Soldadores
Indústria conserveira – processo de transformação do produto
Regras e condições técnico-culturais da produção
Memória e Identidades Profissionais - Reprodução de Sistemas Sócio-Técnicos

(3) Organização do espaço fabril – Memória e Identidades Profissionais – Reprodução de Sistemas Sócio-Técnicos


Organização do espaço fabril • Memória e Identidades Profissionais • Reprodução de Sistemas Sócio-Técnicos (3)

Organização do espaço fabril

Da Lota à Lata

Entrar numa fábrica de conserva de peixe a laborar é uma experiência única, pois temos a sensação de estar perante uma panela de pressão gigante permanentemente a cozer peixe. O ambiente quente, enevoado pelo vapor e o forte cheiro exalado da cozedura, entranha-se em todos os cantos da fábrica e nas roupas dos operários. A este ambiente associa-se o som e a cadência das latas a serem cravadas e o movimento frenético das mãos das mulheres a descabeçar, engrelhar, enlatar e azeitar para cumprir a quota diária imposta pelo patrão, na pessoa do encarregado.

O espaço da fábrica de conservas, reflecte normalmente a cadeia de operações que nele tem lugar. Contudo a sua leitura nem sempre é evidente na medida em que, a maioria das fábricas existentes não eram construções de raiz, tendo que se submeter a espaços improvisados com prejuízo para a lógica fabril. A este propósito, citamos a revista “Conservas de peixe” de Setembro de 1946:

“Erguiam-se barracões mais ou menos amplos semeados de pilares, instalavam-se lá dentro os maquinismos, irremediavelmente condicionados à rigidez dos apoios intermédios e à indisciplina da construção desprezando em absoluto as exigências do fabrico. (…) A disposição desastrada dos edifícios e dos acessos interrompendo a continuidade das operações, só serve de pretexto a incontroláveis passeios do pessoal e a longos percursos sem vigilância na circulação das matérias-primas e dos produtos, diminuindo o rendimento dos mecanismos e aumentando a fadiga dos operários.”

A este cenário de organização fabril a mesma revista entrepõe um modelo de «funcionamento em cadeia como verdadeiro sistema, imposto ao fabrico, para manter a continuidade das operações e solidarizar todas as suas fases.» este desejo de racionalização foi-se impondo a partir do Estado Novo, com o objectivo de aumentar a produção suprimindo um sem número de operações de transporte dispendiosas e inúteis, aproximando em termo espaciais, as várias etapas. Aquilo que nos foi dado no terreno, através das observações realizadas nas fábricas Setubalense – Regina – J. Antunes Fragoso, Viegas e Lopes, Marques Neves e Vasco da Gama (esta era a mais recente construção e a última a fechar as portas no ano de 1995), e das entrevistas realizadas a trabalhadores da indústria de conservas, permitiu-nos efectuar um quadro síntese, baseado na definição de cadeia operatória de Heléne Balfet citada por Sophie Desnosiers no texto «Sur le concept de chaîne opératoire»21 «A chacune des étapes (d’une chaîne opératoire) correspondent une ou plusieurs séquences au sens ou le terme est employé dans le décanpage de cinèma… chaque séquence, enfin, se décompose jusqu’au geste élementaire, la plus petite unité (ou Atome) d’action technique… ce n’est pas l’outil mais le geste qui constitue l’atome technique» e no quadro apresentado por esta autora no mesmo livro a propósito do seu texto «Chaîne opératoire et organisation sociale du travail: quatre exemples de façonage de poterie au Maghreb».

21 Balfet, Heléne, Observer l’action technique des chaînes opératoires, pour quoi faire? Textes réunis
* “Dar peixe” é uma operação realizada de forma constante durante os “trabalhos de mesa” por “moços e aprendizes” para manter a circulação do produto e alimentar o sistema de produção

 

Etapa 1ª Transporte do peixe do barco para a fábrica

Sequência: Apanhar do porão
Operação: Salgar e Transferir de local
Agente: Apanhador
Utensilagem: Mão
Lugar: 
Da Lota à Fábrica

Sequência: Encher cabazes
Operação: Acondicionar e Transferir de local
Agente: Enchedor
Utensilagem: Mão e cabazes
Lugar: 
Da Lota à Fábrica

Sequência:Transportar à cabeça ou em carroças para a fábrica
Operação: Colocar os cabazes no transporte – Transportar para a fábrica
Agente: Descarregador
Utensilagem: 
Cabazes, chapéu de abas largas (equilíbrio corporal)
Lugar: Da Lota à Fábrica

2º Preparação do peixe em cru

Sequência: Despejar peixe nas mesas
Operação: Transportar os cabazes – Colocar peixe nas mesas de descabeçar
Agente: Descarregadores
Utensilagem: Canastra e força manual
Lugar: Junto às mesas de descabeçar

Sequência: Descabeçar (Tirar a cabeça)
Operação: Cortar a cabeça do peixe – Tirar as vísceras – Colocar nos cabazes
Agente: Operária (trabalhos de mesa)
Utensilagem: Faca ou canivete – Destreza manual
Lugar: Junto às mesas de descabeçar

Sequência: Pôr na salmoura
Operação: Colocar os cabazes na moura – Temperar
Agente: Operária
Utensilagem: Cabazes – Mão
Lugar: Junto aos pios de salmoura

Sequência: Tirar da salmoura
Operação: Verificar o tempero – Transportar
Agente: Operário (especializado)
Utensilagem: Cabazes – Mão
Lugar: Junto aos pios de salmoura

Sequência: Transportar peixe da moura
Operação: Transportar o peixe “Dar Peixe”* – Colocar na mesa de engrelhar
Agente: Moços e raparigas
Utensilagem: Cabazes e força manual, agilidade
Lugar: Dos pios de salmoura à mesa de engrelhar

* “Dar peixe” é uma operação realizada de forma constante durante os “trabalhos de mesa” por “moços e aprendizes” para manter a circulação do produto e alimentar o sistema de produção.

Sequência: Engrelhar
Operação: Seleccionar – Normalizar
Agente:
Utensilagem: Grelhas
Lugar: Junto às mesas de engrelhar

Sequência: Lavar no pio
Operação: Limpar – Acondicionar
Agente:
Utensilagem: Grelhas
Lugar: Junto aos carros

Sequência: Levar as grelhas aos carros
Operação: Transportar – Colocar as grelhas no carro
Agente: Moços e raparigas
Utensilagem: Grelhas e carros
Lugar: Junto aos carros

3º Cozer o peixe

Sequência: Cozer o peixe
Operação: Cozer – Verificar a temperatura – Tirar o peixe dos autoclaves com ferros
Agente: Fogueiro
Utensilagem: Autoclave – Ferros para puxar os carros de peixe, grelhas e dobadoiras
Lugar: Junto ao autoclave e caldeiras

Sequência: Arrefecer o peixe
Operação: Colocar as grelhas em mesas – Arrefecer o peixe
Agente: Operária – Operário
Utensilagem: Rumas e gaiolas
Lugar: Junto às mesas de manipulação de peixe

4º Acondicionamento em lata aberta

Sequência: Enlatar
Operação: Acondicionar – Equilibrar o tamanho dos peixes
Agente: Operária – Operária
Utensilagem: Mãos e pinças
Lugar: Junto às mesas de enlatar

Sequência: Visitar a lata
Operação: Controlar a qualidade – Verificar se a lata está em óptima condição de fabrico
Agente: Operária – Operária (especializada)
Utensilagem: Mãos 
Lugar: Junto às mesas de enlatar

Sequência: Levantar a lata
Operação: Transportar lata em pilhas
Agente: Operária – Operária (especializada)
Utensilagem: Mãos e equilíbrio corporal (trazer ruma)
Lugar: Das mesas de enlatar para as mesas de azeitar

Sequência: Azeitar
Operação: Temperar – Colocar azeite em todas as aberturas
Agente: Operária ou máquina de azeitar
Utensilagem: Almotolia, pios de azeite ou máquina semi- automática / automáticas
Lugar: Junto às mesas de azeitar

5º Esterilizar a Conserva (método Appert)

Sequência: Cravar
Operação: Colocar tampos nas latas – Fechar a lata – Isolar do meio ambiente
Agente: Operário – Operária
Utensilagem: Tampos de lata, lata aberta à mão – Cravadeira mecânica semiautomática, automática
Lugar: No aparador junto à cravadeira

Sequência: Visitar lata
Operação: Controle de qualidade – Verificar se a lata não tem rupturas
Agente: Operária (visitadeira)
Utensilagem: Dedos (perícia)
Lugar: Junto ao aparador

Sequência: Esterilização
Operação: Colocar as latas nos cofres – Destruir micro- organismos
Agente: Operário
Utensilagem: Cofre de esterilização a vapor (autoclave)
Lugar: Cofres de esterilização

6º Armazenamento, controle de qualidade, expedição

Sequência: Limpar lata
Operação: Limpar – Controlar a qualidade
Agente: Raparigas
Utensilagem: Mãos, serradura
Lugar: Armazém

Sequência: Bater lata
Operação: Controlo de qualidade – Verificar se está bem fechada
Agente: Operária – Operário
Utensilagem: Mãos (som)
Lugar: Armazém

Sequência: Encaixotar (meter as latas em caixotes)**
Operação: Acondicionar o produto – Arrumar de forma limpa e certa
Agente: Operária
Utensilagem: Mãos, caixotes
Lugar: Armazém

** A conserva empapelada, ou seja envolta em papel impresso, era trabalho feito por empreitada

Sequência: Fechar caixote***
Operação: Colocar tampo – Fechar o caixote de forma correcta
Agente: Operário
Utensilagem: Mãos, pregos, caixotes e martelo
Lugar: Armazém

*** No encaixotamento mais tarde também se utilizou caixas de papelão

Sequência: Aramar
Operação: Acondicionar – Colocar arame à volta do caixote
Agente: Operário
Utensilagem: Arame e máquina de aramar
Lugar: Armazém

Sequência: Rotular
Operação: Identificar o produto e datá-lo – Preparar a expedição
Agente: Operário
Utensilagem: Máquina de fazer escantilhões de letras
Lugar: Armazém

Sequência: Expedir
Operação: Colocar as caixas nos transportes Transportar para a Capitania e Grémio (antes do 25 de Abril de 1974)
Agente: Operário
Utensilagem: Carroças, caixotes com latas ou camionetas
Lugar: Armazém

O “Cheio” e o “Vazio” – duas cadeias convergentes

Fabrico da lata  “O Cheio”  • Fabrico da lata “O Vazio”
A) Da lota para a fábricaA) Preparação da folha de Flandres
Transportar o peixe do barco para a fábrica •  Tirar as cintas dos caixotes de folha de Flandres
Apanhar o peixe do porão do barco (apanhadores) • Limpar a folha com maços de madeira
Encher os cabazes de peixe (enchedores) • Marcar a folha para estampagem
Transportar o peixe em canastras, à cabeça, da lota para a fábrica (1) (descarregador) •  Estampar os “dizeres”
Descarregar o peixe para a fábrica (descarregador) • Tratar a chapa para futura resistência às esterilizações (estampagem da folha)
(1) Mais tarde este transporte fazia-se em carroças ou camionetas

B) Na fábrica trabalhos de mesaB) Cortar enformar e cunhar a folha de Flandres
Despejar o peixe nas mesas de descabeçar (descarregador ou pessoal da fábrica) • Cortar a folha de Flandres em tiras finas e largas (das tiras finas retiram-se os corpos de lata e das grossas retiram-se os tampos e fundos)
Pôr na moura (Salmoura)(trabalhador das mouras) • Cunhar as tiras largas para tampos e fundos com balancés de cunhar
Tirar da moura (moços e aprendizes) •
Dar o peixe às mulheres (moços e aprendizes) •
Engrelhar (operárias conserveiras) •
Enxaguar no pio de lavagem (operárias conserveiras) •
Colocar as grelhas com peixe nos carros de cozimento (operárias e/ou moços) •

C) Peixe cozido trabalhos de mesaC) Montar as tiras “corpos de lata” – Juntar o “corpo de lata” ao tampo
Conduzir os carros com grelhas para os autoclaves • Montar as tiras estreitas para fazer os “corpos de lata)
(2) (Montador de tiras)
Cozer o peixe nos autoclaves (20 minutos +/-) • Rebordear os tampos com uma rebordadeira
Tirar da moura (moços e aprendizes) •
Retirar as grelhas do autoclave (fogueiro) •  Soldar o copro de lata ao tampo (3)(soldador)
Arrefecer o peixe nas grelhas empilhadas em rumas ou/e “gaiolas” •
Retirar o peixe das grelhas (operárias) •
Cortar os rasos e aparar os toutiços (operárias) •
(2)Mais tarde este trabalho manual foi substituído pela “montadeira”
(3) Mais tarde este trabalho manual de soldador foi substituído pela soldadeira – máquina de soldar

D) Enlatar D) Controlar a qualidade
Colocar o peixe na lata (encaixe) com “preceito” arrumado em branco ou azul (operárias)Visitar a lata “visitadora de lata”

E) Peixe em lata aberta, “trabalhos de pé” • Convergência das cadeias operatórias, a do fabrico da lata “O Vazio” com a do fabrico da conserva “O Cheio
“Visitar a lata” – Verificar o encaixe (visitadeiras)
“Levantar lata” – Conduzir manualmente, em equilíbrio, uma pilha de latas (aprox.30) “em ruma” das mesas de encaixe para as mesas de azeitar (levantadoras da lata)
“Azeitar” – Encher a lata cheia de peixe com azeite, através de diferentes processos: banhadas num pio de azeite; com uma almotalia; com uma máquina azeitadeira (tapete rolante e torneiras)
Pôr os tampos nas latas (operárias) no aparador junto à cravadeira (operária)

F) Esterilização da conserva
Cravar as latas (fechar a lata com uma cravadeira) (4) (trabalhador da cravadeira) (5)
“Visitar” – Verificar a conserva (visitadeira)
Esterilizar a conserva em cofres de vapor (trabalhadores da caldeira)

(4)Antes da implantação da cravadeira (1ª década do Séc. XX) este trabalho era feito por soldadores com ferro de soldar.
(5)Quando se procedeu à substituição das cravadeiras mecânicas as mulheres passaram também a cravar lata

G) Armazém 
Transportar as latas em carros para armazém
Limpar lata com serradura (moços)
Bater lata – Verificar a qualidade da conserva para suprimir a que tem ar “opada”
Encaixotar – Colocar as latas em caixotes
Aramar
Rotular com uma máquina os dizeres pintados com um escantilhão que indica o nº de fabrico, data e origem da lata
Expedir

 

A análise destes quadros permite-nos deduzir que o espaço fabril se organiza em função de um sistema profissional onde predomina uma elevada componente de força de trabalho, maioritariamente feminina (200 mulheres / 20 homens), que realiza operações em cadeia. A matéria, o peixe, entrava nas fábricas e ia para as mesas onde se iniciava um ciclo de manipulações diversas. As várias operações desenvolviam-se através de actividades manuais (descabeçar, temperar, engrelhar, lavar, encaixar e azeitar, etc.) com recurso a pequenos utensílios(tesoura, pinças, cabazes, latas e grelhas) e a utilização de máquinas automáticas ou semi-automáticas. A cadeia de operações materializa-se espacialmente em postos fixos constituídos por equipamentos e máquinas:

1.      Mesas e bancos para descabeçar (com tampos de madeira ou mármore)
2.      Mesas com dobadouras e grelhas para engrelhar (madeira com tampos de mármore e grelhas de metal)
3.      Pios de salmoura (em cimento)
4.      Pio de lavagem
5.      Autoclave para cozer o peixe
6.      Mesa de enlatar
7.      Cravadeira para cravar os tampos da lata
8.      Cofres de esterilização (método Appert)

Sendo a circulação do produto assegurada pela massa operária e analisando o espaço fabril na sua globalidade, verifica-se a existência de duas zonas distintas: a dos trabalhos de mesa (22) e pio de lavagem, onde trabalham essencialmente as mulheres e raparigas para manipulação do peixe e outra constituída por máquinas e para as caldeiras para cozedura, esterilização e produção de energia e cravadeiras que era o território dos homens.

(22) Nome indígena utilizado pelas operárias

«Era a primeira coisa que a gente ia fazer era aprender a descabeçar o peixe, os trabalhos de mulheres também era meter na lata e encaixar. Cortava-se a cabeça ou o rabo e depois punha-se na lata, depois aquela lata ia a uma máquina para encher de azeite. E depois de meter o azeite, tirava-mos aquilo para uns tabuleiros, carregava-se para outras máquinas que eram as “lobas” (máquinas marca Lubin) chamavam-se as cravadeiras mas eram as “lobas” e depois então é que iam a uma mezinha, naquela máquina, a gente punha os tampos e depois aquilo acalca para baixo e ficavam cravadas as latas. Os homens é que estavam nas caldeiras, carregavam o peixe para cima das mesas, chamavam até os carregadores com os cabazes à cabeça, andavam a carregar para cima das mesas. À medida que iam carregar para cima das mesas, a gente íamos descabeçando, tirando a cabeça e íamos pondo dentro de uns cestos, quando o cesto estava cheio ia-se pôr para uma moura, nós púnhamos, os homens tiravam porque era mais  pesado. A gente é que púnhamos as sardinhas nas grelhas e depois aquelas grelhas, a gente agarrava, ia a um pio muito grande e lavava-se aquilo, depois íamos levar a um carro onde já estavam duas mulheres a meter o peixe nos carros, aí já eram os homens que levavam os carros para dentro das caldeiras para cozer o peixe, depois tiravam o peixe e deixavam arrefecer e quando ficasse frio tiravam as grelhas e depois punham em rumas e nós no outro dia íamos encaixar, depois havia o azeitar, eram umas máquinas que tinham umas torneirazinhas muito pequeninas, que a gente é que punha uma correnteza e a lata corria, carregava-se num botão, a máquina começava a trabalhar e a gente punha a lata a correr e o azeitar corria para dentro da lata».

Como vemos por este testemunho, nunca o sexo masculino fazia trabalhos de mesa, nem as mulheres iam ao autoclave, fornos ou caldeira. Apesar de o argumento ser a habilidade versus força, na realidade pesava nas representações sociais dos operários, as divisão sexual do trabalho e prolongamento dos quotidianos domésticos: trabalhos femininos, trabalhos masculinos. A única situação em que esta evidente divisão sexual e espacial do trabalho se altera, coincide com o momento da substituição da cravadeira mecânica pela automática. A primeira movida por um pedal, exigia força e sincronização e era accionada por um homem. Na automática já trabalhavam mulheres que apenas tinham que se submeter ao ritmo da máquina.

Nas fábricas que para além das conservas (o cheio) também fabricavam a lata (o vazio) existia uma distinção e separação total entre estes dois espaços (cada qual em seu piso) situando-se nomeadamente “o cheio”, fabrico, acondicionamento e armazenamento da conserva no r/c pelo fácil acesso da matéria prima, saída do
produto e utilização de águas, sal e outros ingredientes e “o vazio”, ou fabrico de latas, num primeiro andar ou numa dependência à parte pois tratava-se de uma oficina com características diferentes. O escritório ocupava um lugar de destaque e suscitava a intimidação/atracção, não só pela situação estratégica de controlo, mas porque era um lugar limpo, isolado do barulho e dos cheiros e lidava com saberes e materiais que não fazem parte do quotidiano da maioria dos operários e operárias, que eram analfabetos e habitavam casas abarracadas e pátios sem qualquer conforto. Também era no escritório que se controlava o tempo e assiduidade. O mestre e o encarregado que nomeadamente era o patrão circulavam por toda a fábrica, posicionando-se por vezes numa plataforma ou varandim para controlar as operações.
A industria conserveira caracteriza-se por uma elevada força de trabalho em que predomina a corporalidade (23) ou seja onde a intervenção humana é decisiva, mediada por uma fraca presença de máquinas especializadas em sequência, produção em pequenos lotes e portos individuais fixos. Esta tipologia aproxima-se do modelo «taylorista». (24)

(23) João Freire, Variações sobre o Trabalho, pág. 3 Afrontamento Porto Junho 1996
(24) João Freire, Ibidem, pág. 41

A cravadeira era o símbolo da moderna industria de conservas de peixe, ocupando um lugar de destaque no espaço fabril, ladeada pelos aparadores, mesas que serviam de apoio à colocação das latas. Apesar de não ser  uma máquina de grande porte, evidenciava-se porque era alta e estava normalmente instalada numa área desimpedida, ocupando um lugar de destaque, numa zona mais retirada onde os operadores podiam movimentar-se livremente e desenvolver o seu trabalho com concentração. Este avanço tecnológico foi causador do maior surto de desemprego na industria conserveira.

«A entrada da cravadeira foi uma grande desgraça que houve para o soldador. Aí depois veio ás montadeiras, as montadeiras vieram fazer o trabalho do soldador, e depois as pessoas começaram a despedir os soldadores, não é…, não havia leis naquele tempo e os soldadores ficaram desempregados muitos deles, e ficou aqueles que mais ou menos fazia falta para soldar a lata rota, ou outras coisas poucas que de vez em quando apareciam. Os soldadores foi uma desgraça quando apareceram as montadeiras, as montadeiras vieram fazer o trabalho do soldador. Cravadeira é uma coisa montadeira é outra, a montadeira é para soldar, as tiras que o soldador fazia e antes disso haviam as rebordadeiras que eu não sei dizer bem, para fazer a borda às tiras e mais tarde veio as topadeiras que já fazia a borda de cima e a borda de baixo.
As cravadeiras eram para cravar as latas. Do armazém vinha uma carrada de vazio, com borrachinhas que se punham na lata depois do peixe encaixado, e cravava-se a lata»
(Adelaide, mestra conserveira, 1999)

 

Trabalhos de homens, trabalho de mulheres e trabalho infantil

Quando fazemos a análise de conteúdo das histórias de vida, verificamos que em termos técnicos e organizacionais não há diferenças significativas entre fábricas, quando comparadas com outras da mesma geração.

As mudanças técnicas operadas nesta industria foram diminutas na cidade de Setúbal e fizeram-se sentir diacrónicamente nas várias unidades fabris. Testemunhos dos nossos informantes, que iniciaram a actividade nos anos 30, revelaram a coexistência de diferentes dispositivos técnicos de «fechar a lata» (soldador, cravadeira- mecânica e cravadeira automática) nas fábricas em laboração. O trabalho das mulheres revela-se essencialmente por práticas manuais-artesanais (manipuladoras de peixe – ver quadro – ). Este grupo social em elevado número possuía além da sua força de trabalho, as ferramentas (pinças e tesouras) por elas adquiridas e que as acompanhavam de fábrica em fábrica. Relativamente à «farda» constituída por avental, lenço e tamancas também era da maioria das operárias que se obrigavam a mantê-la limpa.

Os homens estavam destinados para os trabalhos mecânicos, (autoclaves, fornos e cravadeiras) produção de energia (caldeiras), leitura de instrumentos de controle e precisão associados aos fornos de cozimento e de esterilização têmperos de peixe (mouras). O controle da qualidade das conservas de peixe, a nível sensorial, é do domínio feminino e é consignado nos contratos colectivos de trabalho de 1936 e 1938, após a nova constituição de 1933 como trabalho especializado (visitadoras de lata, no enlatamento, no azeitamento e no vazio) e batedeiras de lata. No sector, onde o trabalho era executado por homens, as «visitadoras do vazio» inspecionavam o fabrico das latas, exercendo um controle pontual mas decisivo, sobre o produto. Esta representação de que a mulher é sensível, responsável e consciente é aproveitada pelos patrões e encarregados, no controle do trabalho dos homens, conferindo-lhe um lugar importante na cadeia de produção, mas subestimando em termos remuneratórios (50% do trabalho executado no “vazio” pelos homens, igual ao salário de um homem, trabalhador não especializado), e por isso não valorizado pelos nossos entrevistados masculinos.

Quando o controle era mediado por instrumentos (interacção humana e não humana), que implicava, descodificar, ler e interpretar, era muito valorizado e considerado um saber masculino «máquinas é com os homens». A ideia de que a mulher era «habilidosa», «desembaraçada» e dona de casa, (o gosto pelo bonito – o arranjo do peixe na lata) transpunha-se para a fábrica numa continuidade dos trabalhos domésticos, enquanto ao homem era-lhe vedado estas tarefas, que nem ele, nem as operárias o desejariam, pois socialmente ele é força e símbolo de virilidade, executando trabalhos «pesados, custosos e perigosos» que segundo os nosso informantes masculinos e femininos nunca poderiam ser feitos por mulheres. As levantadeiras de lata para o azeitamento, era um trabalho contemplado como especializado nos contratos colectivos de trabalho e era muito considerado no meio fabril, pois implicava «destreza, desembaraço e arranjo». Segundo as nossas entrevistadas, não era qualquer mulher que o podia fazer. Tinha que ter determinadas qualidades «uma levantadeira de lata não pode ter medo, por exemplo a ti Carminha e a Bernardete levantavam paus de lata (30 ou mais latas – em pilhas também apelidadas de rumas) que dava gosto. Tinha que ser ligeira, desembaraçada… é um ritmo» Francelina, ex-operária da indústria conserveira.

As relações de trabalho entre mulheres e homens, segundo os nossos entrevistados eram de «grande respeito». Analisando as condições de trabalho e o poder discricionário dos patrões e encarregados, este respeito pode ser lido como medo de ser suspensa, por criar maus ambiente ou distúrbio, aliás contemplando no capitulo III sobre disciplina no trabalho, no Contrato Colectivo de 1936. A existência de conflito entre operários era abafada e resolvida no exterior da fábrica. A cooperação materializa-se em pequenos gestos de interajuda, entre familiares e vizinhos, como por exemplo no cumprimento do número diário de latas para encaixe «A minha mãe já estava muito doente e eu encaixava latas a mais para lhe dar» (Francelina, antiga operária da indústria conserveira) ou nas necessidades básicas de subsistência que obrigavam as operárias a roubar alguns peixe para levar para casa «eu como era muito revolucionária fazia grande conversa com a mestra, para a minha colega, sair com peixe dentro do avental» Amélia, ex-operária da indústria conserveira. Nas grandes fábricas onde se fazia conservas de outras espécies, nomeadamente choco, o «roubo» das ovas do mesmo era «autorizado» pelos mestres desde que eles e os empregados do escritório recebessem uma quota parte. O poder exercido pelo encarregado era de vigilância e controle representando o patrão e os seus interesses. Os mestres e mestras estabeleceram relações habilidosas e de equilíbrio entre o poder e a massa trabalhadora, estabelecendo um compromisso tácito que visava o encobrimento de pequenas falhas em troca de um aumento de produção que os valorizava perante os patrões. As greves como esperança extrema de reivindicação centravam-se em torno dos salários e diminuição de horário de trabalho. A aderência a estas reivindicações foram aumentando e alargando-se a toda a massa laboral consoante esta foi adquirindo consciência de classe. Aos soldadores, verdadeira aristocracia operária, juntavam-se após a 1.ª república, as mulheres e os «moços».

Mesmo que alguns patrões recusem lembrar-se que havia crianças na fábrica, muitas das nossas entrevistadas nunca esquecerão que entraram para a fábrica aos 8 anos, 12 e 14 anos e que para chegarem às bancas de descabeçar e engrelhar tinham que subir a um caixote, para «aprender vendo». Esta situação aceite pelo tudo social, beneficiava o patronato (míseros salários) e sujeitava as famílias numerosas que não tinham outra alternativa senão pôr os filhos a trabalhar para matar a fome.