneladas fabricadas em Portugal e em Setúbal (1884/1949)

(Síntese da informação disponível)

 

 

FONTES: várias, explicitadas ao longo deste texto.