Empresa

Nero & Cª (Sucessor) • Sesimbra


Marcas:  Catraio  |  RONE  |  GREMIUM  |  Porthos

Nero & Cª (Sucessor), Lda.

Factory name A Persistente, «fábrica do Burro», «fábrica do Nero»

Founded 15 June 1932

Closing date 1944

Sesimbra • Portugal

PACKERS OF CANNED FISH IN OLIVE OIL

A INDÚSTRIA CONSERVEIRA DE SESIMBRA NOS PRIMÓRDIOS DO ESTADO NOVO
(1933-1945)

Andreia da Silva Almeida

A Nero & Cª (Sucessores) Ldª. Sesimbra

A fábrica Nero & Cª (Sucessores) Ldª. foi uma das conserveiras mais emblemáticas de Sesimbra, constituindo uma espécie de berço das restantes que haveriam de ser fundadas naquela vila. As suas raízes remontam à firma Paschoal, Nero & Companhia, fundada em 1912, e cuja laboração se iniciaria a 15 de Junho desse ano, por Amadeu Henrique Nero, José Joaquim Pascoal, Artur Duarte Borges, Manuel Caetano da Silva e Leandro da Silva Pereira.

Esta empresa tinha um capital social de 2 mil escudos e era dividida em 5 quotas iguais de 400 escudos. Um dos sócios desta empresa, Manuel Joaquim Caetano da Silva, natural da Fuzeta era referenciado como anarquista, iniciando a sua militância durante o período republicano 77.

77 Cf. FREIRE, João – Dicionário histórico de Militantes Sociais, Grupos Libertários e Sindicatos Operários

A 22 de Janeiro de 1917, observa-se a saída de José Joaquim Pascoal, e a empresa passa a ter a designação social de Borges, Nero & Cª. O capital social da empresa mantém-se, passando a ser dividido por 4 quotas de 500 escudos.

Com a saída de Artur Duarte Borges, a 17 de Agosto de 1918, que iria fundar uma conserveira com o seu nome, esta empresa passaria a ser denominada Nero & Cª. A firma manteria o mesmo capital social, só que este seria repartido de uma forma diferente: 2 quotas de 666 escudos e 67 cêntimos e 1 quota de 666 escudos e 66 cêntimos, esta última pertencente a Leandro da Silva Pereira 59.

A 6 de Agosto de 1920, seria feita nova escritura para aumento de capital, que passaria dos anteriores 2 mil escudos para 15 mil escudos, repartido por 3 quotas de 5 mil escudos.

A 21 de Janeiro de 1928, Amadeu Henrique Nero compraria as quotas dos seus dois sócios, pelo valor de 9 mil escudos a cada um, passando a ser detentor de todo o activo e passivo da empresa que, contudo manteve a mesma designação social.

A 19 de Maio de 1932, é extinta a Nero & Cª e 15 de Junho do mesmo ano é constituída uma nova empresa, a Nero & Cª. (Sucessor) Ldª.60, cujo capital social era de 50 mil escudos e contava com 4 sócios: Amadeu Henrique Nero (com quota de 20 mil escudos), Milton Albuquerque Freire da Cruz (com uma quota de 10 mil escudos), Caetano Joaquim dos Reis (com uma quota de 10 mil escudos) e João Lobato Diniz (com quota de 10 mil escudos) 61. Amadeu Henrique Nero era, pois, o sócio maioritário. Pensamos que Caetano Joaquim dos Reis, seu sócio, era um dos membros do Integralismo Lusitano, tendo sido presidente, na década de 1920, do Sindicato do Empregados do Comércio 62. Outro dos sócios do industrial sesimbrense, cujo herdeiro, em entrevista, não soube especificar qual, era também um dos sócios da Casa Africana, empresa dedicada ao comércio de vestuário, que ainda está de portas abertas na actualidade.

59 Entevista a José Nero, herdeiro e seguidor do seu avô e actual proprietário das Conservas Nero (Lisboa, 11 Dezembro 2011).

60 Cf.« Nero & Cª (Suc.) Ldª», O Cezimbrense, nº. 309, 26 Junho 1932, p.3.
61 Entrevista a José Nero, herdeiro da Nero & Cª (Lisboa, 15 Dezembro 2011).

62 Cf. CRUZ, Manuel Braga da, «O Integralismo Lusitano nas Origens do Salazarismo», Análise Social vol. XVIII (70), 1982, p. 145.

Através do seu pacto social, esta sociedade previa que, em caso de morte ou interdição de um dos três sócios de Amadeu Henrique Nero, os herdeiros ou representantes destes receberiam a quota e lucros constantes no balanço à data do óbito ou sentença, ficando impedidos de continuarem a sociedade. Em caso de morte ou interdição de Amadeu Henrique Nero, os seus herdeiros ou descendentes ficariam a gerir a sociedade. E foi assim que, paulatinamente, a empresa veio parar às mãos do filho de Amadeu Henrique Nero, Amadeu Rodrigues Nero, embora este tivesse vindo a adquirir a quota de um dos sócios do seu pai.

Quando o filho do industrial sesimbrense adquiriu a quota de um dos sócios da empresa, esta passou apenas a contar com dois sócios: o pai, Amadeu Henrique Nero, representante maioritário, e o filho, Amadeu Rodrigues Nero, representante minoritário.

Após a morte do patriarca, o seu filho passaria a ser herdeiro de 98% da empresa, sendo a sua viúva legatária dos restantes 2%. Após a morte de Amadeu Rodrigues Nero, a sua quota ficou indivisa para os seus herdeiros, entre os quais José Nero que, ainda hoje, continuam o mesmo ofício da produção industrial de conservas de peixe 63.

A empresa de Amadeu Henrique Nero, situada na Rua Manuel de Arriaga, era também conhecida, em Sesimbra, pela fábrica A Persistente, e popularmente famosa como a «fábrica do burro», por utilizar um burrico no transporte do peixe desde a lota à unidade fabril.

O nome de A Persistente estava ligado a uma característica da família Nero: a persistência. Na verdade, a família Nero era proveniente de Sardenha, tendo emigrado para Portugal em busca de peixe para exportar, de modo a alimentar uma indústria de prensados de sardinhas salgadas ou polvo seco, por volta do século XVII 64. Na verdade, era habitual as fábricas serem conhecidas por nomes que nada tinham a ver com a sua designação social. José Nero, herdeiro e seguidor do seu avô, Amadeu Henrique Nero, admite que o epíteto de A Persistente, não foi muito marcante, pois era mais fácil pronunciar o nome «Nero», sendo a fábrica mais conhecida na vila como a «fábrica do Nero».

63 Entrevista a José Nero, herdeiro da Nero & Cª (Lisboa, 15 Dezembro 2011).

64 Cf. BARROS, Mariana Correia de, «Conserva-me se Puderes». Time Out, 5 Abril 2011 [em linha], [Cons. 28 Outuvbro 2011]. Disponível em WWW: http://www.timeout.pt/news.asp?id_news=6805. 

Meio de Transporte Típico do Peixe, em Sesimbra, utilizando um Burro
Meio de Transporte Típico do Peixe, em Sesimbra, utilizando um Burro

Fig.21: Meio de Transporte Típico do Peixe, em Sesimbra, utilizando um Burro. Foi este tipo de transporte preconizado pela empresa Nero & Cª (Suc) Ldª, que lhe deu o epíteto de «fábrica do burro» (Sesimbra, s.d.) [EFAMS]. 

Durante o ano de 1938, encontramos referência ao início da fabricação da marca «Atum Catraio» pela empresa de Amadeu Henrique Nero, que colocaria publicidade ao produto no jornal regional de Sesimbra.

Conforme dita o reclame publicitário, aquele atum era uma bela conserva em finíssimo azeite, uma verdadeira especialidade.

Conforme nota José Nero, para além da marca Catraio, que era sua pertença, a Nero & Cª (Sucessores) Ldª, produzia, também, a marca Naval, marca de grande prestígio, que pertencia a uma outra distribuidora.

Para além destas duas marcas, a empresa também produzia conservas de sardinha com a marca Porthos. Esta marca sofreu grandes alterações a partir da década de 1960, tendo sido copiada em Espanha e na Turquia para depois ser vendida a países do Médio Oriente, onde a marca era líder de mercado.

Numa das cópias efectuadas em Espanha, o nome foi alterado para Abou-chanab que, em árabe, significa «homem das barbas», como eram conhecidas aquelas sardinhas na Síria.

Para além desta marca, A Persistente produzia, ainda, a marca Rone, em homenagem a um dos trabalhadores da empresa, marca que era comercializada apenas em Sesimbra. Este empregado era uma espécie de homem de confiança do patrão, que vestia a camisola da empresa sendo, por tal, apelidado por toda a vila de «Nero». Contudo, Amadeu Henrique Nero não gostou da comparação, pelo que decretou que o fiel empregado não se chamaria «Nero», mas «Rone», isto é, o nome «Nero» escrito de forma inversa. Pelo que a lata de conservas correspondente a esta marca exibia a figura do trabalhador 65. Temos, ainda, a indicação que esta fábrica produzia, da mesma forma, a marca Gremium. 66.

No que diz respeito às condições físicas da fábrica, não temos nenhum registo que as descreva. Todavia, temos a indicação de que, nos primórdios, a fábrica também produzia conservas de aves. Através de alguns registos fotográficos existentes, pertencentes à colecção particular de José Nero, podemos constatar que a fábrica possuía uma secção de corte e descabeço do peixe, pelo menos três autoclaves para a esterilização das conservas, uma sala de enlatamento onde ainda não eram utilizadas mesas forradas com pedra mármore, uma secção de enchimento de latas com azeite e de cravação, onde existiam, pelo menos duas cravadeiras.

José Nero aponta, ainda, a existência de lavadoras de latas e uma caldeira a vapor não conseguindo, no entanto, especificar o número de trabalhadores que existiam na fábrica. Segundo ele, existia, ainda, um armazém onde eram produzidas as latas vazias, ao lado de «..uma casinha que servia de escritório…», virados para a Rua D. Afonso Henriques 67.

De facto, temos informação de que a Nero & Cª (Suc.) Lda, possuía fabrico manual de latas para conservas de peixe em molhos, conforme consta no Inquérito à Indústria de Vazio das Fábricas de Conservas de Peixe e à Indústria de Latoaria Mecânica 68. Tal inquérito aponta-nos a maquinaria existente nesta unidade industrial para o fabrico do «vazio», durante o ano de 1941. Para tal, esta empresa possuía 3 balancés, topos ou abatages que serviam, como verificámos anteriormente, para o corte e cunhagem dos fundos e dos tampos das latas. Possuía, também, 3 rebordadeiras a pedal e de mesa, que serviam para fazer os rebordos no corpo das latas. Uma prensa de cortar e cunhar e 2 máquinas de colocar borracha faziam, da mesma forma, parte do património industrial desta empresa 69.

Por volta da década de 1940, o peixe, em Sesimbra, começou a diminuir, tendo em conta o problema da concorrência entre a pesca por arrasto e a pesca com as antigas artes de Sesimbra, tema que abordaremos mais adiante. Amadeu Henrique Nero estava, nessa altura, preparado para deslocalizar a sua fábrica para Setúbal, onde encontrava maiores facilidades pois, no passado, a sua família havia aí possuído unidades de salga de peixe, as chamadas «estivas».

Contudo, segundo relato de José Nero, um primo de Amadeu, Augusto Soromenho, que tinha uma fábrica em Setúbal e a havia transferido para Matosinhos, incentivou-o a também mudar para o norte, convencendo-o que seria ali que ganharia «muito dinheiro». E assim aconteceu, começando a Nero & Cª (Sucessores) Ldª, a laborar em Matosinhos, a 11 de Novembro de 1944.

65 Cf. Entrevista a José Nero, herdeiro da Nero & Cª (Lisboa, 15 Dezembro 2011).

66 Cf. ADGPA, Fundo do Grémio dos Industriais de Conservas de Peixe do Centro, Actas de Direcção, 1937, Reunião nº. 45, 17 Abril 1937.

67 Idem, ibidem.

68 Cf. COSTA, Avelino Poole da, op. cit, pp.56-57.

69 Idem, ibidem, pp. 56-57. 


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