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Um presente amargo • José Manuel Lopes Cordeiro • 27/06/1999


Um presente amargo • José Manuel Lopes Cordeiro

Artigo no jornal Público 27/06/1999

Um século após a sua fundação, a antiga “Real Fábrica a Vapor de Conservas Alimentícias”, de “Lopes, Coelho Dias & Cª”, cujas primitivas instalações se situavam na Rua de Brito Capelo, em Matosinhos, está a ser demolida para dar lugar a uma urbanização. Por ironia do destino, a primeira fábrica de conservas que ali se estabeleceu, no final do século XIX, é também a primeira a ser demolida, inaugurando, provavelmente, a concretização do plano de recuperação urbana da zona sul de Matosinhos.

A “Lopes, Coelho Dias & Cª” foi fundada por uma sociedade na qual pontificava o industrial José Coelho Dias, que já tinha alguma experiência no ramo da indústria conserveira, em virtude de, anteriormente, ter sido o proprietário da “Fábrica de Conservas Lusitana”, estabelecida em Miragaia. O sucesso obtido com esta fábrica animou-o a expandir-se no sector conserveiro, fundando uma nova fábrica, de raiz, com instalações modelares e uma melhor localização, tanto no que dizia respeito ao aprovisionamento da matéria-prima como no das vias para a exportação dos produtos fabricados.

Para tal, nada melhor que localizar a nova unidade junto da praia de Matosinhos – então designada por Bouças -, beneficiando igualmente da proximidade do porto de Leixões, por onde poderia exportar a produção, uma vez que, desde os seus primórdios, o sector da indústria conserveira em Portugal constituiu fundamentalmente um sector exportador.

Os produtos da “Lopes, Coelho Dias & Cª”, que naquela época constituíam uma novidade e cujo consumo atraía principalmente as camadas médias da sociedade portuguesa, apresentavam duas características essenciais: eram de grande qualidade – rivalizando com os que a “Fábrica Brandão, Gomes & Cª”, com sede em Espinho e uma filial em Matosinhos, também colocava no mercado – e apresentavam uma enorme diversidade.

Infelizmente, estas fábricas pioneiras vão perder em breve esta última característica, interessando-se apenas na produção de conservas de peixe, com especial destaque para as de sardinha, principalmente após o início da expansão do sector conserveiro no centro produtor do Norte, o que ocorreu a partir da década de 20.

Mas, no princípio deste século, a produção destas fábricas constituía um verdadeiro festival gastronómico. Tanto a “Lopes, Coelho Dias & Cª” como a sua rival de Espinho colocavam no mercado produtos em conserva que hoje em dia dificilmente conseguimos imaginar. Para além das conservas de sardinha, que já então constituíam a sua principal produção, e que eram preparadas nas mais diversas e extravagantes variedades (por exemplo, conservas de sardinha fumada), estas fábricas produziam uma imensa variedade de conservas de peixe (atum, salmão, congro, cherne, linguado, pescada…), de marisco (ameijoas, camarão, lagosta, mexilhão e ostras), de carnes (vitela, carneiro, vaca e porco), de aves (frango, pato, peru e borracho), de caça (codorniz, coelho, lebre, pato, perdiz, pombo e rola), de legumes (espargos, grelos, nabos, repolho, cenoura, couve), e ainda embalagens enlatadas de queijo da serra, frutas em calda, geleia ou polpa para sorvetes.

A extrema variedade de conservas que, nesta época, caracterizava a produção destas fábricas incluía ainda diversos tipos de molhos – a “Brandão, Gomes & Cª” granjeou um enorme sucesso comercial com o seu afamado “Molho de Espinho” -, azeite, vinagre, mostarda e “pickles”.

A participação de Portugal na I Guerra Mundial constituiu o ensejo para apresentarem ainda um novo produto, as refeições de campanha, em latas de um quilograma, adaptadas ao paladar nacional, como o bacalhau guisado com batas ou grão, dobrada, ou vitela à jardineira.

Aspecto não negligenciável da actividade destas fábricas, e constituindo um suporte fundamental para a sua afirmação e conquista de mercados – que, no caso português, ainda se encontravam pouco familiarizados com este tipo de produtos – consistia nos materiais publicitários que ambas editavam. Desde os luxuosos catálogos de produtos às estampas, postais, cartazes, calendários, todos eles evidenciavam uma grande originalidade e qualidade artísticas, para cuja execução recorriam por vezes a oficinas gráficas estrangeiras. Pretendiam, sobretudo, associar uma imagem de prestígio à qualidade dos seus produtos, desiderato que, efectivamente, conseguiram alcançar com pleno êxito.

Enquanto estas fábricas foram praticamente as únicas no mercado nacional – os centros conserveiros de Setúbal-Sesimbra e do Algarve, apesar de nesta época serem mais importantes, não apresentavam este tipo de produção tão diversificada – os negócios decorreram com normalidade, não obstante a crise do sector conserveiro verificada no pós-guerra, a que se seguiram os efeitos da Grande Depressão de 1929, ainda que limitados, mas que tiveram algum impacte num dos poucos sectores cujos produtos Portugal conseguia exportar. Os problemas surgiram, um pouco mais tarde, decorrentes da natural expansão do sector conserveiro no centro produtor do Norte, embora globalmente este desenvolvimento tivesse provocado efeitos positivos na economia da região, catapultando, a partir da década de ’30, o núcleo conserveiro de Matosinhos para o primeiro lugar no “ranking” do sector conserveiro nacional. A expansão registada nas décadas de ’20 e de ’30 – a que se seguiu o excepcional período de procura de conservas portuguesas durante a II Guerra Mundial -, com base na especialização das fábricas conserveiras de Matosinhos numa única variedade de produtos, as conservas de peixe, impossibilitou a sobrevivência de fábricas, como a “Lopes, Coelho Dias & Cª”, que registava elevados custos de exploração em virtude da extrema variedade de produtos que continuava a fabricar. Embora, nos últimos anos da sua vida como unidade conserveira, tivesse reduzido essa multiplicidade de produtos, privilegiando a produção de conservas de sardinha, das quais chegou a produzir 6 milhões anuais de latas, empregando 300 operários, era impossível continuar a manter uma estrutura produtiva como a que se mantinha desde a sua fundação.

A “Lopes, Coelho Dias & Cª” acabou por encerrar, vendendo as instalações, que, contudo, se mantiveram no local original até há poucas semanas, quando começaram a ser demolidas para dar lugar à já referida urbanização.