Operárias conserveiras a “engrelhar”.
Autoclave para cozedura e esterilização (método Appert).
Memória e Identidades Profissionais - Reprodução de Sistemas Sócio-Técnicos

(4) A indústria conserveira em Setúbal – Memória e Identidades Profissionais – Aprendizagens e transmissão de saberes em meio fabril


A indústria conserveira em Setúbal • Memória e Identidades Profissionais • Aprendizagens e transmissão de saberes em meio fabril (4)

Aprendizagens e transmissão de saberes em meio fabril

Organização espacial e temporal do trabalho

“A aprendizagem por imitação ou repetição permite uma considerável economia de energia e uma garantia de limitação de riscos, mediante a reprodução de comportamentos já experimentados e seguros. O mimetismo  social constitui uma das forças de coesão e continuidade da espécie.”25

25 In Dicionário de Pedagogia, Mauro Laeng, publicações D. Quixote (2.ª edição), Lisboa 1978 (pág. 49).

A rápida e quase sempre bem sucedida, aprendizagem dos rapazes e raparigas que se iniciavam no trabalho fabril, tinha como primeira e talvez única motivação a sobrevivência. Oriundos, na sua maioria de famílias de operários e pescadores, o trabalho destes jovens e crianças constituía um recurso indispensável. Mal alimentados, mal agasalhados e em alguns casos pouco estimados estes jovens aprendizes eram treinados para aceitar as duras condições do trabalho na fábrica de conservas. Trata-se de uma forma consciente e intencional de aprendizagem sensorial e motora que reproduz miméticamente gestos, atitudes e comportamentos já experimentados pelos operários mais velhos, em muitos casos familiares ou vizinhos “a aprendizagem é intencional, se estiver orientada  de modo sistemático após uma tomada de decisão pelo sujeito discente”(26) Esta transmissão de conhecimentos era o legado (sofrido) de uma mãe a uma filha ou a alguém a quem se queria bem mas a quem nada mais se tinha para dar. O trabalho era o único garante de sobrevivência era “o pão para a boca”. Esta aprendizagem coerciva constituía um treino duro para os que a ele se submetiam, mas resultava fácil e barato para quem dele se apropriava. Os patrões das fábricas (industriais conserveiros) formavam assim, a baixos custos, sem qualquer investimento, toda a mão-de-obra de que necessitavam e que só ficava habilitada para trabalhar neste ramo da indústria. Na sua quase totalidade analfabetos estes operários estavam dependentes das fábricas de conservas que, até meados deste século, absorviam toda a mão-de-obra disponível.

“… a distinção entre o rendimento do trabalhador do trabalhador e o da empresa permaneceu formal enquanto o operário não podia escapar efectivamente à empresa, ou a um ramo da indústria bem preciso e homogéneo, nem o patrão separar-se facilmente do seu empregado. Era, por exemplo, o caso do artesanato em que a prática e aprendizagem do trabalho se confundiam em grande parte, de modo que na oficina só um número restrito de operários, ou mesmo apenas um, se encontrava preformado para assegurar um dado posto. A empresa tinha necessidade do trabalhador que ela tinha produzido, e este trabalhor só podia utilizar as suas capacidades nesta empresa, ou numa outra perfeitamente semelhante. A noção de qualificação, no sentido moderno, não teria tido qualquer significado, pois não se teria podido isolá-la da tarefa precisa do operário, do seu papel, do seu grau hierárquico, nem da situação da sua oficina. O salariato, se se encontra aí, funciona de uma maneira completamente diferente do que na indústria moderna traçando ao operário um destino muito diverso. O operário não é exterior à empresa mas coincide com ela. Sabe-se que, para evitar a constituição de unidades concorrentes e a emigração de métodos produtivos, foi necessário, até ao início da indústria, restringir autoritariamente as deslocações dos (27) operários de ofício.

26 In “Dicionário Geral das Ciências Sociais e Humanas” – Direcção de G. Thines e Agnés Lempereur, Edições 70 (pág.82).

27 In “Introdução à Sociologia do Trabalho”, Pierre Rolle, edições A regra do jogo, Lisboa 1978 (pág. 237).

 

Das mulheres esperava-se uma aprendizagem rápida baseada na rentabilização de saberes e habilidades domésticas que desde cedo as preparava para a eventualidade (quase destino) de virem a trabalhar na fábrica. A titulo de exemplo, foi-nos dado a verificar que a operação de “descabeçar” e tirar a espinha do peixe sem o amassar não é operação fácil para uma iniciada nestas lides. Só a prática trazida de casa (intencional) lhes facilitava a aprendizagem. As mulheres “levavam para casa” as técnicas e saberes que de um modo natural antecipavam a aprendizagem dos jovens. O recrutamento de mão-de-obra mão de obra para trabalhar nas fábricas de conserva baseava-se essencialmente no empenhamento de familiares e de vizinhos. Esta situação levava a que se desenvolvessem relações informais de compromisso e solidariedade que facilitavam a iniciação dos mais jovens no trabalho e na disciplina fabril.

«Fui para lá como? Fui aos 12 anos, e um tipo chamado o Zé Pequeno, que já morreu, faleceu há pouco tempo, lá disse “Eu preciso de um rapazinho para ali, para a conserva”…, fui para lá, fui estanhar folha, para os soldadores.» (Raminhos, antigo trabalhador)

«Fui para lá porque a minha avó, a minha mãe e as minhas tias trabalhavam na indústria» (Anabela, antiga Operária)

As conserveiras que entrevistamos verbalizam que o mérito da aprendizagem se deve apenas à sua capacidade e esforço pessoal “Ninguém me ensinou nada eu é que tive que aprender” (Carolina – 1998 – Ex. operária da fábrica Perienes). Este sentimento é expresso pela maioria das operárias entrevistadas que se orgulham da forma expedita como interiorizavam as regras e preceitos do trabalho “ia ter com a minha mãe e estava ao pé dela e depois (…) eu via como ela fazia a encaixar a lata ou a cortar com a tesoura, o preceito de encaixar” (Francelina Baptista Dias, operária conserveira – 1999).

Relativamente aos homens que trabalhavam essencialmente com máquinas, a aprendizagem implicava a observação e experimentação, pois só prática permitia atingir os ritmos da produção e minimizar os riscos.

“… via sempre muito e fazia muito (…) onde eu ponho as mãos não fica rasto (…) às vezes os meus irmãos iam à casa de banho e diziam: “Ó Ermelindo anda cá!! Põe-te aqui sentado à máquina, e eu ia… estava ali, não cravava 20 latas, cravava 5 e entretinha-me ali e via, estava a ver, estava a aprender e assim fui… depois fiquei como moço de fábrica porque já sabia cravar lata, ía para a máquina cravar a lata (…) era uma Alban, cravava 18 latas por minuto” (Ermelindo Venâncio, Trabalhador fabril conserveiro).

O operário era formado na fábrica para aquela função e ficava “senhor do seu posto de trabalho” de tal forma que quando eram introduzidas máquinas mais modernas era testada pelos patrões a sua destreza e capacidade de aprendizagem para decidir a compra “Quando vieram as máquinas mais modernas… o meu patrão mandou-me aprender para o Algarve (…) para aprender eu fui lá, aprendi, vi, aprendi… estive lá duas semanas, estive a trabalhar com aquela máquina, vi as primeiras vezes (…) depois comecei a trabalhar (…) quando cheguei aqui ele (o patrão) disse-me: – Então deste-te lá bem?, dei. Então pode-se comprar? Pronto ele comprou a máquina e eu nessa já cravava 49 por minuto. Aquilo era da prática, era só prática…” (Ermelindo, Trabalhador fabril conserveiro).

Há casos em que o operário conseguia atingir um nível elevado de especialização, nomeadamente ao nível da mecânica e serralharia sendo aliciado a permanecer no seu posto de trabalho e impedido de se ausentar para o estrangeiro. “Tenho a carta profissional do Sindicato da Metalúrgica como serralheiro de primeira.
– Aprendi… o meu patrão um dia mais tarde os agradecimentos que ele me deu foi quando houve a fábrica… nos anos 48,49 começou a haver crises de trabalho e os operários… e ele passava-me a mim também e quando ocupei o trabalho da mecânica… eles é que me convidaram… e eu disse a eles gostava do ordenando mensal, que na maioria das fábricas os serralheiros tinham o ordenado mensal, e ele me disse: “Tu não és serralheiro.   ” e nunca me deu (…) um dia mais tarde eles foram obrigados a dar um homem à metalúrgica e deram-me a mim, o empregado de escritório, o patrão não soube e … eu apercebi-me disso, que o patrão não soube    de forma que um dia eles passaram-me várias vezes três dias de trabalho e um dia eu pensei que não devia estar a pedir para me dar mais umas horas… Fui para Marrocos (…) mas não podia ir com o passaporte… naquele tempo, no tempo do Salazar não deixavam sair as pessoas que tinham a minha profissão.   só comerciantes e industriais é que deixavam ir. Eu era serralheiro (…) fui clandestinamente (…) o patrão era Argelino (Francês) (…) confiou em mim e deu-me logo trabalho.

 

Como se faz uma operária / operário «vendo e fazendo»

Depois de entrar na fábrica aprendia-se com a experiência, vendo e fazendo. Tratava-se de um processo mimético de aprendizagem em que se reproduzia gestos, atitudes e preceitos dos mais velhos com provas dadas. Evitava-se perguntar porque também não havia tempo para responder, o importante era estar atento à linguagem do corpo e aos códigos de conduta captando os seus ensinamentos. Como entrar para a fábrica era à custa dos pedidos de pessoas amigas ou familiares próximos, o factor psicológico era determinante na aprendizagem, pois implicava à partida confiança na pessoa que o iniciava no trabalho em termos espaciais, uma proximidade física do parente ou amiga, que simultaneamente o protegia e o comprometia com as regras e códigos fabris (quem se respeita, o que não se deve fazer, os ritmos etc.). Os jovens adquiriam noção dos locais facilitadores de aprendizagem e os limites da sua acção, através de uma impregnação e incorporação progressiva de saberes. A maioria não tinha tido acesso a uma aprendizagem formal, os saberes informais eram adquiridos nos locais de trabalho. Este processo dinâmico, reproduz um esquema hierarquizado de relações sociais e um conjunto de atitudes corporais e mentais.

A iniciação fazia-se entre os 8 e 16 anos e começava-se pelas tarefas mais elementares, no caso dos moços de fábrica dar peixe, limpar as instalações e tirar o peixe das mouras e no caso das mulheres enquanto aprendizas dar peixe, para engrelhar, dar grelhas e tirar peixe das mouras. Após um período de observação dos trabalhos das mais velhas e quando atingiam a adolescência elas começavam a descabeçar, engrelhar e enlatar peixe. Quando inquiridas sobre o tempo de aprendizagem e dificuldade destas tarefas a maioria das ex-operárias respondem, que a necessidade as obrigava a uma rápida adaptação e que as tarefas não eram difíceis, mas que tinham o seu preceito que por vezes não sabem explicar, mas que na prática leva à distinção entre um trabalho bem ou mal feito, o que pressupõe um conceito de perfeição que caracterizava o trabalho manual

«Não era a minha mãe que me ensinava, fui eu que quando me punham à ponta da mesa via o que a minha mãe e outras pessoas faziam, por exemplo: ir dar peixe, a levantar a lata, a encaixar eu punha-me a olhar, a limpar a cavala com a faca, a tirar a pele, também eu isso tudo via, quando comecei a trabalhar eu pronto, só de ver eu aprendi, e não perguntava nada.»

Uma mãe, pai ou qualquer outro parente que iniciava um seu familiar no trabalho não só lhe transmitia as técnica e processos como um conjunto de valores, práticas e representações que asseguravam a reprodução técnico-social dos saberes e das competências. A apropriação social destes saberes pelos mais novos ia-lhes conferindo um amor à profissão que se revelava no gosto pelo trabalho bem feito.

No acto de transmissão de saberes os mais velhos transmitiam objectivos dotados de sentido, passando a fazer parte do senso comum fabril, e o conhecimento partilhado com os outros na rotina normal da vida quotidiana.

 

Sistema de comunicação e informação na fábrica

As formas de comunicação verbal a nível horizontal eram diminutas mas ricas em gestualidades e sinais convencionados. As fábricas de conserva eram grandes armazéns de espaço aberto, o que permitia uma observação global de todas as etapas e favorecia a comunicação entre a comunidade fabril reforçando a  consciência de que a cadência do ritmo de cada etapa iria garantir a quota diária imposta pelos patrões. Este espaço aberto favorecem a aprendizagem de toda a produção em linha. Qualquer operário/operárias entrevistados por nós descreve com exactidão, todos os momentos da produção, mesmo que não tenha passado por eles. A nível vertical mestra/mestre –operários – aprendizes, traduziam-se em sinais de aprovação ou rejeição que os aprendizes foram com o tempo descodificando. A transmissão de ordens a nível verbal era contudo apanágio de mestres/encarregados e patrões. Dominar todas as etapas do processo de produção (a importância dos trabalhos de pé) e a mobilidade no espaço fabril, criava aos iniciantes a expectativa de ascender na categoria, permitindo-lhes gerir os tempos de trabalho e pausas e a informação aprendida. Circular pela fábrica, veicular opiniões, parar para realizar necessidades básicas era um pequeno – grande privilégio para um operário ou operária forjados numa  rotina de sofrimento, silêncio e capacidade de sobrevivência que a longa distância as nossas informantes recordam com saudade os tempos vividos a coragem e a tenacidade.

Uma operária com o tempo vai adquirindo competências ritualizadas que se transformam em actos personificados, «encaixar melhor que qualquer outra» «apresentar uma lata com um bonito efeito» «encaixar em azul ou branco, escolhendo o peixe mais escamoso para cima» o saber ver, repetir como aprendia, imitando os ritmos, «preceitos» e atitudes de quem ensina, era o dever da aprendizada/o. Não questionar os mais velhos, observar atentamente os gostos, ouvir os sons, perceber as cadências de modo a puder incorpora-las física e mentalmente pudendo um dia fazer parte do grupo dos mais velhos, adquirindo com o tempo uma identidade profissional, que todos sabem o que é e nela se reconhecem, embora tenham dificuldade em verbalizá-la.

Digamos que esta corporalidade e atitude mental está sedimentada no corpo, com tal convicção que um filho ou filha de operários conserveiros habituados desde o berço (caixotes) a permanecer nas fábricas, recebiam estes saberes e valores como uma herança familiar.

 

Os preceitos do trabalho

No trabalho fabril conserveiro há um conjunto de regras e códigos que em linguagem indígena se traduz em
«preceitos». Esses preceitos são «maneiras de fazer» e habilidades que cada acrescenta de modo particular ás aprendizagens normalizadas, consoante o gosto e as capacidades de cada um.
Resumem-se ao «fazer bonito», ao pormenor, sem fugir à regra, mas dando um cunho pessoal ao produto saído das suas mãos. A cada lata de sardinha «encaixada», correspondia o trabalho de uma operária, ora é nesta individualização que residia o brio de quem o executa. «Eu dizia ao encarregado, se quiser mande-me embora, mas trabalho saído mal feito das minhas mãos, não faço. Se for bem feito certamente temos mais encomendas» D. Adelaide – antiga mestra da fábrica de conservas.

«aquilo tinha um preceito, a gente tinha de fazer o corte no peixe para pôr na lata o peixe de um lado, outro ao meio ou 2 a 2 de cada lado conforme a lata, a da xaputa também, a xaputa era os lombos era cortados em redondo e depois o lado das barrigas era tapado em cima, a gente tratava a lata bem bonita, a engrelhar a mesma coisa a cavala inteira grande era engrelhada em pé, a gente ia com as grelhas da cavala, a pegar e lava ao pio que aquilo é que era trabalhar também.»

 

Ritmos e tempos

Condicionantes – A matéria prima; O tempo de cozedura; O ritmo da cravadeira

Os ritmos e os tempos tinham condicionantes, no caso das conservas, a natureza da matéria-prima que se estragava era uma condicionante, segundo nos foi relatado pela mestra Adelaide, 150 canastras (cada canastra aproximadamente 30 kg) era trabalho por 72 mulheres que no exemplo desta fábrica demorava 3 horas a descabeçar, engrelhar e cozer, demorando o enlatamento outras 3 horas. O tempo das mouras (45 minutos) e de cozedura (15 a 20 minutos) são pausas que condicionavam a continuidade da produção em cadeia, mas que já estão contabilizadas no processo.

O ritmo da cravadeira no caso da mecânica dependia da força (pé no pedal) e sincronização do operador, no caso da automática era totalmente imposto pela máquina.
Sempre constituiu um grande impedimento ao aumento do ritmo da produção, o transporte do produto assegurado manualmente por operários. As últimas transformações técnicas foram no sentido de automatizar esta circulação.
“Uma preocupação… era a mão de obra, ele (patrão) queria tantas horas, tantas caixas fabricadas, ao fim do mês todos os meses (…) nós fazíamos balanço todos os meses (…) e então ele: «É pá fabricou-se tantas caixas (…) tantas caixas a duas horas e meia dá tantas horas, fizeste tantas, é pá tu deixaste-te dormir! Eu era uma pessoa que o trabalho não me cansava, o trabalho era o meu brinquedo preferido, chegava a passar meses a dormir duas horas cada noite, o resto era trabalho e ele depois ao fim do mês disse-me que eu me deixava dormir! Havia dias de se fazer 1200 embalagens, cada embalagem tinha 100 latas, outras dias fazíamos 800 e às vezes 600”.

 

A Construção Social do Género em meio Fabril Conserveiro

As diferenças entre homens e mulheres não têm só origem biológica, por isso estudos recentes acentuam a diferença entre sexo e género. Entende-se por género «as diferenças sociais, culturais e psicológicas entre homens e mulheres» (Giddens, 1997), mas por vezes ao entrevistarmos as operárias da industria conserveira, elas justificam pelas diferenças físicas a divisão sexual do trabalho. Os homens parecem predispostos para um tipo de trabalho mais activo e fisicamente mais exigente, quando comparados com as mulheres, mas essas diferenças são, na verdade segundo Giddens, bastante ligeiras. Segundo este autor «a eficiência mecânica (a quantidade de força que um corpo pode produzir por minuto em comparação com uma dada unidade de consumo de combustível) é a mesma em homens e mulheres (…)» As diferenças em termos de força física entre ambos os sexos atingem o seu máximo na puberdade; os homens adultos possuem, em média, mais dez por cento de massa muscular do que as mulheres, e uma proporção mais alta de fibra muscular associada à resistência física. É, contudo, difícil saber até que ponto tudo isto é inerente a cada sexo, na medida em que tais diferenças são afectadas pelo treino e exercício. Habituado desde criança a carregar pesos pesados por ser «homem», não permitindo que as mulheres o fizessem, forçosamente o rapaz que trabalha na indústria conserveira adquiriu uma musculação e um desenvolvimento toráxico diferente das jovens aprendizes.

Há no entanto inúmeras discussões sobre se as diferenças de comportamento entre homens e mulheres, têm a ver com o sexo ou com o género. Alguns autores defendem a existência de diferenças estruturais de comportamento em todas as culturas por exemplo: o de serem os homens por dotação biológica predispostos, mais do que as mulheres, a tomarem parte nas actividades de guerra e de caça. Para outros não, segundo (Elshtain, 1987) os níveis de agressividade variam bastante entre culturas diferentes, espera-se da mulher que ela seja mais passiva, o que não quer dizer que essa característica tenho origem biológica. Muitas mulheres passam mais tempo  a tratar dos filhos, por isso não têm disponibilidade, para a caça, deixando esta actividade para os homens. Estas diferenças de comportamento acabam por se transmitir através da aprendizagem social das identidades femininas e masculinas. A mulher e a interacção que estabelece com os seus filhos, produzem as diferenças de comportamento na socialização do género, segundo (Hamsen, 1980) os bebés do sexo masculino foram adjectivados de forma diferente dos bebés do sexo feminino, num estudo sobre as palavras usadas pelo pessoal médico de uma maternidade; «fortes, bonitos ou rijos» para os rapazes «delicadas, meigas e amorosas» para as raparigas. Na verbalização dos atributosde homens e mulheres operários conserveiros aparece igualmente estas diferenças «homens forte e saudável» «mulher mimosa e habilidosa. «Segundo Giddens, os primeiros aspectos da aprendizagem do género, por parte das crianças, são inconscientes. Têm a ver com a fala: formas diferentes dos pais tratarem os filhos; com os odores, pai e mãe usam perfumes diferentes, que ajudam a associar cheiros de homem e mulheres; diferenças de vestuário, penteado que dão informações às crianças do género. A partir de determinada idade as crianças sabem se são meninos ou  meninas e aprendem a identificar os outros como tal. A educação familiar e os bens que essa família fornece ás crianças, (brinquedos, livros de histórias, roupas, etc.) realçam os atributos do género, tal como as imagens publicitárias que aparecem na televisão e a aprendizagem escolar. No Estado Novo, os manuais escolares veiculavam de uma forma objectiva, os papéis dos homens e das mulheres e essa informação estendia-se à família e à sociedade. As raparigas e rapazes candidatos a operários da indústria conserveira, quando entravam na fábrica, tinham bem definidos os seus papéis (potencialidades e limites) por isso a socialização do género era bem sucedida.

Nancy Chodorow (19, 78, 1988), defende que o processo de separação das crianças da mãe, denominada transição Edipiana por Freud, é diferente nos homens e nas mulheres. As raparigas continuam a ter a gestualidade maternal no campo efectivo e ficam ligadas à mãe mais tempo do que os rapazes que ganham um sentido de individualidade através de uma rejeição mais radical ao apego feminino, com o medo de ser apelidado de maricas, ou menino da mamã. A uma mulher aceita-se a «meiguice» exteriorizada, primeiro com a mãe e depois com o marido. Ao homem exige-se maior contenção na demonstração dos sentimentos.

Carol Gilligan analisou as diferenças de género através das imagens que as mulheres e os homens têm de si mesmos e das actividades que executam:
As mulheres – definem-se nas relações pessoais, através do grau de realização pessoal e pela capacidade que demostram para tomar conta dos outros.
Os homens – ideias abstractas de dever, de justiça e de liberdade individual.
Não há no mundo nenhuma cultura após os movimentos de libertação das mulheres, em que elas sejam mais poderosas do que os homens (o encargo dos filhos, a lida de casa para as mulheres; a vida política e militar para os homens) mesmo nos sectores primários, o trabalho no mar alto é entregue aos homens e na agricultura o uso do arado é também tarefa masculina.

Esta dominação patriarcal é universal, as mulheres dão à luz e amamentam as crianças (actividades de interior) e os homens partem à procura do sustento (actividade exterior), isto torna muitas mulheres dependentes dos homens, não por serem mais fracas fisicamente, mas pelos papéis estabelecidos e incorporados pela sociedade.

A separação entre a casa e o local de trabalho resultante da indústria moderna, modificou também as comunidades familiares da pré-industrialização. As mulheres da indústria conserveira ao entrarem nas fábricas, trazem como «formação profissional» a sua prática doméstica, desvalorizada pelos homens e pelos contratos colectivos de trabalho (50% do salário dos homens, na mesma categoria), porque o seu papel de mãe e esposa eram na ideia dos patrões uma limitação, pois tinham que abandonar o emprego quando davam a luz ou por vezes quando casavam.

Tentaremos então aplicar estas noções à indústria conserveira em Setúbal, no que diz respeito ao trabalho executado pelos homens e pelas mulheres, e a justificação dos papéis que tradicionalmente lhes são atribuídos.

 

O género e a relação hierárquica

O mestre e a mestra

A aprendizagem baseava-se na intuição, observação e força de vontade. Mesmo no caso dos mestres o percurso era idêntico iniciavam-se muito novos pela mão de um familiar, vizinho ou amigo iam subindo os degraus da hierarquia fabril e quando se destacavam nas suas qualidades de trabalho e sentido de responsabilidade eram convidados pelos patrões ou encarregados, para mestres. Os «Bons mestres», os mais humanos e conhecedores, suscitavam sentimentos de apreço e admiração nos operários seus subordinados um pouco como o mestre-escola, esses mestres ou mestras foram burilados no trabalho da fábrica e conheciam-na como a “Palma das suas mãos”. Faziam cumprir os objectivos de produção exigidos pelo patrão, mas atendiam aos problemas pessoais de cada um eàs suas necessidades. Por vezes encobriam falhas mas normalmente davam orientações firmes que inspiravam segurança. O mestre ou mestra era alguém experiente, arrojado e determinado que tinha uma visão clara das potencialidades de produção da fábrica e que procura rentabilizar os seus recursos.

«A mestra era mandar a gente, tu vais fazer isto e tu vais fazer aquilo, por exemplo tu vais descabeçar o peixe, mas quando o peixe era pouco muitas tantas ficavam a descabeçar o peixe outras tantas iam para a mesa encaixar peixe. Era assim… A mestra era uma pessoa que sabia, sabia bem daquilo para poder mandar no pessoal e havia uma mestra e um mestre. O mestre era para apontar o peixe que vinha nas camionetas de peixe que vinham nas carroças, depois quando acabavam as carroças começaram a haver as camionetas, iam para dentro das fábrica e o mestre ia apontando. Eram tantos quilos de peixe, tantas canastras, e então era assim que o mestre fazia. E a gente havia um quadro para sabermos onde é que íamos pegar no trabalho, por exemplo, assim às 8 h da manhã tínhamos de ir aquele quadro tirar a nossa chapa e pôr dentro de uma caixa que lá estava, e então o mestre dispôs daquilo tudo do pessoal que lá estava, e o mestre tirava as chapas e depois ia conferir as mulheres que estavam e as mulheres que faltavam.»
«O Sr. Beirão era o mestre, era uma grande pessoa. Com uns olhos pequeninos, mas via tudo… só não via o que não queria.»

Enfim o mestre era um intermediário entre o pessoas e o encarregado ou patrão, representando-o perante as operárias, na garantia de que levava a bom termo as metas de trabalho que a entidade patronal desejava e, juntando-se ao pessoal para reivindicar mais dez tostões por cada hora de trabalho quando via que a exploração era insustentável.

«Um dia disse ao patrão, dê-nos mais dez tostõezinhos por hora, só mais dez e ele respondeu: que é isso, preferia morrer. E não é que ele morreu no dia seguinte minha senhora. Foi Deus que o castigou.» (Adelaide – mestra)

Até aos anos 40, todos estes processos de aprendizagem se baseavam no saber de experiência feita, mas o acentuar da crise no sector conserveiro leva a questionar a sua gestão e direcção e consequentemente a qualificação profissional e aprendizagem. Em Outubro de 1948 a revista Conservas de Peixe num artigo intitulado “A reforma do ensino técnico e a sua aplicação à industria conservas” apela para a necessidade de criação de cursos técnicos de formação especializada onde se estudasse a tecnologia relativa à actividade conserveira, com especial relevo para os cursos de mestrança, destinados à preparação de contramestres para a industria conserveira. Propõe-se que o acesso a este curso seja reservado a diplomados com cursos de par dos ramos metalomecânicos ou químicos, com 18 anos de idade e com um estágio mínimo de dois anos numa fábrica de conservas.
Esta intenção de transferir a aprendizagem profissional da fábrica para a escola não teve aplicação prática na industria conserveira, prevalecendo a auto aprendizagem associada a todo o sistema de valores e compromissos a ela inerentes.

 

O encarregado e o patrão

O encarregado tinha um estatuto diferente do mestre, sendo deste um superior hierárquico (em alguns casos encarregados e patrão eram a mesma pessoa). O encarregado era sem sombra de dúvida uma pessoa da inteira confiança do patrão, não tinha ascendido tal como o mestre ou mestra da carreira operária, embora em muitos caos tivesse começado por trabalhar na fábrica. A sua capacidade de liderança e autoridade era condição fundamental para ascender à direcção e controle do pessoal.

As relações sócio-afectivas entre mestres – operários não se comparavam nas grandes fábricas às de operários – encarregados. O encarregado era mais distante e punitivo, sofrendo alterações quando esta figura era substituída pelo dono da fábrica, em pequenas unidades, onde o ambiente era familiar e paternalista.

Mas a figura masculina imperava neste universo, o encarregado era sempre um homem e o mestre podia dirigir mulheres, mas nunca a mestra o podia fazer relativamente aos operários.

 

A gestão dos saberes
 
«Os trabalhos de mesa»

Esta denominação indígena faz parte de um código fabril de comunicação e de hierarquização de competências. Os trabalhos de mesa eram na realidade entregas ao pessoal menos qualificado (mulheres) que no tempo do “defeso”, (período em que não havia pescado) só ganhavam um dia por semana, indo à fábrica fazer limpezas. Estas denominações partilhadas por todos, mas não regulamentadas, representava na ideia das operárias, diferentes graus de dificuldade e habilidade a vencer com a experiência. “Dar peixe” era uma forma de iniciação no trabalho fabril, feita por moços e aprendizes. Precisavam de ser desembaraçadas e ter força.
«Descabeçar» tem menos dificuldade que «engrelhar» para mulheres que têm esse saber tradicionalmente adquirido no meio familiar. «Engrelhar» pressupõe lógica e normalização. «Encaixar» é mais difícil que «engrelhar» pois o acondicionamento do peixe na lata revela rigor e responsabilidade pois é a imagem da marca que está em causa. «Encaixar» é também um trabalho «limpo» por oposição ao descabeçar que envolve sangue, vísceras e detritos, por tanto «sujo». Como podemos observar dentro dos «trabalhos de mesa» há distinções que correspondem a progressão no trabalho fabril.

«Fui dar peixe, mas rapidamente fui chamada pela mestra para descabeçar e engrelhar. Passados seis meses já estava a encaixar».

Vemos por este testemunho que as mulheres operárias, mesmo antes de entrar na fábrica, através dos seus familiares apropriavam-se desta linguagem que de alguma forma as direccionava para o mundo da fábrica integrando-se progressivamente, caso viessem a partilhar esta gestão de saberes.

 

«Trabalhos de pé»

Os «trabalhos de pé» correspondiam a uma etapa especializada, melhor remunerada e mais autónoma. «Os trabalhos de pé» têm a haver com circulação de informação, domínio do espaço fabril e qualificação profissional. Quando acabava «encaixe», as operárias dos «trabalhos de mesa» iam para suas casas e eram as mulheres dos «trabalhos de pé» que permaneciam até ao final do processo de fabrico, auferindo por isso horas extras, além de que no «defeso» ganhavam 3 dias por semana, conta 1 dia das que laboravam nos «trabalhos de mesa». Estes trabalhos permitiam uma gestão de tempo, que as gratificava de uma forma diferente: podiam romper o silêncio, comer alguma coisa trazida de casa quando tinham necessidade, ir à casa de banho sem dar nas vistas e exibir a individualização e performance do seu trabalho (ex. levantar lata). Esta actividade exigia destreza, equilíbrio, segurança física e psicológica no dizer de uma operária «não é qualquer uma que podia levantar lata» era um trabalho em que não se podia ter medo, algumas das que «levantavam lata» foram mestras, pois este tipo de trabalho era de grande exibição de qualidades físicas e psicológicas.

Nunca nos nossos entrevistados se individualizou alguém por descabeçar, engrelhar ou azeitar, mas «levantar lata», algumas até ficaram na memória das restantes colegas «A tia Carminha levantava paus de lata que dava gosto, 30 ou mais». Está associada a esta tarefa as frases «prazer de fazer», «receber piropos» e «vestir melhor».

Outro vocábulo associado a sair do «trabalho sujo» para o «limpo» era o de serem «mimosas»… a mestra, o encarregado ou o patrão, podia achar uma operária mais arranjada, limpa e trabalhadora que era mal empregada para estar a lidar com as vísceras do pescado «Trabalhos de pé» implicava trabalho qualificado e pessoal efectivo, azeitar, visitar lata, cravar, bater lata no final da produção.

«Visitar lata» e «bater lata» exigiam qualidades sensoriais (ouvido, vista e tacto) e elevado grau de responsabilidade, uma «lata rota» podia fazer com que um lote inteiro viesse para trás; o que provocava a fúria dos patrões e despedimento. Estes trabalhos eram nada mais nada menos do que o controle de qualidade, mas por ser feito por mulheres, sensorialmente sem recurso a instrumentos é desvalorizado pelos homens e entendido como aptidão “natural” por mulheres. É interessante verificar que nos contratos colectivos de trabalho estes nomes indígenas aparecem só nestas tarefas de controle não acontecendo noutras tarefas, apesar de ser considerado um trabalho especializado o nome indígena “aligeira” a complexidade da expressão e encobre o trabalho de controle  das mulheres na produção masculina do vazio (fabrico de latas), permitindo assim que o pessoal feminino aufira sempre 50% menos que o masculino.

Azeitar era um trabalho que implicava rapidez, precisão, e mensuração. Nas fábricas onde ainda não tinha entrado a azeitadeira mecânica, com torneiras e tapete rolante, em meados do século, os mestres tinham a difícil tarefa de economizar este liquido precioso .

«Aquilo que me incomodava mais era o azeite e a seguir a mão de obra, o azeite, o meu patrão, queria que eu pusesse, 2,800Kg por cada 100 latas, isto é na de primeira qualidade, na conserva de segunda qualidade que ia para a África e para as Colónias, a primeira qualidade era para a França, de forma que na segunda qualidade queria que eu pusesse só 2Kg numa lata que era do mesmo tamanho, os peixes eram também iguais, era uma coisa muito difícil de eu fazer, se for perguntar a estes fabricantes de Setúbal eles até não se acreditam se calhar. De forma que o meu patrão fez uma fortuna, mas eu fiz um grande sacrifício… então como nunca consegui fazer isso, porque os peixe não são todos certos, os peixes de várias medidas, uma lata por exemplo leva 4 peixes, não pode levar 5 porque fica muito cheia e não cabe, mas fica uma greta, leva mais azeite, a outra leva por exemplo 6 peixes, 3 em baixo, e em cima… e é assim, às vezes num mês apanha-se uma quantidade de peixe, dá sempre para pôr 4 ou 5 peixes uma greta, naquele mês vai muito azeite a mais e ele (patrão) quer aquela quantidade, depois uma pessoa ao fim do mês… ele zanga-se e é preciso pôr um bocado de algodão nos ouvidos…esse é que foi o maior sacrifício (…)» José Manuel de Jesus – ex. mestre conserveiro.

Estas habilidades, economias e estratégias empíricas de gestão faziam parte de uma autoformação permanente que se traduzia por uma contínua evolução das técnicas, dos sabores e das novas aquisições.
«Os trabalhos com máquinas»

Este trabalho era do domínio dos homens, na fase mecânica. Na fase automática, contrariando a tendência de outros sectores de actividade que dão ao sector masculino os automatismos, a indústria conserveira entregava as mulheres «a menina dos seus olhos», a cravadeira automática.

Exceptuando o «trabalhos das mouras» (tempero de peixe com água e sal), aramar e fechar caixotes e rotular (trabalho efectivo) toda a laboração masculina se prendia com operação e transporte de máquinas e ferramentas. Os «moços de fábrica» que ainda não entraram no mundo dos homens, pululam entre «o gineceu e o androceu» captando as aprendizagens, para que a pós a sua incorporação sejam aceites no grupo a que naturalmente pertencem os homens.